"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quarta-feira, 29 de março de 2017

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A gente tem a mania de se explicar demais.
Quase todo mundo estimulando a rotulação uns dos outros.

É dispensável grandes elementos de oratória quando o que estressa aos rotuladores pode ser respondido numa frase:



Fiquei pensando:
e se a gente pudesse voltar no tempo e refazer as coisas?
Não sou o tipo de gente que levanta a bandeira do:
“a gente só deve se arrepender do que não fez”.
Tem muita coisa que eu fiz e me arrependo, sim.
Já fiz muita cagada nesta vida.
De algumas coisas, sinceramente, me envergonho.
De outras, me perdoo. 



Se for preciso, escreva.
Se for útil, publique.
Se aliviar, compartilhe
Se necessário, furte-se de ter razão
E seja anfitrião na escuta, calada, atenciosa e amorosa.
Agindo assim, talvez não se torne celebridade. 
Certamente irá adquirir apenas serenidade (se isso importar).

#importa sim!

O rico domina sobre o pobre; quem toma emprestado é escravo de quem empresta.

Provérbios 22:7

quinta-feira, 23 de março de 2017


Troque sua quaresma sem doce, refrigerante ou pão, por uma quaresma sem fofoca, maldade ou egoismo.
Para Deus e para o mundo não faz diferença ficar sem tomar coca-cola ou cerveja por 40 dias, se você continuar a ser reflexo do inferno na vida dos outros.

cachê vexame


Uma ideia criativa alavanca as vendas. Slogans como “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”, “não é nenhuma brastemp” e “bonita camisa, Fernandinho” ficaram no imaginário coletivo e são alguns dos cases que orgulham a propaganda brasileira. Porém, na ausência de uma sacada genial, o recurso é buscar o depoimento de pessoas famosas, já que elas encurtam o caminho até a aceitação do consumidor.

Esta eficiência, claro, tem um preço. Já vi atriz que mora na Barra da Tijuca anunciar um condomínio em Porto Alegre dizendo que era o lugar onde sempre sonhou morar. Por que uma atriz global iria querer morar aqui no Sul? Por nenhum motivo. Ela jamais cogitou essa hipótese. Queria apenas embolsar os 50 mil do cachê para terminar de pagar seu apartamento de frente para o mar. Pareceu-lhe um preço justo pelo vexame de ter que aparecer em horário nobre dizendo uma inverdade.

Por um dinheiro extra – não qualquer dinheiro, mas um extra de muitos dígitos –, há quem deixe o ego de lado. Quem não se lembra de Gloria Pires dizendo que iria nos contar um segredinho? “O Orlando tem caspa”. Pois é, o Brasil inteiro descobriu que o marido de uma de suas mais talentosas atrizes tinha caspa e havia resolvido o problema com determinado xampu. Beleza. Logo o comercial saiu do ar e o casal recebeu sua grana honesta.

Se o Orlando tinha caspa mesmo, ou ainda tem, será sempre uma incógnita que roubará nosso sono. O que importa é que nenhum crime foi cometido – o consumidor sabe que propaganda testemunhal não é feita por filantropia.

Os cachês são altos porque os riscos também são. Maitê Proença vendeu sua credibilidade para anunciar uma marca de anticoncepcionais que se revelou fraudulenta: algumas mulheres engravidaram por ingerirem pílulas de farinha. A empresa foi autuada e ainda teve que pagar indenização para a atriz, que fez muito bem em buscar seus direitos.

Por essas e outras, é bom pensar direitinho antes de usar a própria imagem para vender detergentes, remédios, sabonetes, cervejas. Vá que o dono da empresa esteja usando uma tornozeleira eletrônica, vá que baratas estejam perambulando perto demais dos estoques, vá que esqueceram de comentar esses detalhes no contrato.

A repercussão da Operação Carne Fraca pode ser exagerada, mas o estrago está feito: Tony Ramos se queimou por enaltecer as virtudes de uma empresa sob suspeita. Diante de uma oferta milionária, não titubeou– alguém iria?

O Brasil não é um bom distribuidor de renda, mas o vexame está ao alcance de todos.



Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram. 

Romanos 12:15

quarta-feira, 22 de março de 2017



‘A mente que se abre a uma nova ideia 
jamais voltará ao seu tamanho original’.

a eles


Gosto de refletir sobre a condição humana, essa que unifica a todos, não importa a idade, raça, condição financeira. Aquilo que a gente carrega dentro (dores, desejos, sonhos) e que formata a nossa essência.

Raramente escrevo sobre política, pois sou movida a entusiasmo, e política, ao contrário, me desanima. Acredito que deveríamos devolver o Brasil para os índios e pedir desculpas, mas não há como voltar no tempo. É preciso lidar com esse monstro que geramos, um país onde há um encantamento patético pelo poder, um fascínio cafona e provinciano. Em vez de cidadãos maduros trabalhando pelo bem social, a maioria dos servidores se apega a cargos, perdendo facilmente o senso de justiça, ética e decência. É um vexame público. Dá para adivinhar seus pensamentos: “Que a imprensa reclame, que as redes explodam, se eles estivessem aqui fariam o mesmo, vamos livrar o nosso que é o que interessa”. Chego até a escutar o sotaque de alguns.

Livrar o nosso. Nosso de quem? Nada é deles. Dinheiro que vem do trabalho de cada habitante do norte, do centro, do sul. NADA é deles. O que poderia ser deles – a biografia honrada - foi negligenciado em troca de sentirem-se imperadores de coisa nenhuma. Vão morrer menosprezados pela pátria e deixarão uma vergonha colossal de herança para os filhos.

Pois é, eles esquecem que vão morrer. Além da ausência total de escrúpulos, falta também essa humildade.

Estou escrevendo para o presidente, governadores, senadores, deputados, ministros, todos aqueles que têm motivo para não dormir à noite, seja porque foram citados em delações ou porque foram coniventes com os trambiques rotineiros de Brasília. Escrevo para os que não têm habilidade para nada além de passar a perna no país e faturar com isso. Para os que acreditam que ser poderoso é fazer uso despudorado do lobby, arregimentar uma legião de puxa-sacos, dar explicação sobre sua conduta em frente a microfones e perder a capacidade de se avexar pela reputação espúria que construiu.

A todos: por favor, compostura. Não entrem para a história como ratos. Assumam suas responsabilidades sem colocar uma nação inteira em risco. Se tiverem que ir para o sacrifício, vão - de cabeça em pé, sem recorrer a manobras indignas. Sejam homens. 200 milhões de olhos estão sobre vocês, testemunhando a desmoralização de suas carreiras. A democracia é um bem valioso. Trabalhem pela sobrevivência dela ao menos no último ato.

#quem procura, acha!


Procure obter sabedoria e entendimento; não se esqueça das minhas palavras nem delas se afaste.

Provérbios 4:5            

segunda-feira, 20 de março de 2017


Quando o casal me diz que nunca discute ou está mentindo ou um dos dois reclama e o outro é indiferente.

A farsa é para selfie. Pois o sorriso de margarina derrete ao sol da verdade.

Não tem como acertar sempre de primeira. Nem os inspirados em rosas e gentilezas, nem os plantonistas dos versos de Pablo Neruda.

A paz é feita de sucessivos acordos e tratados. Ninguém assina a concordância eternamente. Não há amor à primeira vista, isso é coisa da paixão. O amor é parcelado em cada reconciliação.

Há casais que brigam excessivamente, com temperamentos geniosos, e casais que brigam pouco, com uma maior maleabilidade de suas opiniões. Mas não discutir é censura. Nada mais triste do que a ditadura da felicidade. Compreensão difere assombrosamente da submissão.


(...) Nem todos sabem como surgiu esta prática de guardar o estômago para os prazeres oriundos do mar ou das afamadas receitas portuguesas quando o assunto é bacalhau.

É certo que não há, nas sagradas escrituras, nenhuma norma ou referência que regulamente o consumo de peixes nesta época do ano. Da mesma forma como é fácil compreender a jogada comercial que motivou a prática.

Na virada do século XV para o XVI o Vaticano financiava boa parte das grandes expedições marítimas. Para tanto associou-se a vários reis e rainhas católicos, em particular da Espanha e Portugal. Nos novos continentes descobertos, seu quinhão estava assegurado — a peso de muito ouro e enormes propriedades.

É nesta época que, de repente, a Igreja cisma de decretar que, em reconhecimento ao sofrimento de Cristo, os fiéis não poderiam consumir carnes “quentes” ou “vermelhas” durante a Quaresma.

O que nem todos sabiam é que o Vaticano, na verdade, era proprietário da maior frota bacalhoeira — caravelas para a pesca do bacalhau que levavam os “dóris”, barcos a remo nos quais os pescadores (bacalhoeiros) se lançavam ao mar para a pesca.

Seus armazéns ficavam abarrotados e era preciso escoar regularmente a mercadoria antes do vencimento dos prazos de validade (afinal, peixe salgado também estraga porque o sal se desfaz a baixas temperaturas durante o inverno).

Assim, visando a maximizar seus lucros, espertamente os padres proibiram o consumo de outros tipos de carne durante a Quaresma. Não deu outra: as vendas de bacalhau explodiram, já que o alimento era apreciado nas camadas populares europeias, sobretudo portuguesas, por ser nutritivo e barato.

Os ricos e nobres continuaram mandando brasa nos seus faisões. 

__Luis Nassif

canção de outono


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,

menos que as folhas do chão...

Ele muda as épocas e as estações; destrona reis e os estabelece. Dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos que sabem discernir. 

Daniel 2:21

domingo, 19 de março de 2017



Não é este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é Maria, e não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 

Mateus 13:55

#dia do carpinteiro

sábado, 18 de março de 2017

aproveitando a deixa


Deixa o Rei faturar uns troquinhos. Ele merece e tem enorme crédito com cada um de nós, brasileiros.

Quem já nos repassou tantas emoções e nos ensinou que é preciso saber viver tem o direito de outra vez fazer com que 1 milhão de amigos escolham carne Friboi.

O Rei, se houver patrulhamento, vai dizer: querem acabar comigo. E se ficar raivoso, complementará: quero que vá tudo pro inferno! Se insistirmos no patrulhamento, ele nos desafiará: pode vir quente que estou fervendo!

Cá entre nós, o Rei é gente boa e cada vez que ele nos olha, em foto ou em vídeo, tenha a certeza de que ele nos faz esta pergunta: como vai você? Ele pode argumentar, ainda, que não fará novamente comercial de carne e dizer: solamente una vez.

Se você insistir que o comercial por ele estrelado é ilegal, imoral e engorda, certamente o Rei dirá que o show já terminou porque não quero ver você triste! E restará a você olhar além do horizonte e voltar a cantarolar as canções que você fez pra mim!

Grato, Roberto, porque falando sério, estamos com muitas saudades das belas tardes de domingo contigo, Erasmo, Vanderleia, Jerry Adriani, Vanderlei Cardoso, Leno e Lilian, Demetrius, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, The Fevers…

Fim de papo, na certeza de que uma picanha Friboi ficará mais saborosa se tiver uma brasa, mora!
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De Luiz Carlos Rizzo
Recomendável para quem curtiu a Jovem Guarda

a falsa liberdade e a Síndrome do “ter de”


Essa é uma manifestação típica do nosso tempo, contagiosa e difícil de curar porque se alimenta da nossa fragilidade, do quanto somos impressionáveis, e da força do espírito de rebanho que nos condiciona a seguir os outros. Eu tenho de fazer o que se espera de mim. Tenho de ambicionar esses bens, esse status, esse modo de viver – ou serei diferente, e estarei fora.

Temos muito mais opções agora do que alguns anos atrás, as possibilidades que se abrem são incríveis, mas escolher é difícil: temos de realizar tantas coisas, são tantos os compromissos, que nos falta o tempo para uma análise tranquila, uma decisão sensata, um prazer saboreado.

A gente tem de ser, como escrevi tantas vezes, belo, jovem, desejado, bom de cama (e de computador). Ou a gente tem de ser o pior, o mais relaxado, ou o mais drogado, o chefe da gangue, a mais sedutora, a mais produzida. Outra possibilidade é ter de ser o melhor pai, o melhor chefe, a melhor mãe, a melhor aluna; seja o que for, temos de estar entre os melhores, fingindo não ter falhas nem limitações. Ninguém pode se contentar em ser como pode: temos de ser muito mais que isso, temos de fazer o impossível, o desnecessário, até o absurdo, o que não nos agrada –  ou estamos fora.

A gente tem de rir dos outros, rebaixar ou denegrir nem que seja o mais simples parceiro de trabalho ou o colega de escola com alguma deficiência ou dificuldade maior.  A gente tem de aproveitar o mais que puder, e isso muitos pais incutem nos filhos: case tarde, aproveite antes! (O que significa isso?) A gente tem de beber em preparação para a balada, beijar o maio número possível de bocas a cada noite, a gente tem de.

A propaganda nos atordoa: temos de ser grandes bebedores (daquela marca de bebida, naturalmente), comprar o carro mais incrível, obter empréstimos com menores juros, fazer a viagem maravilhosa, ter a pele perfeita, mostrar os músculos mais fortes, usar o mais moderno celular, ir ao resort mais sofisticado.

Até no luto temos de assumir novas posturas: sofrer vai ficando fora de moda.

Contrariando a mais elementar psicologia, mal perdemos uma pessoa amada, todos nos instigam a passar por cima. “Não chore, reaja”, é o que mais ouvimos. “Limpe a mesa dele, tire tudo do armário dela, troque os móveis, roupas de cama, mude de casa.” Tristeza e recolhimento ofendem nossa paisagem de papelão colorido. Saímos do velório e esperam que se vá depressa pegar a maquilagem, correr para a academia, tomar o antidepressivo, depressa, depressa, pois os outros não aguentam mais, quem quer saber da minha dor?

O “ter de” nos faz correr por aí com algemas nos tornozelos, mas talvez a gente só quisesse ser um pouco mais tranquilo, mais enraizado, mais amado, com algum tempo para curtir as coisas pequenas e refletir. Porém temos de estar à frente, ainda que na fila do SUS.

Se pensar bem, verei que não preciso ser magro nem atlético nem um modelo de funcionário, não preciso ter muito dinheiro ou conhecer Paris, não preciso nem mesmo ser importante ou bem-sucedido. Precisaria, sim, ser um sujeito decente, encontrar alguma harmonia comigo mesmo, com os outros, e com a natureza na qual fervilha a vida e a morte é apaziguadora.

Em lugar disso, porém, abraçamos a frustração, e com ela a culpa.

A culpa, disse um personagem de um filme, “e como uma mochila cheia de tijolos. Você carrega de um lado para o outro, até o fim da vida. Só tem um jeito: jogá-la fora”. Mas ela tem raízes fundas em religiões e crenças, em ditames da família, numa educação pelo excessivo controle ou na deseducação pela indiferença, na competitividade no trabalho e na pressão de nosso grupo, que cobra coisas demais.

Dizem que devemos nos informar melhor, mas quanto mais informação, mais dúvidas; quanto mais abertura, mais opções; quanto mais olhamos, mais se expande a tela onde se projetam nosso desejos.

Nessa rede de complexidades, seria bom resistir à máquina da propaganda e buscar a simplicidade, não sucumbir ao impulso da manada que corre cegamente em frente. Com sorte, vamos até enganar o tempo sendo sempre jovens, sendo quem sabe imortais com nariz diminuto, boca ginecológica e olhar fatigado num rosto inexpressivo. Não nos faltam recursos: a medicina, a farmácia, a academia, a ilusão, nos estendem ofertas que incluem músculos artificiais, novos peitos, pele de porcelana, e grandes espelhos, espelho, espelho meu. Mas a gente nem sabe direito onde está se metendo, e toca a correr porque ainda não vimos tudo, não fizemos nem a metade, quase nada entendemos. Somos eternos devedores.

Ordens aqui e ali, alguém sopra as falas, outro desenha os gestos, vai sair tudo bem: nada depressivo nem negativo, tudo tem de parecer uma festa, noite de estreia com adrenalina a aplausos ao final.


“Tu és a minha lâmpada, ó Senhor! O Senhor ilumina-me as trevas.”

2 Samuel 22:29        

quinta-feira, 16 de março de 2017


“Meu maior desafio não é revolucionar nada, é manter o bom humor no meio de tanta gente reclamando da vida.”

__Rita Lee

o salto


A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato — pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente — você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.

Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas — mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.

Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?

Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte — quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo — o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão –, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.

Antonio Prata

O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Não farão nem mal nem destruição em todo o meu santo monte, diz o Senhor. 

Isaías 65:25

quarta-feira, 15 de março de 2017


#dia do consumidor

terça-feira, 14 de março de 2017

#minha cara


me vi nessa tirinha!

Sempre que me aproximo de quem está tirando uma selfie, eu tenho medo de atrapalhar. É como encontrar alguém nu ou se masturbando. É ser vítima de um atentado violento ao pudor.
Fico com vontade de pedir desculpa, viro o rosto, evito encarar.

O selfista demonstra uma carência extrema, é um solitário pretendendo demonstrar que é conhecido. Desperta compaixão, insinua uma orfandade de amigos.

Quem faz selfie pensa que ninguém está olhando, está possuído da vaidade e não compreende o quanto é patético.

O rosto sério passa a ser falsamente sorridente com a mão levantada. Um minuto atrás era uma careta, um minuto após é um sorriso de canto a canto da boca, sem nenhuma motivação secreta. Como pode rir se nada aconteceu de diferente?

As pessoas comuns inventaram o riso súbito, para concorrer com o choro profissional e o beijo cênico dos atores.

O selfista transforma a tela em uma metralhadora de toques, até achar um momento que preste. A busca pelo ângulo perfeito beira a obsessão. Tem gente que posa 10 horas para si mesmo, à procura de um instante de satisfação. Lota a caixa de imagens somente para atualizar as redes sociais. Um flagrante salvo significa 99 deletados. Já é compulsão, já é doença, já é vício.

Não tem como não se incomodar com o autorretrato virtual. Ele se baseia numa mentira. Boa selfie é aquela que parece que foi clicada por uma outra pessoa. Precisa de extensão do braço e de uma mirada ao lado, como se pego de surpresa. Ou seja, selfie é a negação da selfie. Se fosse algo agradável, ninguém teria vergonha de esconder como foi feita.

Quando testemunho alguém manipulando o celular freneticamente para todos os lados, a minha ânsia é chamar a Samu. É um ataque epilético do narcisismo.
O homem ou a mulher vai se debatendo com o aparelho, esfaqueando-se com o celular, quase se esganando de contorcionismo. Coloca o cabelo para frente e para trás, morde os lábios, encolhe a barriga, suspende a respiração, gira o quadril para enquadrar a melhor paisagem, não poupa esforços para fingir leveza.

Qualquer um que enxerga a cena acaba nervoso.

Trata-se de uma tragédia silenciosa. O selfista não se contenta jamais, percebe um defeito invisível no nariz, nos olhos, no penteado, mesmo quando há nada de errado. Alucina, não está mais entre nós. A ausência de confiança produz uma tortura infinita. Cada foto é o reconhecimento do que falta na aparência, cada foto piora a vontade de viver, cada foto é um aborto.

O selfie virou um espelho que anda e substitui a realidade. Nem estou falando dos filtros e retoques, onde você tenta apagar as imperfeições e simplesmente desaparece dos registros, só ficando o lugar em que estava.


Gosto de palavras na cara.
De frases que doem (benditas!).
Sou prática em determinadas questões:
Ou você quer ou não.


Colossenses 3:15 diz: 
“Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações.”

domingo, 12 de março de 2017


#dia do bibliotecário

quinta-feira, 9 de março de 2017

o malvado rolo rosa


Nem ouse criticar o papel higiênico porque tem perfume de jasmim e lavanda e provoca alergia. Agradeça cada um dos vinte espirros, e diga amém na volta do sopro.

O papel higiênico é um lenço macio, quase molhado ao natural, irmão gêmeo do guardanapo. Não agride o nariz, muito menos lá atrás. Talvez tenha sido a nossa maior evolução tecnológica. Os cientistas fizeram valer a expressão “sentar a bunda na cadeira”.

Mas na minha meninice, nos anos 1970, ele tinha aspecto de lixa. Podia raspar paredes de uma casa em reforma ou polir o carro e ninguém notaria a diferença.

Foi a pior fase do papel higiênico desde a sua invenção, na China, em 875. Apresentava uma superfície abrasiva, mais afeita a madeira e metal do que à pele.

Nada de folha dupla ou tripla: a bobina vinha numa única camada rosa, com sobras de reciclagem. Você podia enxergar um incômodo papelão cinza dentro da textura colorida. De tão duro, o produto não se desmanchava com a água. De tão áspero, rasgá-lo fazia barulho. Quase indestrutível, naquela linha de coisa ruim não morre.

Recuso usar rosa até hoje não pela convenção masculina (cor para meninas), mas por aversão a esse objeto que aparecia nas melhores e piores privadas, da fossa da rodoviária ao trono do aeroporto, e maltratava todos, sem distinção de classes.

Um jornal seria mais gentil. Uma folha de milho seria mais educada. Assim que você saía do banheiro, acumulava brotoejas e esfoliações. As bundas das crianças passavam do cuidado excessivo do Hipoglós nos primeiros anos de bebê para o castigo infinito da ardência do rolo. Nas praias, as nádegas apareciam pipocadas. Dava pena testemunhar a carnificina nos países baixos.

Considero realmente um milagre não ter tido hemorroidas. Considero realmente uma bênção ter sobrevivido aos constantes maus-tratos na infância.

É injusto reclamar, atualmente, do papel higiênico. A rinite alérgica é o menor dos males. Você poderia passar a vida inteira ralando o traseiro.



“Quem deseja fazer emprego sério da vida, deve sempre agir como se fosse viver por muito tempo e comportar-se como se fosse morrer proximamente”.

| Mário Sérgio Cortella |

“Quem é cuidadoso no que fala evita muito sofrimento.”

Provérbios 21:23

quarta-feira, 8 de março de 2017

um dia como outro qualquer


O dia 8 de março é só a data oficial. Porque nenhum dia acontece sem a participação das mulheres lindas, corajosas, guerreiras, multitarefas e incríveis desse mundo. 


Beijo cada uma de vocês, suas maravilhosas.


Hoje é dia internacional da mulher. 
Lindas mensagens estão sendo passadas por aí e acho que é a primeira vez que vejo essa data trazer à tona tantas mensagens importantes: contra o assédio, contra a violência, uma luta pelos nossos direitos.

Apoio e faço dessas mensagens também as minhas. 
Porém hoje, minha homenagem é para nós carecas, ex-carecas e futuras carecas.

Mulheres que sofreram um ataque que não foi de ninguém, mas dos seus próprios corpos. O câncer vem de dentro, faz parte de nós.

E hoje nos levantamos poderosas, carecas ou não, com muito orgulho de ser mulher e ter dentro de nós a força necessária para enfrentar essa luta.
Uma força que é só nossa. 

Parabéns a todas nós, que enfrentamos a nós mesmas todos os dias e vencemos! Rumo a cura!

Feliz dia internacional da mulher (careca)!

__Carolina Sanovicz

o que é ser mulher


Basicamente, ser mulher é ter nascido com os cromossomos XX. Será que isso responde à questão? Responde, só que de modo desaforado. Espera-se que colaboremos: “Ser mulher é ser mãe, esposa, profissional... ”. 
Alguém ainda aguenta essa churumela?

Se é para refletir sobre o assunto, então sejamos francos: ninguém mais sabe direito o que é ser mulher. Sofremos uma descaracterização. Necessária, porém aflitiva. Entramos no mercado de trabalho, passamos a ter liberdade sexual e deixamos para ter filhos mais tarde, se calhar. Somos presidentes, diretoras, empresárias, ministras. Sustentamos a casa. Escolhemos nossos carros. Viajamos a serviço. Saímos à noite com as amigas. Praticamos boxe. O que é ser mulher, nos perguntam. Pois, hoje, ser mulher é praticamente ser um homem.

Nossa masculinização é um fato. Ok, nenhuma mulher desistirá de tudo o que conquistou. A independência é um ganho real para nós, para nossa família e para a sociedade. Saímos da sombra e passamos a existir de forma plena. E o mundo se tornou mais heterogêneo e democrático, mais dinâmico e produtivo, em suma: muito mais interessante. Mas não nos deram nada de mão beijada, ganhamos posições no grito, falando grosso. E agora está difícil reconhecer nossa própria voz.

“Sou mais macho que muito homem” não é apenas o verso de uma música de Rita Lee, é pensamento recorrente de cérebros femininos. Alguém ainda conhece uma mulher reprimida, omissa, sem opinião, sem pulso? Foram extintas e deram lugar às eloquentes.

Nada de errado, repito. Acumulamos uma energia bivolt e isso tem nos trazido inúmeros benefícios – deixamos de ser um simples acessório, nos integralizamos. Mas essa nova mulher ainda se permitirá um segundinho de “cuida de mim”? Se os homens estão se permitindo ser frágeis, por que não nos permitimos também, nós que temos os royalties dessa condição?

É no amor que a mulher recupera sua feminilidade. É na relação a dois. Na autorização que dá a si mesma de se sentir cansada e de permitir que o outro tome decisões e a surpreenda. É através do amor que voltamos a confiar cegamente, a baixar a guarda e a deixar que nos seduzam – sem considerar isso ofensivo. Muitas mulheres estão desistindo de investir num relacionamento por se julgarem incapazes de jogar o jogo ancestral: eu, provedor; você, minha fêmea.

Os homens sabem que já não iremos nos contentar em receber mesada e ficar em casa guardando a ninhada, mas, na intimidade, que tal deixarmos a testosterona e o estrogênio interpretarem seus papéis convencionais?

Um amor sem tanta racionalidade, sem demarcação de território, sem guerra pelo poder. Amolecer de vez em quando, com entrega, com gosto. É onde ainda podemos ressuscitar a mulher que fomos, sem prejuízo à mulher que somos.