"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Das neuroses


"A vida é muito mais fácil com uma bela escova nos cabelos."

(...) não sei captar o que existe senão vivendo aqui cada coisa que surgir e não importa o que: estou quase livre de meus erros.
Deixo o cavalo livre correr fogoso.
Eu, que troto nervosa e só a realidade me delimita (...)
"Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas.
Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo.
Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança..."

"Sentir é o verbo mais afetuoso que a vida nos entrega a todo momento e que, muitas vezes, se alimenta de uma espera desatenta e de muito, muito tempo.
Que a gente amanheça com um olhar comprido capaz de enxergar as miudezas mais belas da vida e um abraço apertado que nos faz distribuir laços, desmedidos, de vento em vento.

Tudo o que verte paz, é Divino."

(Priscila Rôde)

Cuide-se como se você fosse de ouro...
ponha-se você mesma de vez em quando numa redoma
e poupe-se.

"Filho, se você parar de aprender, logo esquecerá o que sabe"
Provérbios 19:27

quarta-feira, 28 de setembro de 2011



Ainda bem que agora encontrei você
Eu realmente não sei o que eu fiz pra merecer você

Porque ninguém dava nada por mim
quem dava, eu não tava a fim
até desacreditei de mim

O meu coração
já estava acostumado com a solidão
Quem diria que ao meu lado você iria ficar
Você veio pra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
já estava aposentado
sem nenhuma ilusão, tinha sido maltratado

Tudo se transformou, agora você chegou
"Um brinde à mim,
que já passei por tanta merda
e continuo aqui, de pé."

(...) "Eu quero tanto e preciso de tão pouco.
Por isso, eu peço: alguém aí coloca um pouco de vergonha na minha cara?
Porque viver é ser.
E eu sou, meu Deus do céu, eu sou.
Meio desajeitada, meio apressada, meio abusada, mas sou."

Eu sou apaixonado por textos que interrogam,
não que dão certezas ou fórmulas.
Textos que permitem a gente se duvidar um pouco mais do que o necessário, enlouquecer um pouco mais do que a dosagem normal,
vibrar um pouco mais do que o permitido por lei.

"Há quem duvide, mas amo todo mundo!
Alguns eu amo ter por perto,
outros eu amo evitar,
outros eu amo bem longe de mim...
E tem aqueles que eu amaria nem ter conhecido."
Sem mais, que ninguém me perturbe,
pois trago em meu corpo as marcas de Jesus.
Gálatas 6:17

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Das primaveras e outonos

''Primavera é tempo de ressurreição.
A vida cumpre o ofício de florescer ao seu tempo.
O que hoje está revestido de cores
precisou passar pelo silêncio das sombras.
A vida não é por acaso.
Ela é fruto do processo que a encaminha sem pressa e sem atropelos a um destino que não finda, porque é ciclo que a faz continuar em insondáveis movimentos de vida e morte.
O florido sobre a terra não é acontecimento sem precedências.
Antes da flor, a morte da semente, o suspiro dissonante de quem se desprende do que é para ser revestido de outras grandezas.
O que hoje vejo e reconheço belo é apenas uma parte do processo.
O que eu não pude ver é o que sustenta a beleza.

A arte de morrer em silêncio é atributo que pertence às sementes.
A dureza do chão não permite que os nossos olhos alcancem o acontecimento.
Antes de ser flor, a primavera é chão escuro de sombras, vida se entregando ao dialético movimento de uma morte anunciada, cumprida em partes.

A primavera só pode ser o que é porque o
outono lhe embalou em seus braços.
Outono é o tempo em que as sementes deitam sobre a terra
seus destinos de fecundidade.
É o tempo em que à morte se entregam, esperançosas de ressurreição.
Outono é a maternidade das floradas, dos cantos das cigarras
e dos assovios dos ventos.
Outono é a preparação das aquarelas, dos trabalhos silenciosos que não causam alardes, mas que mais tarde serão fundamentais para o sustento da beleza que há de vir.

São as estações do tempo.
São as estações da vida.

Há em nossos dias uma infinidade de cenas que podemos reconhecer a partir da mística dos outonos e das primaveras.
Também nós cumprimos em nossa carne humana os mesmos destinos.
Destino de morrer em pequenas partes, mediante sacrifícios que nos faz abraçar o silêncio das sombras...

Destino de florescer costurados em cores, alçados por alegrias que nos caem do céu, quando menos esperadas, anunciando que depois de outonos,
a vida sempre nos reserva primaveras...

Floresçamos.''

Sonhos são pipas

parecem distantes
mas somos nós que dominamos a linha.

Eu declaro ser boba, moço.
E ingênua.
Forte, apesar da pose de quem se desmonta fácil.
Apaixonada, talvez.
Ridícula.
Medrosa.
Procrastinadora de atos urgentes, e também dos desimportantes.
Sou uma saudade, e um banco de praça coberto por folhas secas de um outono que não é meu.
Não tenho paciência para conversas tristes.
Posar de vítima soa deprimente.
E não entendo como meu rosto se desmancha numa seriedade obtusa assim, de repente, gerando interrogações de quem me cerca.
Eles não entendem.
Sabe, moço, não é todo dia que eu quero sorrir, não.
E pensar que já houve uma época onde isso era o meu melhor, era o que fazia as pessoas pedirem por mim. Hoje não tem ninguém.
A distância é algo estúpido, moço.
Não falo nem de geografia, aqui.
Falo de interposições criadas por conveniências minhas.
Eu sou ostra, viu?
E não sei permitir que no meu lado de dentro venha morar qualquer coisa que não seja pérola.
Nem é pretensão, não.
Pode ser comodismo.
É que eu me acostumei a ter as melhores pessoas do mundo como parte de mim, e isso era o suficiente.
Eu não dava importância para o novo, o desconhecido.
Não sei se você entende, moço, mas dá um trabalho danado se reconhecer nos outros, querer pra si, driblar os defeitos, contar dos seus, todas essas coisas que surgem em primeiras relações.
Eu queria que já viesse tudo pronto, moço.
Queria. Aí eu era completa, então.

Declaro, também, que esse era é algo que nunca foi.
É que eu sou sozinha, em qualquer canto.
Sei lá, eu acho graça, você não?
Sou dona de um sarcasmo estonteante, digo.
As pessoas às vezes acham que estão acompanhadas no mundo, e se apegam a isso de uma maneira que me assusta.
É que, moço, todo mundo vai embora um dia.
Vai porque quer, vai porque Deus chama - não importa.
E eu sempre tive muito medo disso, mas quase não penso.
Outro dia mesmo eu quis casar, ter filhos, e ver como a vida ia.
Hoje eu não quero mais.
Amanhã, vou querer tudo de novo.
E pra sempre.
Odeio querer as coisas pra sempre, moço, você não?
Tudo é tão efêmero por aqui.
Tem horas que eu fico lembrando do que eu nunca soube.
Você deve estar se perguntando se eu sou feliz, não é?
Eu digo que não sei. Digo que sou.
Num descuido ou em outro, acabo sendo.
Ah, eu sou incoerente, também.
Semana passada contei por aí que eu sou uma fraude.
Sou tanta coisa, moço.
E nada.
Essa história de não poder olhar pro lado e encontrar uma gargalhada cúmplice, já não tem graça.
E os fins de semana, moço, passam lentos como se fossem um filme ruim demorando pra terminar.
Não pensa que eu tô só reclamando, não.
É que hoje não entreguei sorriso, sabe?
E agora que ele se mostra, vai despejando tudo o que esse céu nublado diz.
Sou uma nuvem de chuva, agora.

Declaro ainda, moço, que eu tenho sonhos.
Eles escorrem em mim inteira.
Mas acontece que sou uma insônia, e os dias viram duas noites.
Tá faltando cor.
Cinza é cor, moço?
Acho bom eu ir embora, antes que tudo chova.
Prometo novos sonhos.
Um resgate dos que se perderam.
Toma moço, esse sorriso.
Coloca ele de enfeite no teu carrinho azul.
Lembra que você foi responsável por mim, hoje, nesse entardecer.
Lembra, moço, que meu sorrir é quem fala, porque eu não sei lidar com palavras, não.

Declaro por fim, moço, que eu vou ser feliz. Criança…

E fui.”

- Jaya Magalhães -

A minha alma descansa somente em Deus; dele vem a minha salvação.
Somente ele é a rocha que me salva; ele é a minha torre segura!
Jamais serei abalado!
[Salmos 62: 1-2]

segunda-feira, 26 de setembro de 2011


Viver tem sido adiantar o serviço do dia seguinte.
No domingo, já estamos na segunda, na terça já estamos na quarta e sempre um dia a mais do dia que deveríamos viver.
Pelo excesso de antecedência, vamos morrer um mês antes.

Está na hora de encarar a folha branca da agenda e não escrever.
O costume é marcar o compromisso e depois adiar, que não deixa de ser uma maneira de ainda cumpri-lo.

Tempo é ternura.

Perder tempo é a maior demonstração de afeto.
A maior gentileza.
Sair daquele aproveitamento máximo de tarefas.
Ler um livro para o filho pequeno dormir.
Arrumar as gavetas da escrivaninha de sua mulher quando poderia estar fazendo suas coisas.
Consertar os aparelhos da cozinha, trocar as pilhas do controle remoto.
Preparar um assado de 40 minutos.
Usar pratos desnecessários, não economizar esforço, não simplificar, não poupar trabalho, desperdiçar simpatia.

Levar uma manhã para alinhar os quadros, uma tarde para passar um paninho nas capas dos livros e lembrar as obras que você ainda não leu.
Experimentar roupas antigas e não colocar nenhuma fora.
Produzir sentido da absoluta falta de lógica.

Tempo é ternura.

O tempo sempre foi algoz dos relacionamentos.
Convencionou-se explicar que a paixão é biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo.

Não é verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração.

Somente descobriremos a intensidade se permitirmos durar.
Se existe disponibilidade para errar e repetir.
Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto.
Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte.

Acima da obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer ao lado da esposa.
Interromper o que precisamos para despertar novas necessidades.

Intensidade é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou.
É começar a cuidar justamente porque não funcionou.

Casais há mais de três décadas juntos perderam tempo.
Criaram mais chances do que os demais.
Superaram preconceitos.
Perdoaram medos.
Dobraram o orgulho ao longo das brigas.
Dormiram antes de tomar uma decisão.

Cederam o que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas.
Dar uma vida a alguém será sempre maior do que qualquer vida imaginada.

Deus não está em promoção, se exibindo por aí.
Ele escolhe, dentro do mais rigoroso critério, os momentos de aparecer pra gente.
Não sendo visível aos olhos, ele dá preferência à sensibilidade como via de acesso a nós.
Mas valorizo essas aparições como se fosse a chegada de uma visita ilustre, que me dá sossego à alma.

Quando Deus aparece pra você?

O inverno guarda tuas rosas.

Sê-la quando perece:
Sem tato.
Sem cheiro.
Sem vestes.
Ama tua rosa.
Sem visão.
Sem sentido.
Sem fato.

Se tão fácil fosse sobre teus espinhos,
não veria o explendor do teu esforço.

Quem faz o bem aos outros, a si mesmo o faz;
o homem cruel causa o seu próprio mal.
Provérbios 11-17

sábado, 24 de setembro de 2011


''Já é tema recorrente e até virou lugar comum, todos os veículos de comunicação divulgarem incessantemente o novo vício mundial, que são as Redes Sociais.
Mas a cada dia esta mania entra mais e mais na vida da comunidade e torna-se quase impossível não falar dela.
Não se pergunta mais o endereço físico do cidadão, seus dados pessoais e sua descendência como era no meu tempo.
Hoje pergunta-se: você tem Facebook?

- O quê? Você nããoo tem Facebook? – Não, obrigado.

Quem assistiu o filme A Rede Social, que narra a história de Mark Zuckerberg, criador da referida página na internet , ficou sabendo através da película que o maior fenômeno de acessos da rede mundial de computadores nasceu porque o então adolescente Mark, queria impressionar a sua namorada.
O programa então tomou corpo, ganhou adeptos à princípio dentro da sua própria universidade, depois nas universidades vizinhas e então o país e o mundo.
Mas a chamada de capa do filme traz uma frase a qual eu considero inteligente e que remete à alguns momentos de reflexão.
Diz ela: “ninguém chega à 500 milhões de amigos, sem fazer alguns inimigos”.

O número de 500 milhões é a soma aproximada da quantidade de pessoas que hoje acessam a rede diariamente.
Somado ao Twitter, Orkut, outros menos famosos no Brasil e agora com a chegada do Google + , o mundo se transformou no que o velho McLuhan pregava nos idos dos estudos da comunicação social.
O mundo enfim tornou-se uma aldeia global.

Se perdeu no tempo e na memória a velha carta escrita à mão e postada no correio, assim como perdeu-se a privacidade.
O mais interessante na rede, é que perder a privacidade é questão de necessidade e cobrança da sociedade: você ainda não tem um Facebook?

É um Admirável Mundo Novo, sujeito à inovações diárias, uma página ímpar na história da civilização que, há menos de cem anos, tinha a luz elétrica como uma ilustre desconhecida da maioria da população.
Vantagens mil.
Estar em contato com parentes e amigos distantes, matar a saudade via tela do computador, organizar campanhas publicitárias, divulgar marcas e produtos ou simplesmente trocar recados.

É a nova “gripe espanhola” da juventude e uma novidade sem precedentes para pessoas de outras idades que buscam se aventurar em “terras desconhecidas”.
Não há volta, ao menos é o que dizem os estudiosos no assunto, então é melhor se acostumar.

Entretanto, esta novidade é absolutamente positiva? Não.

As tais redes sociais permitem que algumas pessoas que vivem a sua forma “humana” nas cidades como as conhecemos, possam criar seus “avatares” (personagens virtuais) em um mundo digital e sem fronteiras.
O diálogo com olho no olho não acontece.
Muitos conflitos são deixados para serem resolvidos via mensagem virtual.
A maioria das pessoas deixou de pertencer à um grupo específico da comunidade, formado de carne e osso para viver nas comunidades da internet.
Até aí tudo bem sob o ponto de vista que não estão “criando confusão” no mundo real.
Mas todos se comportam bem no mundo virtual?

Na maior parte do tempo os viciados cibernéticos esquecem todas as suas outras ocupações perdendo-se nas novidades das redes.
Nos escritórios então é um caos.
Sempre tem uma “janelinha” de rede social pessoal pronta para ser aberta quando não há ninguém por perto.
É compreensível e óbvio que todos tenham obsessão por alguma coisa na vida, mas obsessão em ficar horas e horas visualizando fotos alheias, viagens, perfis de estranhos, de admiradores ou admirados e muitas vezes, tomando o cuidado para que o “espionado” não perceba que foi bisbilhotado, é coisa que foge um pouco à minha geração em entender.

O fato primordial deste vouyerismo coletivo é que, quem postou suas fotos nas redes, quer mais é que o pessoal vá lá e veja mesmo; suas viagens, festas, curtições, famílias e outras coisas pessoais.
Já é fato que, em caso de grandes cidades, seqüestros já foram realizados após os criminosos pesquisarem cada detalhe da vida do inocente internauta que apenas queria ser “espionado”.
Crimes muito maiores já foram cometidos, combinados através da rede, causando assim a suspensão dos programas dentro de alguns países.

Ainda me foge a compreensão passar na rua, encontrar alguém e não trocar sequer um cumprimento e depois ouvir a afirmação: “fulano é meu amigo no Orkut” ou em outra rede social que seja.
Acho que ainda prefiro o bom aperto de mão e olho no olho.
É bom ter poucos amigos e muitos inimigos, mas ao menos saberem que são, afinal, quantos dos 500 milhões de usuários do Facebook online neste exato momento, aceitarão estender a mão quando você realmente precisar?

Aos que vão criticar o meu ponto de vista, quem sabe se ofender com as colocações e até mesmo perder um amigo por isto, não se preocupem, no mundo de hoje, você pode adicionar centenas de novos “amigos” à sua vida, em um único dia de navegação na internet.''

(Alex Morais - do Jornal Pauta da Semana)
Texto encontrado aqui

Dos vínculos


Outro dia recebi pela internet aquele filmezinho que já rodou muito por aí: “Filtro solar”.
A versão original até hoje me emociona.
É tudo bastante simples, mas a voz segura do locutor americano, a ótima edição de imagens e a música vibrante — nada a ver com as músicas cafonas dos abomináveis power points — fazem com que o texto cresça também.
Gosto especialmente da parte que diz que quanto mais você envelhece, mais precisa das pessoas que o conheceram na juventude.

Ainda estou a uma distância segura da decrepitude, mas já não sou garota e cada vez tenho mais consciência da importância do meu passado na construção de quem sou hoje, e portanto carrego minha folha corrida sempre comigo, não importa o quanto pese — e o passado sempre pesa.

Mas sem ele, quem somos?
Valem nada nossas conquistas se não temos ao lado aqueles que testemunharam o quanto a gente batalhou pra chegar até aqui.
E nossas derrotas só merecem ser choradas nos ombros daqueles que nos conhecem tão profundamente que sabem mais do que nós as razões da nossa dor.
Quem nos conheceu ontem, não consegue perceber a verdadeira dimensão do que nos comove.

Amigos novos são bem-vindos, trazem frescor à nossa vida, mas há certos momentos em que precisamos de um espelho humano, alguém em quem possamos nos refletir e avalizar nossa origem e identidade.
Estes espelhos geralmente são nossos pais, irmãos e os “velhos amigos”, mas pode ser também uma fruta que você colhia no pátio da casa da sua infância, pode ser um fusca que você não tem coragem de vender, pode ser um anel que foi da sua avó e que hoje está no dedo da sua filha.
Pode ser qualquer coisa que te leve pra trás e te traga de volta, assegurando quem você é — e sempre foi.

Apesar deste papo meio poético, tudo isso me veio à cabeça não por causa de uma lembrança terna, mas de uma lembrança selvagem: foi escutando o novo disco dos Rolling Stones que cheguei até este tema.
Os velhinhos continuam possantes, parece que as últimas décadas não passaram pra ninguém, me vi ainda solteira, no meu quarto, escutando “Tatoo You”, disco de 1981, e agora ouço o vigoroso “A bigger bang” e parece que foi ontem, e é hoje, e seguimos os mesmos.

Vínculos.
Um conforto para o que nos amedronta tanto, que é a passagem do tempo.
''Que lá no fundo mais fundo do mais fundo abismo nos reste sempre uma brecha qualquer, ínfima, tímida, para ver também um bocadinho de céu .''
Vocês não devem se queixar, como fizeram alguns deles,
e por isso foram destruídos
1 Coríntios 10:10

quarta-feira, 21 de setembro de 2011


As crianças deviam saber que tudo o que vale a pena ser ouvido
está em vinil.

(do filme Uma canção de amor para Bobby Long)

Dos sonhos


"Eu quero ir a Veneza,
quero entrar em uma gôndola,
quero passar embaixo da Ponte dos Suspiros, com ele.
Dizem que se você passa embaixo dessa ponte com a pessoa que ama,
tem o direito de ficar eternamente com ela."

(Grey’s Anatomy)

Para uma menina com uma flor...


Essa é uma homenagem a todas aquelas que são meninas com uma flor para alguém.
À espera do poeta, mesmo que já se saiba quem ele é, ou não.
Sendo que esse poeta não precisa fazer necessariamente poesia com as palavras, mas com sorrisos, abraços, gestos...
Um poeta que teve outras mulheres antes, mas que sabe que a menina com uma flor vai desabrochar e se tornar a mais bela dentre todas aquelas.
E a mais rara também, porque menina como essa não se acha por aí, em qualquer canteiro, em qualquer esquina...
Mas se cultiva, exótica e só, a cada dia, pelo encanto de Deus, por Sua graça e misericórdia, ela se transforma, e muda, e se refaz, troca de pele, e até de cabelo, mas a alma e o coração são os mesmos...
Aquela mesma alma e o mesmo coração que encantou o poeta
há tantos anos atrás.
Sorte que ele tenha-a assim tão perto...

...

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar.
E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido.
E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata.
E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca.
E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho.
E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas.
E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.

E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê.

E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

"Lá está ela, mais uma vez.
Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso.
Sabe que tudo acontece como um jogo,
se é de azar ou de sorte, não dá pra prever.
Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
[...] E se ela se afogar, se recupera"

Não sabeis vós que sois santuário de Deus,
e que o Espírito de Deus habita em vós?
Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá;
pois o santuário de Deus que sois vós é sagrado.

1 Coríntios 3: 16-17

terça-feira, 20 de setembro de 2011


"Há poema mais bonito que um gesto de amor?

Até os iletrados são capazes dessa literatura."

"(...) ponha a saia mais leve, aquela de chita
e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma
com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios
para quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos
e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria."
"Se um passarinho azul passar na sua frente
e borboletinhas amarelinhas o acompanharem,
isso é realmente lindo,
não porque você ganha bem,
ou porque tem um apartamento cheio de almofadas te esperando,
ou porque tem uma pessoa especial ao seu lado
te dizendo que eles são lindos.

Eles são lindos porque existem simplesmente, igual a você."

''Dentro de mim é sempre verão e toca música o tempo inteiro,
e mantenho uma satisfação secreta que precisa se manter secreta para não passar por boba.
Há crianças e adultos dentro de mim, todos da mesma idade.
Aqui dentro existe uma praia e uma montanha coladas uma na outra, parece até Rio de Janeiro, só que os tiroteios são feitos com bala de festim.
Dentro de mim estão muitas lágrimas que não foram choradas para fora e muitos sorrisos que, de tão íntimos, também guardei.
Dentro de mim são produzidas algumas cenas sofisticadas e também roteiros de filme B.
Um universo movimentado e contraditório:
como não gostar de viver aqui dentro?''

Bem-aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram,
porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos,
porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque eles serão fartos.
Mateus 5: 3-6

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Das crenças


“Eu acredito na crença de cada um:
em Deus, poesia, natureza.

Acredito que tudo que existe
é regido pela beleza.

Celebro o amor
e elejo um pensamento bom por dia.
Percebo a força que palavras doces têm.
E sei que o que recebo é sempre um eco
do que emano pro universo.”


Coloque positividade no seu dia,
faça as coisas com amor, plante coisas boas, pratique o bem.
Assim, sua prece é dirigida em cada atitude
e poderá retornar em dobro.

Eu abro a janela e mal consigo acreditar!
Inspiro um milhão de cores e expiro uma explosão de flores, escapando afoitas do meu peito.
Eu abro a janela e mal consigo acreditar: estou viva!
O Universo, com os seus treze bilhões de anos, concedeu-me um intervalinho no tempo, que eu chamo dia, e o começa assim, com uma manhã cheia de flores!
Ah, é demais para mim!
Todos os dias, eu abro a janela e me dá vontade de chorar.
É tudo tão bonito, tudo tão… inacreditavelmente perfeito e encaixado que nem a maldade dos homens, de seis bilhões de homenzinhos pequeninhos, pode ser maior do que o conjunto das estrelas erradias, ainda mais quando metade de cada homem também é amor…
Então, o que importa se eu perdi o ônibus, se a chuva despencou na minha cabeça, se ela me disse um desaforo, se nem meu amigo ele quer ser… o que importa?

Há uma pequena chance na minha janela, que eu chamo dia, para extravasar o meu amor, cultivar um amigo, conhecer a história de uma senhora ou me aproximar de um vizinho, abraçar alguém que eu gosto muito, ligar para um velho amigo, viver, viver e viver?
Ah… como eu posso reclamar da vida?
Eu estou viva!
E foi por um triz.

Quando alguém olha para você e estende aquele dedo do meio, ele está querendo dizer:
“Escuta aqui, você não é mindinho, não é o fura-bolo e, muito menos, o cata-piolho!
Você é o maior de todos, amigão!!!
Você é o maior de todos!!!”

Pode até parecer que sim, mas o meu mundo não é cor-de-rosa.
A minha alegria brota das coisas tristes que eu vejo ao redor.
Quando Mãinha não tem o que dar de comer aos filhos, mas divide um grão de arroz, com bom coração. Quando o ladrão me assalta, mas divide o meu dinheiro comigo.
Quando o moço me estende o dedo do meio e me faz recordar brincadeiras de criança.

Assim é a minha alegria!
É quando o feio do mundo tenta, mais que tudo! apesar de tudo! parir um instante de beleza e é esse instante, que na próxima fração de segundo escapará da minha câmera, que me comove e me arrebata, como se eu abrisse os braços e acolhesse o mundo: um bichinho ferido, carente de amor.

E isso é maior que tudo, mais lindo que tudo, muito mais lindo do que se o mundo fosse perfeito.

"Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que
vos está preparado desde a fundação do mundo"

(Mateus 25:34)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Deus, seja o motivo de hoje!


Têm um dia no ano em que eu invariavelmente choro.
É quase como um choro com data marcada.
Apesar dos choros outros do resto do ano, tem um dia do ano em que eu sempre choro e da mesma dor. Dor de ver o meu menino crescer: no dia do aniversário dele.
Ele, o meu menino, faz anos e eu me lembro daquela frase da Elizabeth Stone: "Tomar a decisão de ter um filho é grave. É decidir, para sempre, ter o seu coração andando por aí, fora do seu corpo".

Começo uns dias antes com uma melancolia meio sem explicação e um dia antes, é inevitável, o choro vem, e então eu lembro porque estou chorando e lembro que é assim, todos os anos, afinal.

E é como se me surgissem todos os dias da nossa pequena e simples vida em comum e eu me sentisse uma mulher enorme, vitoriosa, porque depois de tantos dias difíceis, de tantas noites sem dormir, das tantas vezes sem dinheiro, do enorme medo e da responsabilidade de ter de cuidar do bem-estar e da saúde do menino, ele está ali, se lambuzando com os restos da lata de leite condensado, do meu lado, ele vingou e eu me sinto uma deusa, uma deusa que chora como um rato, mas uma deusa.

E eu me sinto pequena, igual a todas as mães do mundo que enrolam brigadeiros no dia do aniversário dos seus filhos e que tem as mesmas preocupações.
Eu me sinto pequena e com o coração quente, amolecido, porque este menino que vingou é o menino do meu coração, aquele com quem eu brigo todos os dias de manhã para acordar e ir para o colégio (e ele tem um mau humor horrível como o meu!), aquele que me ensinou que as relações de amor na vida das pessoas são uma construção diária, vida inteira, que filho a gente não gosta só porque pariu, mas porque aprende a gostar no meio da guerra doméstica, todo dia um pouquinho, aprende a conhecer, a ver o jeito, a entender, se surpreender, porque filho vem pra ensinar o nosso tamanho, a resistência do nosso coração, o olhar para o outro, a ter paciência com o que cresce ali, do lado, perto, é filho que ensina a gente a ser mãe.

(Lélia Almeida)

Ontem, menino. Hoje, homem. Sempre, filho.

Pra você, Júnior

Sempre que precisei dar ênfase a algum ponto de vista, chamar a atenção para alguma situação ou registrar momento muito feliz, eu escrevia.

A tecnologia nos leva a sofisticação e hoje, substituí as cartinhas por post’s no blog.
Assim como o papel e a caneta, a página do Word e o teclado são submissos aos nossos pensamentos e emoções.

Vinte e cinco anos separam a mais emocionante, fantástica e realizadora experiência da minha vida - o seu nascimento.
Que privilégio e felicidade celebrar esta data.
O meu amor por você foi e é incondicional.
Não consigo me controlar...
Sou vaidosa e orgulhosa demais de Deus me ter escolhido como sua mãe.

Pelas dificuldades que enfrentei, não pude te oferecer muita coisa material, mas te dei todo meu amor e me empenhei em te dar uma boa educação e te ensinar princípios éticos e morais.
Isso foi tarefa das mais fáceis.
Você me ajudou muito nesse processo.

Espero que a criança e o adolescente que você foi, continuem para sempre moldando o caráter e o coração deste jovem homem adulto.
Que você possa aprender com os percalços que surgiram na sua vida e torná-los fontes de motivação para busca de novos e maiores objetivos.

Parabéns pelos teus 25.
Hoje é o seu dia!
Dia de celebrar, comemorar, festejar, agradecer!!!

Bom... esse é o seu papel.
O meu é desejar:

Que Deus te abençoe,
te dê graça, ousadia, perseverança.
Te dê também dignidade, força, coragem.
Te dê ainda, determinação para que continue caminhando
e avançando para a conquista dos seus alvos e sonhos.

(Por natureza, sou chorona.
Não conseguiria te dizer nada... assim, essas são as palavras que quero te falar.)

'Que Deus lhe dê a graça
de chegar ao lugar mais bonito que já é seu,
mas que você ainda não conheceu
porque precisa ir até lá...'

"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isto mesmo!

Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.

Perder?
Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo".

“Pior inferno é ver filho sofrer sem poder ficar no lugar dele”.
Isso foi o que Arlete, manicure que não acreditava na vida eterna, disse para a Adélia.

Verdadeiro!
Quando penso nisso, mais vontade eu tenho de meter o bico nuns versinhos da Adélia:
“Amor é a coisa mais alegre,
amor é a coisa mais triste,
amor é a coisa que eu quero.”

Pois se eu puser “filho” no lugar que ela pôs “amor” não fica verdade também?
“Filho é a coisa mais alegre,
filho é a coisa mais triste,
filho é a coisa que eu mais quero.”

A tristeza não está nos desgostos que os filhos dão aos pais.
Desgosto dá não é tristeza; é raiva!
Não é possível ter um filho sem ter raiva dele de vez em quando.
Tristeza mesmo é quando os pais não podem tomar o lugar deles, no sofrimento.

O Vinícius, olhando seu filho adormecido, sentiu assim:
“Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre o teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua...”

Melhor remédio contra o ateísmo que filho doente não há.
Não há ateu que vendo o filho doente em perigo de morrer, não invoque os poderes do outro mundo...

Assim é comigo: meus filhos me obrigam a olhar para cima e a invocar a Deus.
Porque minhas asas são muito pequenas para cobri-los todos.
E sei que chegará o tempo em que minhas asas terão voado para um lugar longe de onde não poderei protegê-los.

Que bom seria se houvesse anjos da guarda!

Lembro-me de um quadro na parede da barbearia, eu, menino, cortando cabelo, ficava olhando... os dois irmãozinhos vão pelo caminho da floresta e há uma ponte sobre um abismo que eles tem que atravessar. Por detrás deles, com suas enormes asas abertas, está o anjo da guarda, garantia de que nada de mal lhe acontecerá.

É mentira, mas traz tranqüilidade à alma.

"O Senhor te abençoe e te guarde;
o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;
o Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz."

(Números 6:24-26)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011


 “Sabe o que eu quero de verdade?!
Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma.
Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma…”

"A esperança me chama,
e eu salto a bordo como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.

Seja como for, eu vou, pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saí ferida ou quase afogada, mas não desisto.
A dor eventual é o preço da vida..."

Fiz o que quis e fiz com paixão.
Se a paixão estava errada, paciência.
Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile.

(Mário Lago)

Da criança que sou...

Há uma criança que vive dentro de mim.
Por vezes penso que nem se trata só de uma criança; há momentos em que ganha existência um jardim infantil completo no interior desta pessoa que sou.
E sabem uma coisa?
Gosto bastante deste traço mais infantil na minha personalidade.

Tenho em mim aquela curiosidade e aquele fascínio de quem olha para tudo imensas vezes e numa grande maioria delas encontra uma agradável novidade nelas.
Tenho esse espanto no olhar, que me desperta as melhores reações e me faz viver as melhores surpresas no mundo que habito.

Dentro de mim também subsiste um pouco daquela ingenuidade mais sã, de quem vê tudo acreditando que não tem malícia.
Além disso, sou tão otimista que bato sempre na mesma tecla: na crença de que tudo tem de acabar bem, como nas histórias de finais felizes, e se não está bem, é porque ainda não acabou.

Às vezes deixo mesmo a minha alma acriançar-se.
E isso é fantástico.
Gosto de correr pelo campo à fora, pular corda, pichar no trampolim e sentar-me na relva, mesmo sabendo que posso ficar com as calças sujas.

Sou mulher capaz de brincar com bonecas ou carrinhos com um pequenino, capaz de chutar a idade para um canto, mandá-la às favas e ser garota com os garotos.
É nestes momentos que me sinto mais humana.
Quando consigo aperceber-me da criança que sou, da criança que vive nestes muitos anos de gente e que viverá pela vida afora.
Tenho cabeça e corpo de adulta, a maturidade suficiente para encarar com responsabilidade a vida que tenho (ou me resta) pela frente, mas uma alma sempre juvenil, sempre rica em espontaneidade infantil.

(Martinha – Mar de desabafos)