"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



terça-feira, 30 de junho de 2015


_____Wagner Moura

Eu estava em plena adolescência quando assisti no cinema ao filme Mulher Nota 10 com uma estreante chamada Bo Derek. A comédia contava a história de um cantor que um dia viu uma loira espetacular vestida de noiva e ficou obcecado por ela. O que aquela mulher tinha de nota 10? Que eu lembre, apenas um tremendo corpaço. Mas foi o que bastou para eu e mais umas tantas meninas da minha idade desejarem ser 10 também. 

Mal sabíamos que estava em curso uma revolução que iria nos exigir muito mais do que um corpaço: iria nos exigir independência financeira, atitude, cultura, talento, sucesso profissional, inteligência acima da média, um bom casamento, filhos notáveis, um farto círculo de amigos, um apartamento bem decorado, uma ótima mão para a cozinha, conhecimento sobre política, economia, artes plásticas, jardinagem e comércio exterior, muita feminilidade, um guarda-roupa de matar de inveja a editora da Vogue, um rosto lisinho, um cabelo lisinho, dotes sexuais de humilhar o Kama Sutra e, para aguentar o tranco, o tal corpaço de parar o trânsito, claro. 

Nem titubeamos. Parecia fácil. Daríamos conta. E demos, se abstrairmos o padrão cinematográfico das exigências.

Até que descobrimos que tínhamos tudo, menos a coisa mais importante do mundo: tempo. Deixamos de ser donas dos nossos dias, viramos escravas da perfeição, passamos a buscar a nota 10 em todos os quesitos, feito uma escola de samba, e ganhamos o quê? Um stress gigantesco e uma tremenda frustração por não conseguir manter tudo no topo: o casamento, a profissão, os seios. Nunca mais uma escapada de três dias num sítio, nunca mais pegar uma matinê num dia da semana, nunca mais passar a tarde conversando na casa de uma amiga, nunca mais deitar no sofá para ouvir nossa música preferida. Tic-tac, tic-tac. Proibido relaxar. 

Trégua, por favor. Não estamos numa competição. Ninguém está contabilizando nossos recordes. A intenção não é virar uma campeã, e sim desfrutar a delícia de ser uma mulher divertida e desestressada. Por que isso precisa conflitar com a independência? Proponho uma pequena subversão: agrade a si mesma e a mais ninguém. E não brigue com o espelho, pois ter saúde é o único item de beleza indispensável, e isso só se enxerga por dentro. Trabalhe no que lhe dá gosto, aprenda a dizer não, invente sua própria maneira de ser quem é, e se for gorda, fumante, esquisita e sozinha, qual o problema? Aliás, sendo você mesma, dificilmente ficará sozinha. 

Lembra das garotas nota 10 da sua sala de aula? Cá entre nós, umas chatas. Não aproveitavam a hora do recreio, não deixavam a blusa para fora da saia, não matavam as aulas de religião, só pensavam em ser exemplares. Pois tiveram o mesmo fim da Bo Derek: nunca mais se ouviu falar delas.



Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará. 

Salmos 37:5

sábado, 27 de junho de 2015

ele


Ele transita com suavidade nos corações. 
Sua presença é marcante sem ser invasiva e tudo nele é delicadeza, abundância amorosa.
Ele não pede, dá. E quando recebe, compartilha. 
Sua generosidade é absoluta e sua beleza interna transcende referenciais. 

Ele tem valores nobres e sorriso largo. Ao se emocionar com facilidade, comove. 
Ele ama: pessoas, coisas, paisagens, cores. 
Ele se dedica integralmente à vida e cumpre sua missão com dignidade e com a imensa tranquilidade que transmite aos que têm a oportunidade de conviver com ele. 

Sou uma privilegiada por viver uma relação onde cabe tanto amor assim. Onde tudo é lírico, lúdico, limpo, maduro e transparente. 
Sua assertividade vem de uma sensibilidade infinita. 
Tudo nele é colo, abraço forte, mão na mão, companhia, encontro, gargalhada, transgressão, filosofias, piada. 
Tudo nele é poesia.
Muita vida para tanto sucesso.
Muita serenidade nos teus processos. 
E, na arte, muitas cores, minhas flores... de dentro.

Te amo além do amor seja como, quando, onde for.
Obrigada por ser. Obrigada por evoluir ao ensinar e aprender.
Tua luz é um presente. Tua presença é luz constante, intermitente.

(modificado)

Feliz aniversário, meu bem!
Que tudo se realize em sua vida.
De parabéns estou eu, por ter alguém como você.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Um monge descabelado me disse no caminho: 

“Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”.

E o monge se calou descabelado.

__Manoel de Barros; in Poesia Completa


Permita-me completar o raciocínio do gato, já que é falta de educação falar de boca cheia:
- “Mas os ratos são melhores. Muito melhores... e saborosos

hehehehe

“Eu continuo a ser uma coisa só, apenas uma coisa - um palhaço, o que me coloca em nível bem mais alto que o de qualquer político.”



Viver é um rasgar-se e remendar-se.  


 Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles.

(Mateus 18:20)

segunda-feira, 22 de junho de 2015


Não faça de um amor o centro do Universo.

Sei que existem pessoas que não conseguem viver sozinhas. Precisam ter sempre alguém ao lado para suprir uma espécie de carência, de necessidade e vontade. Transformam um relacionamento, por mais prejudicial que seja, numa tábua de salvação e chave para que todo o resto dê certo. 
Uma vida amorosa bem resolvida é bom e pode ajudar a resolver outras questões, mas não é bem assim que funciona.

Ter em alguém um apoio, um amigo e quem ajude a construir uma história, é totalmente diferente de ter apenas ter uma pessoa pra chamar de “meu alguma coisa”. Antes de rotular qualquer relação, precisa-se avaliar se o bem é verdadeiro ou não. Sofrer por alguém é inevitável, mas sempre terá por quem valha a pena passar por momentos ruins.

Porque passar por certas experiências, ainda que ruins, pode fortalecer qualquer relação.

Entretanto, jogar fora projetos, sonhos e conquistas por conta de uma pessoa, é loucura. Não deixe de fazer nada porque seu namorado acha um atraso. Acredite, mesmo sua mulher falando que é perda de tempo. Ninguém pode mudar seu rumo por simples capricho. Dificuldades existem aos montes, mas quem te ama vai apoiar. Pode ser que não entenda e tenha até sua própria opinião, mas vai estar ao seu lado até o fim. Nem que seja pra dizer “eu falei”.

As histórias que dão certo são aquelas em que os dois se fazem bem, com eventuais e inevitáveis cortes, mas fortes o suficiente para se reerguerem e se apoiarem sempre sem perder o foco na vitória e a fé no outro, no amor e na vida.


Autocontrole e amor próprio: taí duas coisas que a gente tem que colocar na agenda todo dia. E exercitar. Porque manter uma atitude positiva e sensata diante da vida (e de nós mesmos) é ainda a melhor forma que eu conheço de alcançar o que a gente quer. 
De uma hora para a outra, as coisas mudam. 
Tão simples e - ao mesmo tempo - tão desafiador, que chega a dar nó da cabeça...

Mas, quer saber? Tem valido a pena. Ô se tem!

saca?


Vida a dois:
o segredo é entender que continuam sendo duas vidas.


Digo-vos ainda: todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos anjos de Deus.

Lucas 12:8 

domingo, 21 de junho de 2015


(...)
O inverno é como a velhice. Tem sua beleza igualmente, exige lã, bolsa de água quente, termômetro e uma janela bem vedada. 
O que não queremos que entre? Maus presságios. 
O inverno é frio como despedida de um grande amor, mas sabemos que tudo voltará a ser ameno. 
Queremos que passe, temos medo que termine. Ficar sozinho volta a ser aterrorizante. 
O inverno é branco, é cinza, é prata. É grisalho. 
(...)

motivação é tudo!

quinta-feira, 18 de junho de 2015



Olho para essa menina que já fui, e sorrio.
Aposto como, nem de leve, ela podia imaginar a mulher que me tornei. Percebo que ainda temos os mesmos olhos, embora agora estejam mais cansados.

De vez em quando faço isso, volto ao meu quintal ancestral... às vezes gosto, às vezes não, de ver a passagem do tempo.
Mas não conto a ela, tão pequena, tão doce, desse meu possível endurecimento.
Não por proteção, 
mas por delicadeza.

A menina que já fui olha para mim como se eu fosse uma verdade metafísica. Não sou.
Talvez ela é que tenha sido, mas não tem importância, porque uma coisa é certa, e essa eu conto à ela: não fiquei só sentada ouvindo as histórias dos outros...
Fui, e vivi.

E tenho tido tanta coisa para contar...

(Solange Maia)

mulheres, bah!


Porque fé, quando não se tem, se inventa... para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.

saudoso e-mail


Quando o e-mail surgiu, foi considerado um meio prático, porém frio de se corresponder. Mas agora que o e-mail foi reduzido a pó por Face, WhatsApp & Cia, agora que ele sobrevive apenas para a troca de mensagens profissionais (e olhe lá), agora que ele respira por aparelhos, já podemos lembrar, nostálgicos, de como ele era refinado.

O e-mail entrava discretamente na sua caixa de mensagens e ficava ali, quietinho, aguardando pacientemente o momento em que o destinatário pudesse lê-lo e respondê-lo. Havia todo o tempo do mundo para isso. A resposta podia ser bem articulada, revisada e enviada sem nenhuma aflição. Claro que não era agradável deixar alguém aguardando uma semana, mas na maioria das vezes não levava tanto tempo assim, o retorno geralmente era dado no mesmo dia ou no dia seguinte, e isso era suficiente para comemorar esta vibrante conexão virtual.

Isso foi ontem. Anteontem. Um século atrás. Dá no mesmo.

Agora, você troca mensagens instantâneas, um toma lá dá cá que faz todo mundo parecer meio esquizofrênico. A questão do corretor de texto é uma insanidade. “Oi, Patricia!” se transforma em “Ouviu, patife!” e o que era para ser um gentil cumprimento vira um insulto. Não preciso dar outros exemplos, você passa por isso todos os dias: corrigir com avidez as bananices que o corretor comete à revelia.

Mas o mais grave nem é isso.

É ter que responder de bate-pronto. Eu às vezes não sei exatamente como reagir a algo que me escreveram, gostaria de ter ao menos cinco minutos para processar a informação e entender o que estou sentindo antes de mandar a resposta, cinco minutos não é tanto tempo, é? Ora, em cinco minutos o interlocutor já se atirou do oitavo andar, sentindo-se rejeitado pelo meu silêncio. Não, senhora, você não pode pensar nem cinco, nem dois, nem meio segundo, precisa escrever feito um raio, num flash, sem pestanejar, porque o outro está digitando ao mesmo tempo e isso configura um duelo, ganha quem disparar primeiro. Portanto, seja ligeira e tenha presença de espírito – ainda isso: é imperativo mostrar que é engraçadinha.

Só que não sou engraçadinha. Sou cautelosa. Ponderada. Gosto de construir frases. Criar raciocínios. Sou escritora, me dê um desconto. Não consigo me contentar com frase de telegrama, que, aliás, é uma coisa bem antiga, se não me falha a memória.

Bom mesmo seria se a gente continuasse a se comunicar frente a frente, transmitindo nosso estado de espírito com o próprio rosto, sem precisar do auxílio de algum emoji. Se a gente pudesse falar com calma e o outro responder com calma. Mas isso parece que também é coisa muito antiga.

Nasci atrasada, estou sempre correndo atrás do tempo: aquele tempo que o e-mail me dava pra pensar.

Na minha angústia, clamo ao Senhor, e Ele me ouve.

Salmos 120:1

terça-feira, 16 de junho de 2015

o ciclo da vida


Recorro à minha profissão de tradutora, que exerci intensamente por longo tempo, para apresentar aqui versos da poetisa americana Edna St. Vincent Millay, falecida, sobre a morte:
“Não me resigno quando depositam corações amorosos na terra dura. / É assim, assim será para sempre: / entram na escuridão os sábios e os encantadores. Coroados / de lírios e louros, lá se vão: mas eu não me conformo. / Na treva da tumba lá se vão, com seu olhar sincero, o riso, o amor; / vão docemente os belos, os ternos, os bondosos; / vão-se tranquilamente os inteligentes, os engraçados, os bravos. / Eu sei. Mas não aprovo. E não me conformo”.

Conformados ou não, a morte é algo que precisaríamos aceitar, com mais ou menos dor, mais ou menos resistência, mais ou menos inconformidade. E esse processo, mais ou menos demorado, mais ou menos cruel, depende da estrutura emocional e das crenças de cada um.

(...)
A vida inevitavelmente flui: nós somos isso. Ela é um ciclo: ciclos se abrem e se fecham, isso é viver. O fim de cada ciclo nos ajuda a pensar nas vezes em que fomos egoístas, grosseiros, fúteis, infiéis, ou quando não estivemos nem aí. Mas também lembramos os momentos em que fizemos o melhor que podíamos.

Essas águas do fluir da vida não se interrompem quando dormimos ou comemos ou jogamos no iPad ou nos entediamos na fila do banco ou comemos o hambúrguer ou choramos sozinhos no escuro de noite. Tudo isso é natural: mas a nós, sobretudo em mortes brutais ou trágicas, a perda não parece nada natural.

O ciclo vida e morte é um duro aprendizado. Nós, maus alunos.

Não escrevo sobre o tema pela morte de um ou outro, em acidentes, por doença dolorosa, ou mesmo dormindo, morte abençoada. Morrem mais pessoas aqui de morte violenta do que em guerras atuais. A banalização da morte, portanto a desvalorização da vida, é espantosa. Escrevo porque ela, a Senhora Morte, é cotidiana e estranha, ao menos para a maioria de nós.

Há alguns anos, menininha ainda, uma de minhas netas me perguntou com a perturbadora simplicidade das crianças: “Por que eu não tenho vovô?”. Respondi, como costumo, da maneira mais natural possível, que o vovô tinha morrido antes de ela nascer, que estava em outro lugar, e, acreditava eu, ainda sabendo da gente, sempre cuidando de nós – também dela.

Continuei dizendo que a vida das pessoas é como a das plantas e dos animais. Nascem, crescem, umas morrem muito cedo, outras ficam bem velhinhas, umas morrem por um acidente, ou doença, ou simplesmente se acabam como uma vela se apaga.

Falar é fácil, eu dizia a mim mesma enquanto comentava isso com a criança. O drama da vida não se encerra com o baque da morte, mas começa, nesse instante, outra grande indagação. Se a primeira se referia a “o que é a vida, o que estou fazendo aqui, o que significa tudo isso, os encontros, desencontros, realizações, frustrações, a luta constante”, o que indagamos diante da morte é: “E agora, o que significa isso, a morte, o fim, a perda, o ignorado? E quando chegar a minha vez?”.

Então, em geral, temos mais ou menos medo, segundo, ainda uma vez, a nossa crença.
Recordo a frase atribuída a Sócrates na hora em que bebia cicuta, condenado pelos cidadãos de Atenas a se matar: “Se a morte for um sono sem sonhos, será bom; se for um reencontro com pessoas que amei e se foram, será bom também. Então, não se desesperem tanto”.

Precisamos de tempo para integrar a morte na vida. Talvez os mortos vivam enquanto lembrarmos suas ações, seu rosto, a voz, o gesto, a risada, a melancolia, os belos momentos e os difíceis. Enquanto eles se repetirem no milagre genético, em filhos, e netos, ou se perpetuarem em fotografias e filmes. Enquanto alguém os retiver no pensamento, os mortos estarão de certa forma vivos?

Porque morrer é natural, deveria ser simples: mas, para quase todos nós, é um grande e grave enigma.


De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida.

João 8:12

segunda-feira, 15 de junho de 2015

pra quem quer...


Não conheço ninguém que conseguiu realizar seu sonho, sem sacrificar feriados e domingos pelo menos uma centena de vezes.
Da mesma forma, se você quiser construir uma relação amiga com seus filhos, terá que se dedicar a isso, superar o cansaço, arrumar tempo para ficar com eles, deixar de lado o orgulho e o comodismo.
Se quiser um casamento gratificante, terá que investir tempo, energia e sentimentos nesse objetivo.
O sucesso é construído à noite!
Durante o dia você faz o que todos fazem.
Mas, para obter um resultado diferente da maioria, você tem que ser especial.
Se fizer igual a todo mundo, obterá os mesmos resultados.
Não se compare à maioria, pois, infelizmente ela não é modelo de sucesso.
Se você quiser atingir uma meta especial, terá que estudar no horário em que os outros estão tomando chope com batatas fritas.
Terá de planejar, enquanto os outros permanecem à frente da televisão.
Terá de trabalhar enquanto os outros tomam sol à beira da piscina.
A realização de um sonho depende de dedicação, há muita gente que espera que o sonho se realize por mágica, mas toda mágica é ilusão, e a ilusão não tira ninguém de onde está, em verdade a ilusão é combustível dos perdedores pois,
Quem quer fazer alguma coisa, encontra um meio.
Quem não quer fazer nada, encontra uma desculpa.

_____Roberto Shinyashiki


E a cada passo que dou uma nova surpresa.
Ando encontrando coisas lindas pelo caminho,
flores de delicadezas.
E há quem chame isso de sorte ou de destino.
Mas eu, prefiro chamar de Deus...



Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? 
Hoje não perguntam mais. 
Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.

___Fernando Sabino

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Romanos 12:2

domingo, 14 de junho de 2015

se o mundo fosse rede social

Pensando sobre o título, se o mundo assim fosse, seria uma maravilha. Não precisaria revanche para as coisas boas. Não precisaria de promessa, reza braba ou novena. 

Se o mundo fosse rede social, ninguém jamais estaria desalinhado, desarrumado, estabanado, apressado. Haveria uma pausa para um oi alongado. Bom dia seria com inúmeras vogais “a”. 

Se o mundo fosse virtual, não haveria fotos de identidade com cara de urubu enfeitiçado. Ninguém iria esconder aquela pose horrível, exatamente com umas roupas no varal atrás que foi tirada no churrasco de meio quilo de carne.

Se o mundo fosse redes sociais a vantagem seria ter mais amigos, mesmo a gente nem sabendo o nome do infeliz e sequer ter dito uma reles boa noite, mas sim seríamos amigos e bem íntimos.

Se o mundo fosse rede social, a máxima era interagir, mostrando obrigatoriamente que a palavra de conforto, a mensagem de harmonia, a esperança, a fé e outros abençoados sinais de equilíbrio fariam parte do dia a dia. Ninguém mandaria o chefe pra puta que pariu. Imagina! Falar palavrão não nos caberia. 

Se o mundo fosse rede social, jamais pronunciaríamos “merdas” nas horas de raiva. Palavrões seria repertório de malandros, bocudos e indesejados. Nenhunzinho pra quebrar o jejum seria pronunciado por nossa boca santa.

Se o mundo fosse rede social, despertaríamos sentimentos fofos, ouviríamos palavras de leveza e seriamos obviamente seres queridos. Nunca cantaríamos músicas consideradas chulas e a maior estratégia popular seria utilizar repertório fashion, moderno, descolado. Atirar o pau no gato nem na canção e nem no momento de raiva do bichinho, que, aliás, seria fruto de nossa ferrenha defesa. Estaríamos seriamente engajados nas campanhas em defesa da vida, dos animais, da natureza, da ética na política, do vestido menos colado, do rosário da Maria, da água benta do padre. Nossa imagem de gente limpa, linda, correta, espiritual, beiraria a do Dalai Lama (mesmo com tanta lama escondida embaixo do tapete). 

E por falar em imagem, se o mundo fosse virtual, nunca acordaríamos sem batom, vestido impecável, cílios enormes, unhas feitas a pincel.
Unhas encardidas, vestido amarrotado, rosto cheio de sulcos pelo tempo maldito, corpo ressecado, baixa estatura, olheiras profundas seriam apenas imagens das fotos de mil e lá vai pedrada, que a gente jamais teria no baú. 
Jamais sairíamos do sério. Reclamações era caso de polícia. Mau humor, apenas lembrança da velha história da madrasta má.
Amaríamos incondicionalmente nosso irmão chato, nossa vizinha rabugenta, nossa amiga da escola, aquela meio fofoqueira. Nunca teríamos preconceito nem pelo mendigo sujinho que fica todos os dias no sinal clamando por centavinhos, tampouco pela criança de nariz escorrendo, com os olhos amarelado e a barriga bem grande por causa de vermes. Abraçaríamos todas as pessoas. Beijaríamos, aliás, abraço e beijo seriam lemas obrigatórios.

Se o mundo fosse virtual, nunca comeríamos pão com ovo, para não arrotar azedo. E por falar nisso, tudo que viria de dentro do nosso corpo, ora com algumas celulites, seriam palavras articuladas pela nossa caixa fonética. E palavras lindas. 

Se o mundo fosse virtual, ninguém assumiria que um dia peidou na hora errada. Verbo peidar se existisse, seria com cheiro de Calvin Klein. Vomitar, apenas uma coisa nojenta, digna dos desavisados e que comem demais. Coisa de quem come “quentinha fria”. Desculpa a contradição, mas aqui é pra contrariar mesmo. 

Se o mundo fosse virtual, estaríamos sempre de bem com a vida ordinária, de bem com a sogra, com a empregada, com o gerente do banco que voltou nosso cheque por falta de provas que iríamos pagar mesmo com o saldo negativo. 

Se o mundo fosse virtual, segunda-feira seria dia de recomeço. Força, foco e fé, o nosso clichê e nunca, nunquinha mesmo: quero é que tudo se dane porque minha fé não mede nenhum centímetro. Cada problema uma benção. Cada deslize um esquecimento, embora o texto esteja ficando poético demais; mas assim seria o mundo. Poesia de cabo a rabo e nada de realidade nua, crua, profunda, fedorenta (só as vezes, para aderir a linguagem da rede).

Se o mundo fosse belo assim, nunca teríamos cabelo cheio de óleo, suor nem sempre com odor tolerável, pés cansados e cheios de calos feios, remela nos olhos ao acordar. No quesito acordar, vai um lembrete: acordaríamos com café na cama, daqueles dignos de matar a fome de quem nunca comeu brioche. Abriríamos a janela para o verde que por acaso nasceu no nosso jardim imaginário e soltaríamos uma mensagem de altíssimo astral para todos os ouvidos atentos do vento que passava devagar. 

O mundo se fosse virtual, seria lilás, peraí, cor de rosa e choque que é pra mostrar que somos puro glamour. 
O único ato insano das pessoas ruins seria apenas mandar solicitações de jogos e convites pra gente ir a locais que nunca estaríamos. 

E se o mundo fosse virtual, diríamos boa noite em alto e cantante som. 
Se o mundo fosse virtual iríamos garantir a integridade de sujeitos sinceros, bondosos e quase santos. 

Só que não! 

sábado, 13 de junho de 2015

Fernando Brant termina a travessia


Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver...

Travessia - Milton Nascimento / Fernando Brant

para você, que está só


Escrevo para você, que se sente sozinha. Que quer despertar com um beijo de bom dia. Que de vez em quando sente medo e não tem quem abraçar. Que quer alguém para dormir de conchinha. Que, por mais que tenha amigos, carreira e sonhos, não tem um amor.

Quero te dizer que não precisa ter inveja da sua colega de faculdade, da sua amiga de infância, da vizinha ao lado, daquela moça bonita que outro dia andava de mãos dadas com aquele moço bonito. Você não precisa se sentir deslocada por ir ao cinema sem namorado. Nem por almoçar ou jantar sem ninguém do outro lado.

Escrevo para você, que sente uma ponta de inveja ao ver sua amiga que está namorando feliz. Que sente um leve recalque por ter visto sua colega da primeira série vestida de noiva. Que não consegue esconder que também queria que o final feliz pulasse dos finais dos filmes para a (sua) vida real.

Quero te dizer que ter um amor não basta. Assim como ter um corpo em dia não basta. Assim como ser reconhecida no trabalho não basta. Assim como ter um cabelo que não arrepia em dias chuvosos não basta. Assim como realizar todos os sonhos do mundo não basta. E nunca, nunca vai bastar. A gente quer mais, sempre mais. O pouco não contenta. O mais ou menos não convence. O alguma coisa não enche a barriga, o coração, os poros, a vida.

Escrevo para você que acha que ter um namorado resolve todos os problemas do mundo. Não se engane, por favor, não se engane. É claro que existe companheirismo, cumplicidade, tesão, amor, amizade, parceria, admiração. É claro que existem todos os prós do mundo. Mas também existe briga, cara feia, troca de farpas e o lado sujo daquilo que a gente sempre quis um dia. Existe a chatice, o egoísmo humano, os defeitos em luzes neon piscando pela cidade.

Quero te dizer que muito mais importante que ter alguém é ter paz. Muito mais importante que ter alguém é saber lidar com você mesma. É se gostar, se curtir, se suportar, se superar todo dia. É gostar do que vê e do que não é visível aos olhos. É engolir e sorrir para a própria companhia. Muito mais importante que ter alguém é estar todo dia verdadeiramente apaixonada pelo “alguém” mais importante da sua vida: você mesma.



De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos.

(2 Coríntios 4:8-9)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

oração para amar


Que eu não troque a sinceridade pelo orgulho, que minha saudade seja maior do que a teimosia, que não finja que sou forte, que não tema minha exposição, que procure ser honesto com o que sinto ainda que custe sofrer mais, que eu não seja dramático com o tempo contra, que tenha paz em mim para não me ofender com as diferenças. 
E, principalmente, que somente meu coração decida, mais nada, mais ninguém. 
Amém!


apenas algo em comum


A gente não se escolheu. Aconteceu. Acho que temos algo em comum. Sim, temos. Eu gosto de pizza quatro queijos e você não sai de casa sem antes levar um sanduíche de frango com um par de folhas para comer no intervalo do jogo.

Temos muito em comum, desde as minhas canções preferidas de Vander Lee e a sua coleção do Coldplay adquirida no último show. Temos várias coincidências, sim temos. Sou noturna e você abre um sorriso largo quando o sol se aproxima. Geralmente ouço a Marrom cantar quando estou no banho enquanto você tenta soletrar Tiaguinho com pensamento na Giovanna Antonelli.  

Combinamos até no meu sorriso matinal e sua cara amarrotada, com rugas adormecidas. Distância não me desencoraja e você esquece o trabalho quando sai de férias para o litoral. Faço um esforço para agradar gregos. Já você, só agrada a troianos.  

Não sou contra o seu pé feio que disputa lugar embaixo da mesa com os meus pés gordos. Também não me importo se a nossa paixão futebolística sai do extremo entre a minha preferência em assistir Jô Soares e a sua bandeirinha rubro-negra. Tudo isso é constitucional, inclusive engajar-se em campanhas em prol da vida; coisa que faço com muita facilidade e que combina com sua cara de desacreditado no meu pouco fôlego. 
Entre nossas combinações ainda estão a bisnaga quentinha na padoca da esquina em domingos de sol e o seu pão de queijo com café fresco feito na cozinha de casa. Acho justo esse nosso tetê-à-tetê vertendo no canto dos lábios por causa das nossas combinações entre quem faz o jantar e quem lava a louça. Três beijinhos e um abraço suado, a gente desfaz as contradições e escuta Robim Willians enquanto eu esquento o canelloni e você coloca os pratos descartáveis na mesinha da sala.

Fomos feitos um para o outro tal a indisposição do seu coração para romance e o meu exagero convicto de que amor que se preze é como assistir Ghost . Milito na sua causa e admiro as escondidas Fernanda Young, apenas para não contrariar seu gosto pelo Galvão Bueno, gritando “vai que é sua”.

Você quase me desafia, quando busco resposta pra tudo com esse meu lado feminino torto e a sua sensatez para o real, concreto e prático. Tudo bem. A gente não briga por esse detalhe sórdido. A gente se entende e respeita. Eu sou de gêmeos, adoro uma tatuagem e curto Rita Lee. Você é sagitariano, empreendedor e ainda acredita que Elvis não morreu.

Nesse nosso palco de interações, fico na dúvida se a casa amarela está situada à esquerda, enquanto você teima em não perguntar ao guarda se é proibido estacionar naquela faixa forte pintada no chão. Quase nos une, a minha confusão com endereços e seu lado durão no volante. Eu gosto de flores e você esquece as datas. Chocolate cura meu stress, enquanto você mastiga aquele drops apimentado.

Temos ainda uma transmissão de sintonia após a dança colada, a fugida para um motelzinho na beira de estrada com uma combinação muda de quero mais e um silêncio ensurdecedor do seu cochilo pós exercício.

Nosso silêncio é cúmplice, mesmo sendo resultado de minha cara emburrada querendo discutir a relação e seus monossílabos afrodisíacos dizendo nada. Temos essa maturidade como termômetro de que combinamos em tudo, inclusive no amor: 

um sentia muito e outro sentia demais. 

Pelos meus cálculos temos tudo: química, indicadores de tesão, afinidades individuais, e gostamos de Woody Allen, enquanto o nosso amor perdura para todo sempre. 



Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. 
Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. 

João 14:27

quinta-feira, 11 de junho de 2015



por onde queres entrar: boca, ouvido, vagina?
então entre e fique bem dentro, muito além da periferia
inicie sua turnê pelo interior do meu corpo e descubra
que muito mais que um estômago, um fígado e dois rins
habita em mim uma cidade, um povaréu, outro planeta
experimente meu sangue, dê cá sua língua, lamba
sinta do que é feita a minha umidade, e com muito tato
desdobre meus pensamentos, que é aquela coisa enroscada
ali no meio do cérebro, desmonte, sacuda, não tenha medo
se cair não quebra, são várias ideias robustas
brigam entre si mas se gostam, moram na mesma casa
e onde faz barulho é onde fica o coração, o musculoso e aflito
tem um som, reverbera, ora forte ora rançoso, chegue perto
e agora venha cá espiar com meus olhos, veja o que eu vejo
de que jeito enxergo o mundo de dentro pra fora, agora a alma
aproxime-se e toque, tirando o resto a alma é tudo o que sobra.

histórias de amor


Você vive um amor ou uma história de amor?

Tem diferença, sim. Um amor é a realização plena de um sentimento recíproco. Passa por alguns ajustes, negociações, mas desliza. Pode perder velocidade aqui, ganhar ali, mas não é interrompido pelas dúvidas, não permite a entrada de terceiros, tem a consistência das coisas íntegras, duráveis. O amor, amor mesmo, é uma sorte que se honra, uma escolha em que se aposta diariamente, o amor é algo que nasce e frutifica.

Já uma história de amor é, como diz o termo, uma invenção. Algo para ser contado ao analista, desabafado para os amigos, uma narrativa chorosa e trágica, um acontecimento beirando o folclórico, um material bruto pedindo para ser transformado em obra de arte. Toda história de amor está impregnada de obstáculos que lhe conferem um status de ficção.

Amor proibido pela família, rejeitado pela sociedade, condenado por preconceitos, amor que exige fugir de casa, pegar em armas, trocar de identidade: virou história de amor. Perde-se um tempo enorme roteirizando o dia seguinte. Se fosse amor, simplesmente amor, o dia seguinte amanheceria pronto.

Amor que coleciona mais brigas que beijos, mais discussões que declarações, mais rendições que entrega: virou história de amor. Pode subir aos palcos, transformar-se em filme, faturar na bilheteria: tem enredo. Mas não tem continuidade. Sai de cartaz rapidinho.

Amor que sobrevive à distância, que se mantém através de cartas e telefonemas (permita-me a nostalgia, sobreviver pelo whattsapp não combina com literatura), o amor sem parceria, sem corpo presente, o amor que não se pratica, que não se lubrifica, que enferruja por falta de uso: virou história de amor. Sofrido como pedem os poemas, glorificado pela vitimização, até o dia em que a ausência do outro deixa de ser um ingrediente pitoresco e você descobre que cansou de dormir sozinha.

Amor que exige insistência, persistência, paciência: virou história de amor. Se fosse amor, nada além de amor, navegaria em águas mais tranquilas, não exigiria tanto de seus protagonistas, o entendimento seria instantâneo, sem exagero de empenho, desgaste, sofrimento. Aff. Histórias de amor são fantásticas na primeira parte, tiram o ar, movimentam a vida, mas da segunda parte em diante viram teimosia dos autores, que relutam em colocar o ponto final na saga que eles próprios criaram.

Amor ou história de amor, o que se prefere?

Aventureiros, notívagos, hereges, rabugentos, sedutores, inquietos, fetichistas, insaciáveis, pecadores, estrangeiros, narcisistas, intrépidos, dramáticos, agradecemos cada verso e cada noite mal dormida que vocês deixaram de lembrança, mas um dia a gente cresce e a fantasia cede lugar à sensatez: um amor está de bom tamanho.