"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



domingo, 24 de julho de 2011

Da necessidade de pausa


Sem muitas delongas, estou dando um tempo no blog.
Estou com problema de ‘junta’ e não posso ‘medir forças’ com a dor,
por isso decidi ficar em repouso por alguns dias,
até consultar um(a) especialista.

Sou perfeccionista (leia-se chata) e sei que no atual momento não vou poder me dedicar aos post’s como gostaria e nem da forma que vocês que o visitam merecem.

Gostaria também, de deixar registrada a minha alegria por alcançar a marca de 10.000 visitas.
Agradeço a todos que me dão o prazer de tê-los por perto.
A presença constante de vocês me deixa muito feliz.

Volto em breve... 
Até!!!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Duas crônicas... um tema: o amor

Estava lendo algumas crônicas do Rubem Alves e me deparei com uma história que me fez suspirar (não sou nada romântica, né?).
É uma história emocionante, de amor, renúncia e superação, escrita em duas crônicas diferentes.
Juntei as duas... o texto ficou bastante extenso, but, vale a pena ler.
Achei simplesmente linda!


Meu amigo não chegou na hora marcada. Telefonou dizendo que estava num velório. Chegou atrasado, sorridente. E me contou que fora no velório que lhe viera aquela felicidade.
Pensei logo que o morto deveria ser um inimigo.
Não era. Um tio, muito querido, pessoa doce, 81 anos.
Parece que seu velho corpo não suportara a intensidade da felicidade tardia, e os seus músculos não deram conta do jovem que, repentinamente, dele se apossara.
E ele me contou uma estória de um amor…

O amor surgira no tempo em que ele é mais puro: a adolescência.
Mas naqueles tempos havia uma outra Aids, chamada tuberculose, que se comprazia em atacar as pessoas bonitas, os artistas, os apaixonados - esses eram os grupos de risco.
Pois ela, a tuberculose, invejosa da felicidade dos dois, alojou-se nos pulmões do moço, que teve de ir em busca de ar puro, no alto das montanhas, sanatório, tal como Thomas Mann descreve em seu livro - 'A montanha mágica'.

Quem ia para tais lugares despedia-se com um 'adeus', um olhar de 'nunca mais'.
Na melhor das hipóteses, muitos anos haveriam de passar antes do reencontro.

Imagino o sofrimento da jovem dividida: o corpo, naquela casa, a alma por longe terra!
Na vida daquela menina, que surda, perdida guerra... (Cecília Meireles).

Valeram mais os prudentes conselhos da mãe e do pai: não trocar o certo pelo duvidoso.
Vale mais um negociante vivo que um tuberculoso morto.

Ela casou. Ele casou. Nunca mais se viram.
Quando ele tinha 76 anos, ficou viúvo.
Quando ela tinha 76 anos (ele tinha 79), ela ficou viúva.
E ficou sabendo que ele estava vivo.
A curiosidade e a saudade foram fortes demais.
Foi procurá-lo.
Encontraram-se.
E, de repente, eram namorados adolescentes de novo.

Enquanto ele falava, meus pensamentos saltavam.
Primeiro, lembrei-me do amor de Florentino Ariza e da Firmina Dazza.
Depois, foi o amor de T.S. Eliot e Valerie.
Todos eles amores de velhice…

Amor de mocidade é bonito, mas não é de espantar.
Jovem tem mesmo é que se apaixonar.
Romeu e Julieta é aquilo que todo mundo considera normal.
Mas o amor na velhice é um espanto, pois nos revela que o coração não envelhece jamais.
Pode até morrer, mas morre jovem.
“O amor retribuído sempre rejuvenesce”, dizia Eliot,
no vigor de sua paixão, aos 70 anos…

Está lá, em 'O amor em tempos do cólera', do Gabriel Garcia Marquez.
Quem não leu está perdendo uma experiência única de felicidade.
Era o Florentino Ariza, mocinho, que se apaixonou pela Firmina Dazza, adolescente, amor doído e doido, só de longe, a menina sempre vigiada, os bilhetes e juras de amor trocados em lugares escondidos, e em tudo a promessa da felicidade de um abraço, um dia.
Mas nos tempos do cólera as coisas eram diferentes, e o pai de Firmina arranjou-lhe um casamento com o doutor Urbino, ilustre e próspero médico do local.
Pobre Florentino, dilacerado pela paixão inútil, dali para diante vivendo na esperança louca de que um dia, não importava quando, a Firmina seria sua.
Foram 51 anos de espera até que o milagre aconteceu.
O doutor Urbino, sem se dar conta de que o tempo passara, subiu numa cadeira de equilíbrio instável para resgatar um louro que fugira da gaiola e se empoleirara num galho de mangueira.
A queda foi súbita e fatal.
Era uma vez o doutor Urbino, estatelado no chão,
com o pescoço quebrado...

Começa então, depois dos tempos de luto, a estória mais bonita de um amor entre dois velhos, amor de olhar e de palavra, de deleite nos olhos e deleite no corpo...

Sei muito bem que é estranho.
A Simone de Beauvoir, no seu livro sobre a velhice, diz que há uma coisa que não se perdoa nos velhos: que eles possam amar com o mesmo amor dos moços.
Aos velhos está reservado outro tipo de amor, amor pelos netos, sorrindo sempre pacientemente, olhar resignado, espera da morte, passeios lentos pelos parques, horas jogando paciência, cochilos em meio às conversas.
Mas quando o velho ressuscita, e no seu corpo surgem de novo as potências adormecidas do amor – oh! Os filhos se horrorizam! “Ficou caduco”...

A estória que meu amigo contou era parecida com a do Florentino e da Firmina.
Só que a espera foi muito maior.
Amor de adolescência interrompido – cada um seguindo seu caminho, diferentes, outros amores, famílias.
Mas o tempo não consegue apagar.
A psicanálise acredita que no inconsciente não há tempo…
Somos eternamente jovens.
E de repente, já no crepúsculo, as árvores que todos julgavam secas começam a soltar brotos, florescem.

Resolveram casar-se.
Os filhos protestaram.  
Eles, os filhos, todos os filhos, não suportam a idéia de que os velhos também têm sexo. Especialmente os pais.
Pais velhos devem ser fofos, devem saber contar estórias, devem tomar conta dos netos.
Mas velho apaixonado é coisa ridícula.
Não combina.

Mas, na nossa estória, os dois velhos deram uma solene banana para os filhos e foram viver juntos em Poços de Caldas, longe dos olhos dos que não suportariam o amor na velhice.

E ele até começou a escrever poesia e voltou a tocar o violino que ficara por mais de 50 anos sobre um guarda-roupa, porque a outra esposa não gostava de música de violino.
Divina loucura!!!
E reaprendeu as palavras de amor e dizia, realista, que se Deus lhe concedesse viver com ela apenas dois anos, sua vida terá valido a pena.
Não ganhou dois. Mas teve um...
Bem que Deus quis. Mas o corpo não deixou. Morreu de amor!
Viveram um ano de amor maravilhoso.

E eu fiquei pensando que esse um ano pode ter sido semelhante àquelas experiências raras que a gente tem, e que fazem brotar, do fundo da alma, aquele grito de exultação, à La Zorba: “Valeu a pena o universo ter sido criado, só por causa disto!”.

E foi o mesmo que aconteceu com T.S. Eliot, que só encontrou o seu amor aos 68 anos, e aos 70 anos dizia que, antes do casamento, estava ficando velho. Mas agora se sentia mais jovem do que quando tinha 60.

O amor tem esse poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário.
O que envelhece não é o tempo.
É a rotina, o enfado, a incapacidade de se comover ante o sorriso de uma mulher ou de um homem.
Mas será incapacidade mesmo?
Ou não será uma outra coisa: que a sociedade inteira ensina aos velhos que o tempo do amor passou, que o preço de serem amados por seus filhos e netos é a renúncia aos seus sonhos de amor?

Compreendi a felicidade do meu amigo.
E também fiquei feliz.
Aquele velório foi como o acorde que se toca ao fim de uma sonata: a culminância da felicidade.
Interessante que, como regra, o movimento final das sonatas é um allegro.
Para trás os adágios lamentosos!
A conclusão deve ser um orgasmo de alegria.
E, se eu pudesse, acrescentaria aos textos sagrados, nos lugares onde os profetas têm visões de felicidade messiânica, esta outra visão que, eu penso, até o próprio Deus aprovaria com um sorriso: “E os velhos se apaixonarão de novo…”
Achei a estória tão bonita que a transformei numa crônica.

Começa aqui o novo final para a estória.

Passaram-se semanas. Eram dez horas.
Eu estava trabalhando no meu escritório.
O telefone tocou.
Voz aveludada de mulher do outro lado.
- É o professor Rubem Alves?
- Sim, respondi secamente. Eu sou sempre seco ao telefone.
- Quero agradecer a belíssima crônica que o senhor escreveu com o título: " ... E os velhos se apaixonarão de novo". O senhor já deve ter adivinhado quem está falando...
- Não, respondi. Por vezes eu sou meio burro.
Aí ela se revelou:
- Sou a viúva.

Foi o início de uma deliciosa conversa de mais de 40 minutos, interurbano, em que ela contou detalhes que eu desconhecia.
O medo que ela teve quando ele resolveu mandar consertar o violino!
Ela temia que os dedos dele já estivessem duros demais...

Ah! Que metáfora fascinante para um psicanalista sensível!
Sim, sim!
Nem os violinos ficam velhos demais, nem os dedos ficam impotentes para produzir música!
E aí foi contando, contando, revivendo, sorrindo, chorando - tanta alegria, tanta saudade, uma eternidade inteira num grão de areia...
Ao terminar, ela fez esta observação maravilhosa:
- Pois é, professor. Na idade da gente, a gente não mexe muito com sexo. A gente vive de ternura!

Aqui termina a lição do Evangelho.

(Das crônicas: Violinos não envelhecem e E os velhos se apaixonarão de novo)

Envelhe-ser 'jovem' e capaz de amar...
Nem sempre a idade afasta as pessoas dos amores que podem ser vividos.
Muitas vezes é o preconceito que as impede.
Para o amor, estamos sempre 'vivos' , e tempo não existe... 
A chama se acende novamente, basta permitir.

Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso!
Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos santos.
Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome?
Porque só tu és santo; por isso todas as nações virão,
e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos.

Apocalipse 15: 3-4

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Tenho amigos tão bonitos. Ninguém suspeita, mas sou uma pessoa muito rica."


"Até o mais seguro dos homens e a mais confiante das mulheres já passaram por um momento de hesitação, por dúvidas enormes e dúvidas mirins, que talvez nem merecessem ser chamadas de dúvidas, de tão pequenas.
Vacilos, seria melhor dizer.
Devo ir a este jantar, mesmo sabendo que a dona da casa não me conhece bem?
Será que tiro o dinheiro do banco e invisto nesta loucura?
Devo mandar um e-mail pedindo desculpas pela minha negligência?
Nesta hora, precisamos de um empurrãozinho.
E é aos empurradores que dedico esta crônica, a todos aqueles que testemunham os titubeios alheios e dizem: vá em frente!

Em tempos em que quase ninguém se olha nos olhos, em que a maioria das pessoas pouco se interessa pelo que não lhe diz respeito, só mesmo agradecendo àqueles que percebem nossas descrenças, indecisões, suspeitas, tudo o que nos paralisa, e gastam um pouco da sua energia conosco, insistindo"

 

Com carinho, para aqueles que me "empurram" sempre...

Feliz dia do amigo


Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele…
Guardei a minha no bolso.
E fui. 

Centenas de pessoas atravessam a nossa vida diariamente.
Umas passam bem devagar e aproveitam o trajeto ao nosso lado, outras estão sempre correndo e não tem interesse em observar o caminho conosco, e têm aquelas que decidem fazer o mesmo percurso que a gente pelo simples prazer da nossa companhia.

As pessoas que fazem parte da última categoria sabem que nem sempre será prazeroso. Elas também reconhecem que muitas vezes o caminho será complicado.
Em outras situações irão questionar qual a razão de agirmos de determinada forma enquanto caminhamos.
Mas nunca, em hipótese nenhuma vão achar que o passeio foi em vão.

Amigo de verdade te leva a sério, te leva no riso, te leva no bico, mas te leva.

Te carrega pra vida toda!

Das "serventias" do amigo


"Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências.
Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha.
Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco.
Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa.
Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola.
Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping.
Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas.
Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem.
Se tiver um, amém."

“Existe amigo mais chegado que um irmão.”
Provérbios 18:24

terça-feira, 19 de julho de 2011


Não tenho senso de direção, mas tenho senso de humor.
Tô aqui, perdidão na vida, e fazendo piada disso...

- Robert Tavares -

Mulher despida


Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher se despir de verdade - emocionalmente.
Nudez pode ter um significado diferente.
Muito mais intenso é assistir a uma mulher desabotoar suas fantasias, suas dores, sua história.
É erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente.
Uma mulher que diz o que pensa, o que sente e o que pretende, sem meias-verdades, sem esconder seus pequenos defeitos - aliás, deveríamos nos orgulhar de nossas falhas, é o que nos torna humanas, e não bonecas de porcelana.
Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher em quem sempre se poderá confiar, mesmo que vire ex, mesmo que saiba demais.

Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal, mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expor nossos segredos e insanidades, revelar nosso interior. Mas é o que devemos continuar fazendo.
Despir nossa alma e mostrar pra valer quem somos e o que trazemos por dentro.

Não conheço strip-tease mais sedutor.

do que eu quero...


Falar sem aspas
Amar sem interrogação
Sonhar com reticência
Viver e ponto final

Não quero ter alma e me esquecer dela

Eu quero uma vida bonita

"O choro pode durar uma noite,
mas a alegria vem pela manhã."
Salmos 30:5

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Canção das mulheres


Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo: ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.

"Então delete, tudo aquilo que não valeu a pena.
Quem mentiu, quem enganou seu coração, quem teve inveja, quem tentou destruir você, quem usou máscaras, quem te magoou, quem te usou e nunca chegou a saber
quem realmente você é."


... e não esquecer de esvaziar a lixeira!!!

“Porque, às vezes, no meio desse monte de sentimentos sujos,
a gente acaba achando um sorriso perdido,
um brilho no olho,
um céu estrelado que nos faz acreditar tudo de novo.”

''Uma das minhas fotos preferidas da infância mostra meu irmão e eu sentados em um degrau da casa da nossa avó.
Eu deveria ter uns quatro anos de idade.
Usava um vestidinho e estava sentada da forma mais moleca possível, de pernas abertas, sem perceber que a calcinha estava aparecendo.
Certamente minha mãe não estava por perto, ou ela teria dito, como sempre dizia: “Fecha as pernas, menina, olha a compostura”.

A compostura era, para mim, um genérico do bicho papão.
Sempre à espreita.
Se eu falava algum nome feio, olha a compostura.
Se eu agia de forma mais folgada com algum idoso (qualquer um acima de 20 anos), olha a compostura.
Se eu mastigasse o chiclete de boca aberta, olha a compostura.
A danada da compostura me perseguiu a infância toda e, por causa dela, não tive escapatória: acabei virando uma moça educada.

No entanto, descobri com o passar dos anos que é possível ter compostura e ser espontânea ao mesmo tempo.
Que compostura não é sinônimo de rigidez, e sim de adequação.
Sempre acho estranho quando alguém defende a própria grossura argumentando que está sendo “ele mesmo”, como se ter uma postura elegante fosse falta de personalidade.

Lembrei disso outro dia, enquanto assistia na tevê o Tiririca, vestido de palhaço, fazendo campanha contra o nepotismo.
A seu lado, dois personagens que representavam a mãe e o pai do deputado federal, eles também vestidos de palhaço. Tiririca, para deixar tudo bem explicado para a população, diz:
“Pai, continue catando latinha. Mãe, continue lavando roupa pra fora. Não pode contratar parente”.
De fundo, ouvimos um forró de trilha sonora, dentro do clima de São João.

Propaganda eleitoral é sempre uma coisa muita chata, então Tiririca apostou na irreverência, sua marca registrada.
E a intenção foi boa, corrige sua plataforma quando era candidato (“ajudar a todos, inclusive a minha família”).
Compreende-se que precisa estar caracterizado para que seus eleitores o reconheçam, mas não consigo ser benevolente com essa papagaiada toda.
Nepotismo é assunto sério em qualquer lugar do mundo, e já que seus colegas parlamentares o escolheram para vir a público e usar a luta contra o nepotismo como bandeira para promover o partido, seria mais adequado fazê-lo com o traje que costuma usar em sessões do plenário, onde trabalha e recebe salário para defender os interesses do povo que representa.
Ou com roupa casual, sem problema.
Menos fantasiado.
Por nada, não.
Apenas por compostura.
Para conferir um pouco de recato e decência a uma classe já tão desgastada como a política.

Tiririca não é mau sujeito, foi apenas “ele mesmo”.
Uma criança mostrando a calcinha do país em rede nacional.''

Guarde a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade.
Afaste-se do mal e faça o bem;
busque a paz com perseverança.
[Salmo 34:13-14]

sexta-feira, 15 de julho de 2011

→ Deus fez o homem ←


... e alguém criou o "Dia do Homem"

Neste dia deles...
a minha homenagem

Parabéns para vocês!

O homem ideal

Ele existe, sim. E, graças a Deus, está muito longe da perfeição.
O homem ideal me faz rir, mas nunca usa o riso contra mim.
Tem a rara habilidade de saber ouvir e só diz o que é necessário, bom ou a dura e intransponível realidade.
Compreende a diferença entre estar presente e fazer companhia.
Não é prolixo, nem tenta impressionar.
Não precisa entender de vinho, charutos ou golfe; precisa ser autêntico e admitir que não entende de vinho, charutos nem de golfe (e eventualmente confessar que gosta mesmo é de pinga).
Ele não exige a todo instante meu lado risonho porque sabe, como sabe de tantas outras coisas não ditas em sentenças ou discursos, que os dias negros fazem parte de mim.
Nota as sutis alterações de humor pelo tom da minha voz e, antes de prejulgar as razões, se predispõe a fazer cafuné ou, sensato, cala-se ao meu lado olhando para a TV.
E não exige explicações porque possui uma calma sabedoria que me impele em sua direção: dividir minhas angústias e anseios com este homem é tão acolhedor quanto deitar na grama sob o sol de outono.

O homem ideal me dá bronca quando abuso da minha independência ou como chocolate demais e depois reclamo do peso.
Ele compra sorvete light e evita discussões posteriores.
Compreende que preciso da sensação indescritivelmente libertadora de sumir por algumas horas e, mesmo não concordando com ela, não me interroga como um oficial do DOI-Codi quando piso em casa, levemente para não o acordar, às 2 da manhã.

O homem ideal canta.
Não precisa ser afinado, mas sussurra (seja ao telefone ou ao vivo) canções que, num dia qualquer, mencionei gostar.
Pode saber dançar.
E, se não souber, que mantenha a dignidade e fique sentadinho me observando.
Também bebe.
Meio pinguço, é daqueles que ficam charmosos de matar com um copo de uísque nas mãos.
É deliciosamente sacana três doses acima do normal.
Enterra os bons modos e fecha abruptamente a porta do quarto, sem tempo para que eu responda à pergunta nem sequer formulada.
Adormece aconchegado a mim, mas não suporta ficar agarrado durante toda a noite.
E também curte cozinhar.
Diverte-se tanto numa loja de condimentos como diante de uma prateleira de CDs.
Não me expulsa da cozinha mesmo que eu esteja atrapalhando.
Não me dá fusilli na boca mas o serve no meu prato, com pouco queijo e muito molho.

O homem ideal está sempre disposto a me ouvir, mesmo que seja nos minutos desagendados à força durante o dia cheio, e não usa trabalho nem cansaço como desculpa para suas eventuais faltas; as assume e, até, se desculpa.
Não se esquiva de discutir os problemas que não se solucionam com notas de 100.
Não considera fraqueza dizer que me ama.
Pede ajuda quando sente que o peso colocado sobre seus ombros extrapolou sua força.
E chora.
Não faz promessas porque sabe que nem sempre é possível cumpri-las.
Vive regido por sua consciência e, impulsivo, assassina a etiqueta e comete atos passionais.
Então faz besteiras, erra, engana-se.
E nem por isso deixa de ser maravilhoso - apenas segue sendo magnífica e tropegamente humano.

O homem ideal é imperfeito,
numa imperfeição que combina exatamente com a minha.

SEXO e sexo

Sexo é tudo para o homem, na primeira colocação do ranking, seguido de futebol e carro.
O quarto e o quinto lugares ainda estão vagos.

Sexo não é tudo para a mulher, situado no quinto lugar da lista, depois de casamento, amor, romance e paixão.

Sexo é envolvimento para o homem.
É capaz de morar com uma mulher que faz sexo maravilhoso.
Ele se apaixona pelo corpo para se apaixonar pela alma.
Não desgrudará daquela que transa na primeira noite, as demais madrugadas são para confirmar que a estreia não foi uma alucinação.
Admira quem é liberta de preconceitos, safada, exigente de posições fora do convencional.
A possibilidade de experimentar uma vida extraordinária na cama arrebata sua confiança.
O macho partilha de três fantasias: converter uma lésbica, tirar uma prostituta da profissão e casar com uma ninfomaníaca.

Para a mulher, envolvimento depende de forte retranca: segurar a primeira noite.
Pode ter sexo na primeira manhã ou na primeira tarde.
Mas primeira noite, não.
Não pode aparentar facilidade, senão ele dispensará o esforço da conquista e não lhe dará valor.

Sua metodologia é retardar o grande momento até que ele se renda ao compromisso sério.
Três dias de encontros sem nada é o ideal.
Caso completar uma semana, é matrimônio na certa.
Talvez até o candidato ficar alucinado de tesão a ponto de não diferenciar o que é real do que é imaginário.
Existe um momento em que o parceiro, embriagado pelo próprio desejo, diz sim para qualquer pergunta.
A fêmea acalenta três sonhos eróticos: que ele não ronque, não durma no sofá e não palite os dentes. Caso a trinca de modos aconteça, ela abrirá mão da fantasia com o dentista, o psiquiatra e o pediatra do filho.

O homem nunca reclama do casamento ao transar sete vezes por semana.
Chia diante de uma média menor.
A mulher reclama do marido se ele pensa em sexo o tempo todo.

O homem é o único mamífero que conta há quantos dias está sem transar.
Pode perguntar agora ao seu parceiro: não duvido que não mencione as horas e os minutos.
Ficar sem sexo é como uma prisão perpétua masculina.
Uma contagem de confinamento.
Logo depois que ele trepa, inicia de novo seu cronômetro.
É um Sísifo dos travesseiros.

Mulher apenas contabiliza os dias de abstinência quando completa três meses.
O trimestre é um sinal preocupante, a ameaça de encalhe.
Falta de sexo é como gestação para a ala feminina, surge com uma pequena barriga.

* * *

Para o homem, o amor é prêmio de bom sexo.
Para a mulher, o sexo é brinde de amor verdadeiro.
Os dois estão sempre certos.

Nada contra se cuidar - homem de unha suja, cabelo com caspa ou barriga dura de gordura condensada é um nojo.
Também não curto cotovelo lixa que, quando roça em mim, faz esfoliação gratuita.
Mas essa história de marmanjo bonitinho demais, cuidado demais, malhado demais, barriguinha dura demais, é um saco.
Homem, pra ser interessante, tem que ter algo de desleixado, nem que seja o cabelo mal penteado, a camisa ligeiramente amassada, essas coisas.
Neguinho que parece viver pendurado num cabide me dá ganas de enfiar uns sopapos naquela cara lisa pra largar a mão de ser fresco.
Aqui vai uma homenagem a essa nova raça transgênica, impecavalmente passada, de modos irretocáveis e sapatos de dois mil reais, os metrossexuais.

Metrossexual não tem pêlo nas costas nem na bunda, faz a unha, limpeza de pele e esfoliação.
Adora pulôver de cashmere, camisa 100% algodão egípcio e pára mais em frente a vitrines do que cachorro em poste.
Passa gel, pomada, modelador e finalizador no cabelo, entende de decoração e acha bárbaro demonstrar sentimentos em público.
Metrossexual é sensível, culto, refinado e adora comer uma gostosa.

Tá vendo como não combina?!
Não dá pra tirar a sobrancelha e curtir apalpar uns peitos (só no caso das lésbicas).
O tal "novo homem" é o desgosto do avô, coitado.
O velho vivia na época em que homem que era homem só tomava banho e mandava a mulher cortar as unhas dos pés dele.
Agora tem que presenciar o neto com cabelo tingido e a cara descascando depois do peeling.
O tal do "novo homem" tá tão veadinho que se bobear, vira a Luciana Gimenez: lindo, sorridente e com tanto QI quanto uma almôndega congelada.

Eu, por princípio, não transo com homem que tenha uma necessaire maior que a minha.
Aliás, gosto mesmo é de macho que desconheça completamente qualquer marca de creme anti-rugas, compre revista pornô, ame mortadela, odeie cinema de arte e, de preferência, não entenda picas de vinho - esse sim, passou a vida aprendendo o que existe de mais importante: a traçar direito uma mulher.

(O novo homem é coisa de louco)

Homem burro é como churro: pode até dar água na boca quando se olha, mas mal se acaba de comer e já causa indigestão.
Sem falar na culpa que bate por não termos gasto as calorias em algo mais refinado... coisa bem comum de acontecer quando aqueles drinques invadem os neurônios causando uma fome tão poderosa que espanca o raciocínio.

Nunca fui fã de moços que pedem sanduíche de “mortandela”, muito menos daqueles que discutem a obra de Mohsen Makhmalbaf em oposição à de Jafar Panahi e a sua importância no cinema iraniano atual.
Os dois tipos, apesar de separados por um oceano de bibliografia, sofrem de uma completa falta de noção do mundo e de quando calar a boca.
Ambos, apesar das diferenças, são igualmente burros.
E esse, pra mim, é o maior defeito que um homem pode ter.

Pança se perde diminuindo a ingestão do barril semanal de chope.
Pelo na orelha se resolve com uma tesourinha.
Mas, burrice, só nascendo de novo.
Adquirir cultura até dá pra conseguir na mesma encarnação, mas não adianta nada saber tudo sobre a obra de Rachmaninoff e não perceber que boteco com os amigos não é ambiente, nem hora, de exibir os conhecimentos artísticos.
Eis aqui meu ponto: a inteligência vai muito além de enfileirar conhecimentos.
Um homem inteligente é aquele que sabe quando ser bocó e contar a piada dos pontinhos e a hora de virar um gentleman e usar sua cultura e panca de bom.

Inteligência, nesse sentido, é um tesão.
É uma delícia ser surpreendida por comentários sarcásticos, respostas inusitadas.
Não saber de cor e salteado o discurso do outro, as reações.
Não existe nada mais agradável do que uma pessoa cuja companhia é, mesmo depois de muito tempo, surpreendente.

Um homem inteligente sabe muito bem que dois vestidinhos pretos (por mais parecidos que sejam) não têm a mesma alma.
Um homem inteligente discorda sem brigar e, se for preciso, briga, mas sem transformar a noite em uma longa disputa pela razão - ele sabe que, nessas horas, ninguém tem razão.

Peitão delineado e coxonas grossas são realmente apetitosos.
Mas eu troco fácil um bíceps bem definido por uma conversa envolvente regada a álcool.
Porque, no final, o que me excita é aquilo que está escondido não nas calças, mas por detrás daquele sorriso.

No começo Deus criou os céus e a terra
(...)
Criou Deus o homem... homem e mulher os criou.

Gn 1:1;27

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O maior espetáculo da terra


O pássaro voa sobre o céu aberto,
várias alturas ousadas alçam muitas aves.
Algumas, riscando o mar
brincam de aeroporto e decolam
nas ondas das águas e dos ares.
Mas há asas e voar não é perigo;
É mais que isso,
voar é no corpo do pássaro
uma forma de pensamento.
Poderia citar todos os animais
e seus lugares de existir
e tudo seria admissível
na linha do seu ir e vir.

Mas o homem não.
Sem garantia, se equilibra
no fio do seu pensamento,
sem que tenha asas, voa,
e sem limite de aventura,
até da natureza caçoa.

Equilibrista,
se apodera dos seus sonhos
e de suas inesperadas iscas
e vai rebolando no bambolê das pistas.
Elabora, passa o mundo em revista,
mas seu conteúdo chora,
porque tem medo do risco.
O risco!
Logo o risco, meu Deus,
que é pai de tantas vitórias
sobre tantos reclames.
Bailarino do arame,
homem que se consome
no erro crasso da mesquinharia,
da mentirosa segurança
de que o mundo é sempre reto
e as coisas, imutáveis, certinhas
e sem alquimias.
Mas diante do susto da mutante verdade,
se equilibra no andaime que construiu
e que sem sua criativa ousadia,
jamais existiria.

Trapezistas de trapézios inusitados,
nos vemos na mão do destino
como se dele não fossemos também autores.
Senhoras e senhores da jornada
geramos no mundo nossa ninhada
e com ela o nosso projeto,
nossa luta,
porém é certo que nos volta com força bruta
o ordinário fato
de não pensarmos no que virá
depois do nosso simples ato.
Porque pertence ao homem a habilidade
de ser sujeito transformador,
de realizar todo dia
o seu show de competência,
engolindo o fogo do orgulho,
se esquivando do atirador de facas,
domando os problemas que rugem
podando o pelos da Dona Insegurança,
essa mulher barbada.

Mas, respeitável público,
o show não pode parar.
Às vezes dói viver,
às vezes dá preguiça de continuar,
quando nos esquecemos
que somos os construtores
do tal arame onde andamos
quando nos esquecemos que somos
o motorneiro, o piloto, o barqueiro,
o motorista e o garoto que gira o pião,
que chuta a bola, que mira o gol,
que gira o leme, que conduz o trem,
o diretor e o ator que apresenta este espetáculo.
Poderoso é o homem com seus esclarecimentos
sobre o evento vida,
poderosa é a vida
sobre o homem que não a tem esclarecida.

Para o homem basta um dia.
Um dia de coragem.
Um dia de luz.
Uma atitude pode mudar
a qualidade do seu trabalho,
do seu cotidiano,
e da sua história.
O seu relógio pode ser o tempo
que não desperdiça glórias,
liberto de auto-piedades,
com faróis que o projetem
para além das idades,
que o homem arquitete pilares
brindando à realidade vindoura,
que a chuva de aplausos ou vaias,
fertilizem novos frutos
seguindo a lógica da lavoura:
o que cresceu?
o que é que eu faço?
o que tenho que molhar sempre?
o que é que eu levo?
o que é que eu passo?

Não disfarço:
O homem é o dono do homem
Deus é cúmplice
no livre arbítrio do picadeiro
desse espaço.

Escolhe o alvo,
o salto
e os movimentos
no desprendimento que precisará
para atirar-se
nos braços do outro,
na confiança no trapezista ao lado.

Mágico, com surpresas únicas na cartola,
com o suprimento intransferível
de ser original e não simples cópia,
reprodução,
papel carbono de mais um animal,
em um segundo ele muda tudo.
De lenço para pombas,
de pequeno para colossal.

Acrobata,
dono do seu corpo no mundo
Malabarista,
com uma civilização de pratos
nas mãos e nos ares,
esse homem escolhe a fera:
pode levar ética ao circo ou
apodrecer preso,
como um mico, e sem ela.

Contorcionista,
se digladia
entre a angústia,
o medo,
a depressão,
a paralisia dos quais
só o seu talento o salvaria
e o salvará:
Ergue-se então este homem flexível
e não mais adia.
Ao contrário,
se apropria de
seus reais valores,
suas oportunidades,
sua criatividade,
sua alegria.

Aqui está o homem:
ave rara de todos os céus,
soberano sujeito de suas possibilidades,
criança sorridente,
domador de seus passos
e ao mesmo tempo palhaço
estendendo seus sublimes braços,
tentáculos no universo,
sobre a lona dessa esfera,
para ser, se quiser,
o maior espetáculo da terra.

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."


"Nunca se pode saber de antemão de que são capazes as pessoas,
é preciso esperar, dar tempo ao tempo,
o tempo é que manda,
o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa
e tem na mão todas as cartas do baralho,
a nós compete-nos inventar os encartes com a vida..."

"Eu sou é eu mesmo, divêrjo de todo mundo.
Eu quase que não sei de nada, mas desconfio de muita coisa."

"Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor,
me fazes viver em segurança."
(Salmo 4:8)