"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

prioridades


“Muito do que gastamos (e nos desgastamos) nesse consumismo feroz podia ser negociado com a gente mesmo: uma hora de alegria em troca daquele sapato. Uma tarde de amor em troca da prestação do carro do ano; um fim de semana em família em lugar daquele trabalho extra que está me matando e ainda por cima detesto.

Não sei se sou otimista demais, ou fora da realidade. Mas, à medida que fui gostando mais do meu jeans, camiseta e mocassins, me agitando menos, querendo ter menos, fui ficando mais tranqüila e mais divertida. Sapato e roupa simbolizam bem mais do que isso que são: representam uma escolha de vida, uma postura interior.

Nunca fui modelo de nada, graças a Deus. Mas amadurecer me obrigou a fazer muita faxina nos armários da alma e na bolsa também. Resistir a certas tentações é burrice; mas fugir de outras pode ser crescimento, e muito mais alegria.

Cada um que examine o baú de suas prioridades, e faça a arrumação que quiser ou puder.
Que seja para aliviar a vida, o coração e o pensamento - não para inventar de acumular ali mais alguns compromissos estéreis e mortais.” 


Mas nós dançamos no silêncio
Choramos no carnaval
Não vemos graça nas gracinhas da TV
Morremos de rir no horário eleitoral ♪♪

{ Outras freqüências }


Alegrem-se sempre!

I Tessalonicesenses 5:16

terça-feira, 30 de agosto de 2016


“Estamos tão acostumados a deixar nossas vontades de lado, que quando nos colocamos em primeiro lugar, nos sentimos culpados”

Beatriz Amaral

Amigo Jesus,
Deixa-me ajoelhar ao seu lado.
Preciso dobrar mais minhas pernas.
Ajuda-me a enxergar as estrelas quando o céu
estiver nublado de problemas.
Reanima minhas forças.
Lava meus pés cansados de tropeçar nas mesmas
pedras de sempre.
Não deixe que a esperança me deixe só.
Apesar das minhas quedas,
estenda sua mão para que eu não fique caído na estrada.
Quando for orar ao Pai, Jesus, lembra-te de mim!

[José Carlos de Lucca]


Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra que tanta pose, doutor
Pra que esse orgulho
A bruxa que é cega esbarra na gente
E a vida estanca
O enfarte lhe pega, doutor
E acaba essa banca
A vaidade é assim, põe o bobo no alto
E retira a escada
Mas fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal
Todo mundo é igual quando a vida termina
Com terra em cima e na horizontal

- A Banca do Distinto / Elis Regina -
#crise existencial


Em tudo seja você mesmo um exemplo para eles, fazendo boas obras. Em seu ensino, mostre integridade e seriedade; use linguagem sadia, contra a qual nada se possa dizer, para que aqueles que se lhe opõem fiquem envergonhados por não terem nada de mal para dizer a nosso respeito.

Tito 2:7,8

segunda-feira, 29 de agosto de 2016


“Com o tempo, a gente se desapega das manias, reinventa as certezas, vai desatando os nós e criando laços, deixa de lado a agitação e passa a curtir a rotina da paz, do amor próprio, da delicadeza de um livro ou de uma boa companhia. 

Com o tempo, a gente para de viver pra fora e passa a ser feliz por dentro.”

Tati Zanella
 #tapinhanascostas

Há um período em que os pais vão ficando órfãos de seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maneira que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do maternal?

A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça...
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes e cabelos longos, soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com uniforme de sua geração.

Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das horas.
E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não se repitam.

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos filhos.
Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. 

Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvirmos sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos ensurdecedores.
Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hamburgueres e refrigerantes, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado.

Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos.
Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim.

Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas “pestes”.
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito para que eles acertem nas escolhas em busca da felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.

O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos.
O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.

__Affonso Romano de Sant'Anna

Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. 

Filipenses 4:6

domingo, 28 de agosto de 2016


nunca fui


Nunca fui de fritura, mas desde que o gastroenterologista me disse que eu não poderia comer nada frito, passo o dia descobrindo novos lugares para me entupir de bolinhos de bacalhau, bolinhos de arroz, batatas de lanchonete e pasteis de feira.

Nunca fui de doces, mas desde que minha neurologista disse que eu pioraria das enxaquecas ao consumir açúcar, virei uma compulsiva por tapioca de doce de leite, bolo de cenoura com calda de chocolate e qualquer coisa da Lindt que apareça na minha frente.

Nunca fui de curtir a vida, mas desde que meu ginecologista falou que “é agora ou nunca pra ter filho” já tentei dançar hip-hop, fumar maconha, ficar fortemente alcoolizada, fazer festas em minha residência (fazer festas!), abrir espacate nas festas (ir a festas!) e me separar 28 vezes (não aguentando e pedindo desesperadamente pra voltar no segundo dia).

Nunca fui de me abandonar em um sofá por 14 horas seguidas, mas desde que minha fisioterapeuta disse que não existe nada pior pra coluna do que se abandonar em um sofá por 14 horas seguidas, nunca mais parei de assistir absolutamente toda a programação da Netflix, do Now e da AppleTV. Fora as coisas que eu jamais farei, como baixar filmes de forma ilegal. Tem sempre alguém que baixa pra mim e me amarra no sofá, daí sou obrigada a assistir.

Nunca fui de cagar uma tronca amestrada e gigantesca para esses seres maravilhosos mais conhecidos como o resto da humanidade, mas desde que meu analista me disse que amadurecer é prestar mais atenção nos outros, sou capaz de ficar um dia inteiro pesquisando no Google minúcias gritantemente específicas e autocentradas do tipo “cantinho de unha inflamado” ou “pinta pequena dedinho do pé”.

Nunca fui de gastar dinheiro com supérfluos, mas desde que meu advogado me disse “segura tua onda porque a coisa vai feder muito pra quem trabalha com cinema” já comprei três jaquetas pretas de couro ridiculamente iguais, mais uma poltrona fashion pra fazer companhia pra outras duas poltronas fashion que não cabem na minha casa e entrei para aquele mailing da loja Antônio Bernardo que te faz receber 765 correspondências por semana.

Nunca fui libertina, mas desde que minha psiquiatra falou que esse remédio invalidaria minha libido passei a flertar em silenciosa intensidade com qualquer coisa que se mova, incluindo aí o boneco abestalhado do posto de gasolina e a cancela automática do Sem Parar.

Nunca fui de ler contratos, mas desde que meu agente me disse que eu já tinha perdido uns três apartamentos com varanda gourmet em Moema, eu passei a não ler nem contratos e nem jornais e nem livros e nem mensagens no celular (porque eu só gravo voz e só me relaciono com quem grava voz). Minha especialidade agora são bulas de relaxantes musculares, memes “Fora, Temer” e o que as famosas fazem quando o bigode chinês fica muito profundo.

Nunca fui falsa, mas desde que minha tia me segurou pelos ombros e falou que eu merecia tudo de bom porque sou uma pessoa cheia de luz que fala o que pensa, jamais pude parar. Ela não estava com bafo esse dia, por exemplo. Ela não enche o mundo com frases que não dizem nada e que são iguais as todas as outras frases que não dizem nada e que me enchem de um vazio azedo. Eu estou melhor e sou tão grata por tudo. Que fase maravilhosa essa. 


Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo. 

(Colossenses 3:23-24)

sábado, 27 de agosto de 2016

a minha alma precisa de férias!


Texto de Nathalí Macedo

Acordei um pouco cansada. Cansada de segurar o choro, de contar as novidades, de sorrir para parecer que está tudo bem. Cansada de ser forte.
Dormi nua. Tirei as roupas e as máscaras junto com elas, mas precisei de as voltar a colocar pela manhã; umas calças meio rasgadas, uns sapatos confortáveis e um disfarce de pessoa feliz, feliz a tempo inteiro. Alguém que tem a obrigação de ser agradável.

Passei a pensar demasiado sobre o mundo. Isso é um pouco arriscado porque passamos a entender demais e uma vez desvendadas certas coisas, não dá para voltar atrás. Talvez a ignorância seja mesmo uma bênção, não nos apercebermos da crueldade com que eventualmente o mundo é capaz de nos tratar.

Acordei um pouco cansada das minhas próprias escolhas. Apenas por hoje não quero decidir absolutamente nada (açúcar ou adoçante, kizomba ou rock’n roll, bom dia ou foda-se?).

Não quero ser compreendida. É só mais uma obrigação que dá imenso trabalho. Apenas por hoje, não me vou esforçar para ser amada ou para agradar aos outros. Que nada seja dito ou pensado a meu respeito: hoje só me resta existir.

Acordei um pouco perdida em relação aos smartphones, às pessoas, à confusão urbana que estranhamente se confunde com a minha própria confusão. Não vou escolher uma playlist: toquem o que quiserem. Não vou pensar sobre as pessoas: sejam exatamente o que quiserem. Hoje, apenas por hoje, não quero conclusões.

Quero passar despercebida, como numa capa de invisibilidade mágica. Quero quase não existir até conseguir ajustar-me a esse medo de ser eternamente desajustada. Não quero prazos ou compromissos ou sorrisos ou explicações. Apenas por hoje quero coexistir passivamente e sem qualquer indício de indignação. A minha alma precisa de férias.


sempre desconfiei disso...


Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo de que aquilo que se vê não foi feito do que é visível. 

Hebreus 11:3

quarta-feira, 24 de agosto de 2016


oração ao tempo


Tudo o que lhe peço, Tempo, é que me salve do meu coração. Dessa entrega absurda de ir até o outro e me deixar sem mim. 
O que lhe peço, Tempo, é o caminho do meio. Aprender a receber antes de me entregar. Ver além. 
Peço que me devolva a mim mesma. Que eu me reconheça e me acolha. Me aqueça em meus buracos escuros e definitivamente me toque. 
Que eu saiba cuidar somente do que me cabe. E deixe ir. E deixe vir. Natural, inteira e suavemente. 
Que a vida me encontre distraída, sem a ânsia de buscar o que não sei. O que não vale. O que não é. 
O que lhe peço, Tempo, é a aceitação do tempo e da vida como ela é. Sei que ela me aguarda plena e legítima. Mostre a ela o caminho até mim. 
Enquanto isso, me adormeça em paz até que a verdade me alcance como um beijo. 
Tire de mim essa ânsia de ser feliz, inverta a ordem das coisas e assopre no ouvido da alegria o momento de me capturar sem volta. 
Que eu me aquiete na paz do merecimento, sem dar um passo ou um pio. 
Que apenas contemple. 
Que eu resista à tentação de correr para o que ainda não está pronto. 
Que eu me apronte para a surpresa de um dia simples. 
Que eu acorde como quem nasce. 
Amém.


Despeço-me para não ter que sentir ausências. 
Despeço-me antes do adeus inevitável. Digo que vou antes de perceber a partida contida na tonalidade da face, no ensaio dos pés e na inconsistência do olhar. 
Despeço-me fingindo um riso e solto a mão como quem se prepara para um voo. Fujo sorrateiramente antes da saudade aparecer. 
Coloco um ponto final por não saber nenhuma invencionice que consiga sarar rapidamente o que se fez oco inabitável daquilo que cessou sem minha autorização. 
E vou, desejando voltar.


Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês. 

(1 Pedro 5:7)

terça-feira, 23 de agosto de 2016


As eleições não são um confronto entre dois times que se odeiam. Não há dois times. O time é um só. Todos jogamos nele. 
Nosso time é a cidade. O que acontecer na cidade acontecerá a todos nós. 
O que acontece nas eleições é a escolha do técnico do time no qual todos nós jogamos.



Diante do mal,
Santifica teus olhos.


Não é possível definir o amor com palavras,
mas eu posso dizer que amar
inclui um desejo sincero de que o outro seja feliz.
É querer ver o outro feliz sem querer
absolutamente nada em troca.
Em última instância,
amar conscientemente
significa amar desinteressadamente.

[Sri Prem Baba]

O generoso prosperará; quem dá alívio aos outros, alívio receberá.

(Provérbios 11:25)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

bem vivido


Minha amiga Dri migrou da Savassi para Nova Lima. Em compensação, minha amiga Kica acaba de trocar a região da Pampulha pelo bairro de Lourdes. Sofro a falta da primeira e ganho de volta a segunda – afetos antigos que cultivo como se fossem jóias de família. Nossas profissões e estilos de vida diferentes nunca foram ameaça para os laços que já viraram nós – e que o tempo se encarrega de apertar.

Uma vez por ano, eu e Kica damos um jeito de jantar juntas. Múltiplos assuntos fazem a comida ficar em segundo plano. Degustamos gargalhadas. Ultimamente ela não tem cultivado muitas, pois acaba de perder a mãe. Quando alguém pergunta se está tudo bem, ela responde: “Bem mal”. E tem esse direito, embora poucos o respeitem. “Vim te trazer um pouco de alegria”, teria dito uma pessoa do seu relacionamento, tentando ajudar. Não há solidão maior que não ser compreendido.

O luto é como um parto. Vivê-lo é aprender a renascer – e nascer é exercício solitário. É preciso olhar o mundo novamente e re-conhecer-se diante dele. A morte é uma verdade disfarçada de absurdo.

Eu me lembro de vagar pela cidade como numa cena sem áudio. Olhava ao redor e me perguntava com que direito as pessoas sorriam, se dentro de mim as luzes estavam apagadas. Cada noite de sono era um bálsamo: finalmente a dor entrava em repouso até a manhã seguinte.

É assim até que a gente se acostume. A morte se repete muitas vezes. Ao acordarmos, está lá a morte de novo. A cada lembrança, outra morte. Até que em nós ela morra de fato – e isso demora.Quando meu filho nasceu, foi parecido. Só que era vida. Toda hora a vida de novo. A cada instante, olhar e ver: nasceu, é meu filho. Respira, mexe, chora, mama, é vida.

Cada momento tem seu tempo e sua intensidade. A despeito de um mundo que nos cobra sorrisos, é preciso dedicar-se ao luto até que chegue sua hora de ir embora. A perda pede recolhimento como um pós-operatório. Cada um descobre sua forma de pôr a dor para trabalhar em outra direção. E assim a ferida vira cicatriz – que de vez em quando inflama, é verdade, mas também nos fortalece.

A falta pode ser muito reveladora. Quem se vai é uma espécie de mártir, cuja lembrança traz inspiração a quem fica. Afetos ausentes lembram-me a urgência de atravessar a cidade até Nova Lima para visitar minha amiga Dri. E ensinam que fazer escolhas não precisa ser tão sofrido, nem carece do peso da certeza de ser para sempre. Nenhum de nós é para sempre.

Sim, as pessoas morrem. É preciso fazer algo grande ou algo que, de tão delicado, cresça.

Kica perdeu a mãe e vai me ganhar de volta. Vou poder retribuir o carinho que ela nunca me deixou faltar nas perdas que vivi. Que seja um luto bem curtido – e nem por isso sem direito a gargalhadas. Humor e morte podem ser amigos, como estão lado a lado com a vida. Longe ou perto, os três estão sempre se encontrando para sessões de choro ou de riso. Como eu, Dri e Kica.



Às vezes, o diabo deixa as pessoas viverem a vida sem problemas, porque não quer que recorram a Deus.
O pecado é como uma cadeia, só que tudo é lindo e confortável, não há necessidade de sair. A porta está aberta. Até que um dia o tempo se esgota e a porta da cela se tranca, então, é muito tarde.

“Deus é bom o tempo todo e o tempo todo, Deus é bom”


__ do filme “Deus não está morto”

Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor. 

1 Coríntios 13:13

quarta-feira, 17 de agosto de 2016



“Ficar em silêncio não significa não falar, mas abrir os ouvidos para escutar tudo que está a nossa volta.”


O que nos liga e nos faz pertencer?
O amor não é mensurável,
nem tampouco se sujeita aos postulados da razão.
E então recorro ao que os olhos revelam.
Alguém ousa dizer que eles não conhecem o significado da amizade?


Houve uma mudança de planos e eu me sinto incrivelmente leve e feliz. 
Descobri tantas coisas. Tantas, tantas. 
Existe tanta coisa mais importante nessa vida que sofrer por amor. 
Tantos amigos. Tantos lugares. Tantas frases e livros e sentidos. Tantas pessoas novas. Indo. Vindo. 
Tenho só um mundo pela frente. E olhe pra ele. Olhe o mundo! É tão pequeno diante de tudo o que sinto. Não dá mais para ocupar o mesmo espaço. 
Meu tempo não se mede em relógios. E a vida lá fora, me chama.


A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. 

Romanos 13:8

terça-feira, 16 de agosto de 2016


“Livre ninguém é. No entanto, cada um tem a liberdade de escolher a prisão que quer.”

__Elke Maravilha


16/08 – “Ela foi brincar de outra coisa”

eleições municipais


Já está em andamento mais uma temporada de caça ao nosso voto. Daqui para frente irão se intensificar os anúncios no jornal, os comerciais de tevê, as faixas nas ruas. O que dirão e o que farão os candidatos para nos convencer de que eles são a melhor escolha? Vão aqui umas idéias, de graça:

   1. Não beije criancinhas. A maioria delas se assusta ao ser brevemente raptada para o colo de um completo estranho. As mães gostam, é verdade. Para elas você é assim como um artista da Globo, e pode ser que votem mesmo em você por causa desse beijinho desinteressado. Mas os outros milhares de eleitores que não colocaram bebês ao seu alcance, estes sabem que você está fazendo isso só para parecer que é uma pessoa legal. Óbvio que você é uma pessoa legal, mas pode provar isso não se deixando contagiar por atitudes clichês. Desafie seus assessores e seus consultores de marketing. Avise-os: "Este ano eu me recuso a beijar crianças". Beije outra coisa.

   2. Você vai querer prometer acabar com o desemprego e a violência. Pense bem, criatura. Você prometeu semana passada ir jantar na casa do seu irmão e ele está esperando até agora. Também é uma idéia esgotada. Não prometa saneamento básico para todas as vilas, não prometa cinquenta mil novas vagas no mercado de trabalho, não prometa triplicar o número de viaturas da Brigada, não prometa céu estrelado no próximo réveillon. Diga que você vai fazer o possível, o que estiver ao seu alcance. Seja modesto. Tenha humildade. Finque os pés no chão. O povo vai cair pra trás, eles nunca viram isso.

   3. Você vai ter um jingle, fatalmente. Outra oportunidade de ouro para se diferenciar: encomende uma bossa nova. Ou um blues. Esqueça aquela gritaria, aquelas letras sem novidade, aquela síndrome de cãozinho do lacre azul. Sofistique-se. Faça uma coisa meio Lenine, meio Chico Buarque. Quem sabe uma música cantada pela Adriana Calcanhotto? Não custa convidá-la, milagres acontecem. 

   4. Carreata. É de dar pena, domingão de sol e você de pé na traseira de uma caminhonete abanando e sorrindo pra gente que nunca viu antes. Não diga que acha divertido. Ninguém no seu juízo normal acharia. Então entre no seu próprio carro, ligue o ar-condicionado e dê uma banda pela cidade, sem muito alarde. Quando passar por um pequeno grupo, dê uma buzinadinha de leve, pisque o olho. Apareça discretamente, sem forçar. Você não é a rainha da Festa da Uva. Poupe-se, economize energia: vá que você seja eleito.


Alguém plantou essa árvore em mim. Espécie teimosa. De galhos seguros e tronco robusto. De madeira frágil, mas difícil de derrubar.

Um pé de força. No qual florescem coragem, esperança e fé. Um pé onde eu, essa criança ainda assustada, me penduro sempre que pressinto a queda. Onde me agarro para esperar que passe o vendaval. Para esperar que a tempestade se dissolva ao primeiro raiar do sol.

Uma árvore que é minha salvação. E minha maldição. Uma árvore que terá sempre raízes para me manter de pé. E galhos para me segurar. Mesmo agora que meu corpo, já cansado de lutar, queira apenas desmoronar e, derrotado, fazer do chão seu lugar.

___João Célio


A esperança que se retarda deixa o coração doente, mas o anseio satisfeito é árvore de vida. 

Provérbios 13:12

segunda-feira, 15 de agosto de 2016



#dia do analista de sistema

o que eu caço por aí


Estava distraída andando pelo parque num dia de sol quando escutei, sem querer, a conversa de duas moças que caminhavam logo atrás de mim.

Disse uma para a outra: “Ele aparece muito depressa, não dá tempo de pegar”.

Imaginei que ela estivesse narrando as desventuras da noite anterior. Visualizei a cena: ela tomava uma caipirinha em uma mesa de bar quando entrou no recinto o homem de seus sonhos, que deu uma rápida conferida no ambiente e logo sumiu porta afora, como era de costume. O comentário dela não fazia todo o sentido? “Ele aparece muito depressa, não dá tempo de pegar”.

Se não era esse o caso, talvez fôssemos colegas de profissão e o comentário faria sentido igual, uma vez que, além de eu estar no parque me exercitando, estava também fazendo algo que minha atividade exige: caçando. Calma. Caçando assunto. Às vezes, eles também surgem muito depressa, nem dá tempo de pegar.

Parece insano reclamar de falta de assunto, já que não se pode alegar que o mundo esteja um tédio. Absolutamente tudo está acontecendo neste ano, a ponto de uma boa piada ter se propagado por aí: “Tentei acompanhar 2016, mas desisto, vou esperar sair em DVD”.

Ainda assim, quem escreve colunas há mais de duas décadas vive com a sensação de ter esgotado seu estoque de opiniões. Olimpíada, corrupção, desastres ambientais, mortes, crises, eleições, retrocessos, avanços, dores existenciais, ativismo político e social: mudam os personagens, os enredos são reescritos, a filosofia clássica é reinterpretada, mas o que é que ainda surpreende de fato? Lembro que até há pouco tempo eu pensava que o último acontecimento realmente impactante deste início de século havia sido o 11 de Setembro, porém até o terrorismo está em vias de se banalizar.

O jeito é extrair uma impressão pessoal não só das grandes questões, mas também das trivialidades que todos estão comentando (e agora todos são todos mesmo), com bom humor ou mau humor, sem se angustiar por não conseguir ser original em meio a bilhões de palpiteiros simultâneos desse universo tecnológico.

Costumo fazer minhas caminhadas sem levar o celular, mas aquelas duas moças atrás de mim estavam com seus smarthphones caçando você-sabe-o-quê, só que quem se deu bem fui eu, pois ele passou depressa e eu consegui pegar – um assunto! Graças ao comentário delas, trouxe pra casa minha caça: a crônica foi escrita, entregue para o jornal e agora está sendo lida. De certa forma, meu Pokémon é você.