"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



sábado, 31 de outubro de 2015




Que todos os feitiços se virem contra os feiticeiros, 
que as varinhas mágicas sejam usadas para trazer paz e harmonia 
que dos nossos corações só brote o amor, que é a magia mais forte.



Em 1 Coríntios 10:20, 21, a Bíblia diz: “Não quero que vocês tomem parte nas coisas dos demônios. Vocês não podem beber do cálice do Senhor e também do cálice dos demônios.”

sexta-feira, 30 de outubro de 2015



Dormia 
a nossa pátria mãe tão distraída 
sem perceber que era subtraída 
em tenebrosas transações 

__Chico Buarque 

Chico nunca foi tão atual... 


#palavrinhasmágicas

dentro do seu corpo


Quem é dono do que acontece dentro de você?

Sua história passa por dentro do seu corpo. Você é dono de seus arranhões e também das contusões conquistadas em subidas em árvores e quedas de escadas. Dono das cicatrizes externas e internas, dos enjoos de nervosismo diante das broncas do pai, do primeiro pedido de namoro, das provas do vestibular.

Você é dono do seu joelho, do seu cotovelo, do seu estômago, da sua hérnia, da sua pedra no rim. É sua a hepatite, é sua a corrente sanguínea, a adrenalina por ter escapado  por pouco de um assalto ou de um acidente.

Você é dono da sua taquicardia na hora de uma entrevista de emprego, você responde pelos quilos a mais depois de passar o fim de semana pulando de um churrasco para uma feijoada. Seus dentes são seus. Sua língua. Seu beijo.

Dentro do seu corpo estão as lágrimas represadas por dores que você esconde  embaixo da pele. Esse tumor desgraçado  é seu. Essa alegria infinita é sua. Você  pensa porque tem um cérebro aí dentro  que não é de ninguém mais. Você resolve para onde olhar com seus olhos, o que segurar com suas mãos, com quem compartilhar seu sexo. Você pode vender seu corpo, mas nunca precisou comprá-lo, tem a posse gratuita, legítima, vitalícia e intransferível.

Intransferível.

Através do corpo, você exerce as duas coisas que movem sua vida: o querer e o não querer. Se você deseja, se você resolve, se você pretende, é com o corpo que alcançará seu destino. E você também é dono da sua paralisia, se assim preferir. Tudo o que você sente, tudo o que  você é, vem aí de dentro. O que você quer expelir e o que você quer cuidar. Músculos e sentimentos na mesma caixa-forte.

Você aborta se quiser. Ou gera se quiser. O corpo é seu. O embrião é seu. A história
de vida é sua.

Políticos são eleitos para garantir às pessoas (a partir do nascimento, quando se tornam seres sociais) segurança, habitação, transporte, educação, saúde e trabalho. O querer e o não querer de cada um são privados. O que cada mulher traz dentro do próprio corpo é dela,  não do Estado.

Não bastasse o aborto ser proibido, agora querem transformá-lo em crime hediondo.  Um político, que é um cidadão qualquer, tem o poder de decidir sobre o corpo da minha filha e o corpo da sua. Não importa a vontade delas próprias, suas questões emocionais, psicológicas, íntimas. Não interessa a idade que elas têm, se são religiosas ou ateias, se estão empregadas ou desempregadas, se já são mães de sete ou se jamais quiseram ser mães. Não lhes dão o direito ao medo, nenhum privilégio pela ordem de chegada, adeus ao livre-arbítrio. Engravidaram e, a partir de então, não são mais elas que escolhem.

O querer e o não querer mais pessoais do mundo, administrados por quem não tem absolutamente nada a ver com o assunto.



O Senhor é bom,
um refúgio em tempos de angústia.
Ele protege os que nele confiam,

Naum 1:7


#preparativos pra “curtir” o feriado

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

morra bem


Um dos meus textos mais conhecidos chama-se A morte devagar, que publiquei na véspera de Finados de 2000 e que logo ganhou o mundo com o título Morre Lentamente. No início foi equivocadamente atribuído a Pablo Neruda, por isso o espalhamento e seu sucesso. Passado tanto tempo, já me devolveram a autoria e hoje esse texto virou canção na França e entrou no roteiro de um filme italiano – sem falar nas traduções para o espanhol, que alguns desconfiados ainda acreditam ser seu idioma de origem.

Na época, aproveitando a proximidade do Dia dos Mortos, escrevi puxando as orelhas (não os pés) daqueles que morrem em vida: os que evitam o risco, a arte, a paixão, o mistério, as viagens e as perguntas - apenas atravessam os dias respirando.
Agora, na proximidade de um novo Finados, 15 anos depois, reitero: não morra lentamente. Morra rápido, de uma vez só, sem delongas. Morra quantas vezes for necessário.

Quando fiz meu mapa astral, ouvi da astróloga: “Você tem dificuldade de lidar com ambivalências, gosta das coisas esclarecidas, para o bem ou para o mal”. E ela concluiu: “Morrer é algo que você faz bem, ficar em banho-maria, não”.

Sombrio? Soturno? Ao contrário. Entendi com clareza sobre o que ela falava. Morte é a antessala da luz. Não a morte definitiva, que encerra o assunto, mas as diversas mortes em vida, os vários falecimentos a que somos submetidos. É preciso morrer bem enquanto se vive.

Cada final de amor é uma pequena morte, por exemplo. Morre lentamente quem fica alimentando fantasias de retorno, planejando vinganças, cultivando lembranças com naftalina. Sei que dói, mas não deixe esse amor definhando na UTI, dê logo a extrema-unção, acabe com isso, morra rápido, morra de vez, para que possa renascer ligeiro também.

Finais de carreira, finais de amizade, finais de ciclo: mortes que acontecem aos 30, aos 40 anos, em qualquer idade. Dói, dói demais, não estou negando a dor, mas o que você prefere? As dúvidas, as ilusões, o apego? Prefere a sobrevida a uma vida nova? Confie na experiência de quem já se enterrou algumas vezes. Morra. Morra bem morrido, baby.

Final de juventude, final da faculdade, final de uma viagem de intercâmbio: vai ficar agindo como se tivesse 18 anos para sempre? Mate o moleque em você, renasça adulto.

A morte daqueles que amamos é trágica, mas nossa própria morte, não. Ela é uma contingência de nossa longa existência, e essa não é uma frase cínica, simplesmente é assim. Nossos sonhos morrem. Nosso passado morre. Nossas crenças. Fazer o quê? Morra bem. Morra com categoria. Com dignidade. O menos lentamente possível. Morra de morte bem arrematada, uma, duas, três mil vezes, morra em definitivo sempre que for exigido, para sobrar tempo.

Tempo para a vida em frente.



Tem gente que é assim.
Vai de encontro às leis da física, desobedece a gravidade.
                                                                                                       r.
                                                                                    a
                                                                               u
                                                                          t
                                                                     u
                                                                  l  

                                   … E faz a gente f     


Assisti através da janela, ao sol nascer.
E constatei, aliviado, mas também um tanto escandalizado,
que ele nasceu de forma idêntica à de todos os dias da minha vida,
apesar de tudo.
.
.
(Roberto Freire, in Coiote)

Dediquem-se à oração, estejam alertas e sejam agradecidos. 

Colossenses 4:2

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


Não é a aparência, é a essência. 
Não é o dinheiro, é a educação. 
Não é a roupa, é a classe. 

___Coco Chanel

O desejo de liberdade é mais forte que a paixão.
Pássaro: eu não amaria quem me cortasse as asas.
Barco: eu não amaria quem me amarrasse no cais.


“mea culpa” coletivo...

De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. 
E que isso bastasse.


Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...


sexta-feira, 23 de outubro de 2015


Tenho 26 anos bem vividos, nunca quebrei nenhum osso do corpo, só tirei sangue para exames de rotina e sempre procurei comer todos os legumes e as verduras do prato. 

Apesar disso e de tantas outras coisas que fiz em busca de tentar ser o que hoje chamamos de saudável, há 16 dias fui diagnosticada com câncer de mama. 

Eu achei que isso nunca iria acontecer comigo, mas aconteceu. Há duas semanas minha vida mudou completamente. Minhas preocupações mudaram de “será que vou ter tempo de ir na academia hoje?” para “não posso ficar gripada porque pode adiar a cirurgia”. 

Já chorei um pouquinho, fiquei com dózinha de mim mesma, mas estou bem. Graças a Deus e a uma família incrível tive oportunidade de ser operada em menos de uma semana, então teoricamente já nem câncer eu tenho. 

Estou aguardando agora para saber a continuidade do tratamento, uma espera que dura 7 dias mas parece uma eternidade. 

A gente no início se pergunta “por que eu?” mas a vida me responde “por que não você?”. Poderia ser qualquer um, mas fui eu. 

A realidade é bem menos chocante do que a gente imagina e na verdade quando eu voltar ao trabalho depois da operação a vida segue semi-normal. 

O que choca mais são as outras pessoas, que parecem que viram um fantasma quando sabem da notícia. 

Estou bem, estou viva e pretendo seguir assim por mais uns 70 anos. 

Pensei muito antes de publicar essa mensagem (quem me conhece sabe que não sou de expor mais que necessário na internet) mas eu que sempre me perguntei qual o sentido das redes sociais, hoje pensei que talvez seja esse. Passar a mensagem: se cuide
Faça seus exames periodicamente, independente da idade que você tenha. Não adie contando com o fato de que não irá acontecer com você. 

Eu entrei nessa luta pra vencer, mas se eu tivesse deixado pro ano que vem, talvez ela já se encontraria perdida. 

Se cuide. Todo cuidado é pouco quando a nossa vida está em jogo e ninguém é novo demais para nada. 

Hoje é meu dia de ficar de repouso, trocar curativo e aguardar resultados. Espero que seja seu dia de passar a mão no telefone e marcar a consulta com aquele médico que você vem adiando. 

Faça isso, por mim, por você e pela vida.

[ Carolina Sanovicz - 07/2015 ]

quarta-feira, 21 de outubro de 2015


A gente se afasta inconscientemente. Se afasta tão silenciosamente que ao dar-se conta vem aquela lembrança súbita no meio da manhã: “Minha nossa, nós éramos amigos”.


Não existe remédio melhor para a depressão do que uma cólica renal. 
A dor é tanta que se enche os espaços mentais, não sobrando tempo para pensamentos tristes. 
                                    #sqn



Se você não é nenhuma Gisele Bündchen, não há motivo para se desesperar em frente ao espelho. Quem dera ser uma deusa, mas não sendo, há chance de ser incluída no time das interessantes. Junte nove lindas e uma mulher interessante e será ela quem vai se destacar entre as representantes do marasmo estético. Perfeição, você sabe, entedia.

Mulher interessante é aquela que não nasceu com tudo no lugar, a não ser a cabeça – e, às vezes, nem isso, pois as malucas também têm um charme diabólico. A mulher interessante não é propriamente bonita, mas tem personalidade, tem postura, tem um enigma no fundo dos olhos, uma malícia que inquieta a todos quando sorri – e um nariz diferente. São também conhecidas como feias bonitas.

Eu poderia citar um batalhão de feias bonitas que, aqui no Brasil, são públicas e notórias, mas vá que elas não considerem isso um elogio. Então vou dar um exemplo clássico que vive a quilômetros de distância: Sarah Jessica Parker. É uma feia lindona. Uma feia classuda. Uma feia surpreendente. Adoro este tipo de visual. Mulheres com rostos difíceis de classificar, que não se enquadram em nenhum padrão.

Quando Meryl Streep estreou como coadjuvante em Manhattan, filme de Woody Allen, chamou a atenção não só pelo talento, mas pelo seu ar blasé, seu porte altivo e uma sobrancelha que arqueava interrogativamente, como se perguntasse: e aí, você já decidiu se lhe agrado ou não? Paralisante.

Esse gênero de mulher não figura nos anúncios da Lancôme e não possui um rosto desenhado com fita métrica: olhos, boca e nariz a uma distância equilibrada um dos outros. Nada disso. A feia bonita é aquela que não causa uma excelente impressão à primeira vista. Ao contrário, causa estranhamento. As pessoas se questionam. O que é que essa mulher tem? Ela tem algo. Pronome indefinido: algo.

Ficar bonitinha, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas. Não dá para encomendar num consultório de cirurgia plástica. Não adianta musculação, dieta, hidratantes. Feias bonitas têm a boca larga demais. Ou um leve estrabismo. Ou um nariz adunco. Ou seja, este algo que elas têm é algo errado. Mas que funciona escandalosamente bem.

E há aquelas que não têm nada de errado, mas também nada de relevante. Um zero a zero completo, e ainda assim se destacam. Um exemplo? Aquela menina que atuou em Homem-Aranha e Maria Antonieta, a Kirsten Dunst. Jamais será uma Michelle Pfiefer, mas a menina tem algo. Quem dera esse algo fosse vendido em frascos nos freeshops da vida.

Se o fato de ser uma feia bonita é, digamos, uma ótima compensação, ser um feio bonito é o prêmio máximo. Não sei se você concorda, mas eles são mais atraentes que os bonitos bonitos. Não que seja tolerável um narigão num homem: ele tem que ter um! Nada de baby face. É obrigatório uma cicatriz, ou um queixo pronunciado, um olhar caído. Você está lembrando de um monte de cafajestes, eu sei. Ou de um monte de italianos. É esse tipo mesmo, você pegou o espírito da coisa.

Feias bonitas e feios bonitos tornam a vida mais generosa, democrática, divertida e interessante. Não podemos ter tudo, mas algo se pode ter.


Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino. 

1 Coríntios 13:11

terça-feira, 20 de outubro de 2015

conversas iluminadas


Tem coisa mais xarope do que faltar luz? Outro dia estava terminando de escrever um texto e não consegui concluí-lo: o céu enegreceu, trovões começaram a espocar e foi-se a energia da casa. Eram 15h10 da tarde. A luz só voltou às 20h. Fiquei com aquele pedação de dia sem poder trabalhar. Então bati à porta do quarto da minha filha e percebi que ela também estava à toa, sem conseguir desfrutar da companhia inseparável do seu laptop. Ficamos as duas ali nos queixando do desperdício de tempo, até que nos jogamos em sua cama e começamos a conversar. Que jeito. 

Conversamos sobre os sonhos que ela tem para o futuro, e eu contei os que eu tinha na idade dela, e de como a vida me surpreendeu desde lá até aqui. E ela me divertiu com umas ideias absurdas que só podiam mesmo sair de sua cabeça inventiva, e eu ri tanto que ela se contagiou e riu muito também de si mesma. Então ela me falou sobre uma peça de teatro que foi assistir quando eu estive viajando, e ela disse que eu teria adorado, e combinamos de ir juntas na próxima vez que o ator voltar a Porto Alegre. 

Aí eu contei o que fiz durante essa viagem que me impediu de estar com ela no teatro, e vimos as fotos juntas. Então foi a vez de ela me apresentar o novo disco da Lady Gaga (pelo celular), e ela me convenceu de que existe muito preconceito com essa cantora que, em sua opinião, é revolucionária, e eu escutei umas sete músicas e não gostei tanto assim, mas reconheci ali um talento que eu estava mesmo desprezando. Então foi minha vez de tocar pra ela uma música que eu adoro e ela fez uma careta, e concluí que a careta era eu. E rimos de novo, e conversamos mais um tanto, e então fomos para a cozinha comer um resto de salada de fruta que estava a ponto de estragar naquela geladeira sem vida, já que a luz ainda não havia voltado. 

Será que não havia voltado mesmo? Engraçado, fazia tempo que não passava uma tarde tão luminosa. 

Quando por fim a luz voltou, voltei também eu para o computador, e voltou minha filha para seu Facebook, e só o que se escutava pela casa era o barulho das teclas escrevendo para seres invisíveis – falávamos com quem? Com o universo alheio. 

E tive então um insight: tem, sim, coisa mais xarope do que faltar luz. É ficarmos reféns da tecnologia, deixando de conversar com quem está ao nosso lado. Se é preciso que a energia elétrica seja cortada para resgatar a energia humana, que seja, então. Não em hospitais, não em escolas, mas dentro de casa, uma horinha por semana: não haveria de causar um estrago tão grande. Se acontecer de novo, prometo não reclamar para a Companhia de Energia Elétrica, desde que não demore tanto para voltar a ponto de estragar os alimentos na geladeira e que seja suficiente para me alimentar da clarividência e brilho de um bom papo.


saudade é...


Quando o nunca engole o sempre
É a angústia de uma vontade irrealizável
O trovão que ruge no sono da gente
É esperar pelo abraço que nunca chega
Sentir nas mãos as mãos que não estão
Mandar a mente tão longe quanto o outro estiver

Saudade é
Falta de ponto final
Excesso de reticência…



Cantarei para sempre o amor do Senhor; com minha boca anunciarei a tua fidelidade por todas as gerações. 

Salmos 89:1

sábado, 17 de outubro de 2015

♪ Oh! chuva
Eu peço que caia devagar
Só molhe esse povo de alegria
Para nunca mais chorar 

___Falamansa 

não é meu


(...)
Hoje não só se apaga como se acrescenta pessoas ou se altera suas feições, sua idade e sua quantidade de cabelo e de roupa, em qualquer imagem gravada. 

A frase “prova fotográfica” foi desmoralizada para sempre, agora que você pode provar qualquer coisa fotograficamente. 
Existe até uma técnica para retocar a imagem em movimento, e atrizes preocupadas com suas rugas ou manchas não precisam mais carregar na maquiagem convencional – sua maquiagem é feita eletronicamente, no ar. 

Nossas atrizes rejuvenescem a olhos vistos a cada nova novela. E quem posa nua para a Playboy ou similar não precisa mais encolher a barriga ou tentar esconder suas imperfeições.
“fotoxópi faz isso por ela. 
O fotoxópi é um revisor da Natureza. Lembro quando não existia fotoxópi e recorriam à pistola, um borrifador à pressão de tinta, para retocar as imagens. 
Nas Playboys antigas a pistola era usada principalmente para esconder os pelos pubianos das moças, que desapareciam como se nunca tivessem estado ali. 

Se a prova fotográfica não vale mais nada nestes novos tempos inconfiáveis, a assinatura muito menos. 
Textos assinados pela Martha Medeiros, pelo Jabor, por mim e por outros, e até pelo Jorge Luis Borges, que nenhum de nós escreveu – a não ser que o Borges esteja mandando matérias da sua biblioteca sideral sem que a gente saiba – rolam na internet, e não se pode fazer nada a respeito a não ser negar a autoria – ou aceitar os elogios, se for o caso. 

Agora mesmo está circulando um texto com a minha assinatura, que não é meu. 
Isso tem se repetido tanto que já começo a me olhar no espelho todas as manhãs com alguma desconfiança. 
Esse cara sou eu mesmo? E se eu estiver fazendo a barba e escovando os dentes de um impostor, de um eu apócrifo? 
E – meu Deus – se esta crônica não for minha e sim dele?


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

na hora do recreio


Não é falta de educação perguntar a idade a um professor, e sim seu salário.

Questionar o vencimento a um educador municipal ou estadual é uma afronta, um constrangimento perante os outros. Melhor evitar; manter a amizade silenciosa, o respeito telepático, a pose compreensiva.

Mas não perguntar não significa que não sei quanto ele recebe. Acabo descobrindo. É impossível não saber.

Eu vejo cada centavo, cada real de seu contracheque. Toda vez que entro numa sala de professores testemunho um deles comercializando roupas, lingerie ou uma série inédita de produtos da Avon ou da Natura.

Varais preenchem as cadeiras de fórmica: uma festa junina de etiquetas, desafiando a procura pelas térmicas da água quente e do café.

As mesas estarão ocupadas de embalagens sendo abertas e reviradas pela ansiedade do recreio.

O salário aparece nítido no desespero da muamba.

A sala de convivência é casa de penhor, comércio ambulante, camelô.

O professor tornou-se uma formalidade cheia de informalidades. Coleciona rifas além do seu trabalho, senão não sustenta a família, não aguenta o tranco do final do mês, não tem como fazer rancho aos filhos.

É humilhante pensar que aquele que ensina não ganha o suficiente apenas para ensinar.

O magistério é total ausência de exclusividade. Não é uma carreira, é uma mesada do Estado. O professor vive eternamente como um estagiário, aguardando ser efetivado e abandonar a miragem salarial.

Professor usa o intervalo para completar seu orçamento. Acumula tarefas, sobrevive de reforços da receita, não respira à toa, não tem margem para incrementar seu currículo com cursos e especializações.

Professor não conhece férias, mas greve. Não conhece promoção, mas reajuste.

São extras e extras e extras sem fim. Bicos e bicos e bicos infinitos.

É uma comissão aqui, uma porcentagem acolá. Tudo é dinheiro contadinho para as passagens.

Escola é rodoviária. Nosso professor chega com uma malinha pesada. Não são livros, não são cadernos de estudo, são novidades imperdíveis e baratas para serem revendidas.

Ele espalha os pertences pelo sofá e não descansa um minuto tentando convencer seus colegas a levar um dos itens.

Pena que nenhum pode comprar. Porque também são professores.


todo bom aluno retira do professor, o máximo de conhecimento que ele pode dar...

uma crítica ao sistema educacional



“Estudo Errado”, escrita em 1995, por Gabriel o Pensador, faz uma crítica ao sistema educacional da época, mas mesmo nos dias atuais apresenta-se coerente com o método de muitas escolas.


A música, traz o olhar de um aluno frente a uma escola que atua através do ensino tradicional, provocando assim, uma série de questionamentos sobre a importância de se estudar e os efeitos que isso causa na educação plena do estudante, que passa a ver a escola como um lugar que não se aprende coisas úteis e essenciais para a sua vida cotidiana, e sim, um lugar que seus pais o obrigam a frequentar e tirar “notas boas”.


Eu irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de bronze e despedaçarei as trancas de ferro; dar-te-ei os tesouros escondidos e as riquezas encobertas, para que saibas que Eu sou o SENHOR, o Deus de Israel, que te chama pelo teu nome.

Isaías 45:2-3

quinta-feira, 8 de outubro de 2015


Dia 12 é o dia delas e um pouco nosso...
... porque todos temos uma criança dentro de nós.

Feliz dia da criança que existe em você!


infância com início, meio e fim


Fui vários meninos. Sou adulto porque brinquei tudo o que podia na infância. Gastei a infância. Usei a infância. Encardi a infância. Envelheci a infância.
Fui o menino das bolinhas de gude. Meu dedão é um gatilho de bolitas.
Fui o menino do futebol de botão. Chamava o meu time de Resto do Mundo e sempre acabava como o vice-campeão do bairro - jamais ganhei do Rodrigo, meu irmão mais velho.
Fui o menino do Banco Imobiliário, Detetive, War, Pula-Pirata, Playmobil, Pinogol, Aquaplay e Atari.
Fui o menino do Forte Apache, com índios montando ataque à cavalaria, escondidos nas samambaias da varanda.
Fui o menino que não comprava cachorro, adotava vira-lata manco e perdido nas redondezas (antes da carrocinha achá-lo).
Fui o menino do carrinho de rolimã. Ia para escola seguindo o rastro das rodas nas lajes.
Fui o menino que tirava a fofolete da caixinha de fósforo das colegas para colocar uma barata no lugar.
Fui o menino do ioiô, havia campeonato na escola para demonstrar manobras como estrela, pêndulo de relógio e cachorro passeando.
Fui o menino das pipas. Os fios elétricos colecionavam as minhas invenções coloridas.
Fui o menino de jogar pedras no rio. Criava círculos perfeitos em lançamentos rasantes. O rio nunca afundou em meus olhos.
Fui o menino de jogar bola de garagem a garagem. A turma parava a partida quando passava um carro.
Fui o menino do pião, minha bailarina, meu ciclone de estimação, rezando por mais uma pirueta, e que um novo giro levasse as tristezas embora.
Fui o menino do caçador, do esconde-esconde, do polícia-ladrão, de encontrar vãos e subir nos telhados.
Fui o menino de roubar frutas da casa dos outros. Um dia devolvo.
Fui o menino de jogar bexiguinha do alto dos prédios nas pessoas. Fazia o cálculo mental, atirava sem olhar, me escondia e esperava o grito de quem passava pela minha rua.
Fui o menino de só voltar para a residência quando já era noite, quando o sol também cansava, quando a lua não tinha mais força para disputar corrida, quando o jantar estava na mesa e eu ainda precisava tomar banho.
Hoje crianças já são adolescentes ao nascer e crescem sem ter infância.


Hebreus 12:11 diz: “Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados.”

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sou do tempo em que tristeza era curada com um pedaço de goiabada com queijo, mas hoje não. Qualquer tristezazinha já tem de ser medicada com comprimidos que entorpecem a alma. 
(...) Coisa mais esquisita. Só porque está um pouco ansiosa, fato normalíssimo na vida humana, já foi diagnosticada como deprimida. 
Tristeza agora tem outro nome?
Isso é falta do que fazer. Se lavasse uma mala de roupa por dia, certamente estaria bem cansada para dormir a noite toda, mas não.

Sou da época em que o fogão à lenha era o coração da casa. A labareda e seu poder de manter os filhos ao redor da mesa! A vida era artesanal. A felicidade se escondia numa panela de barro com carne moída e abobrinha.

Sou do tempo em que mingau de fubá era a primeira refeição do dia. A roupa branca quarando no varal, o cheiro de broa de milho, o calor do forno de tambor que ficava na varanda. Vida emoldurada de matéria simples, quase silenciosa.

Essa vida moderna não tem nada de artesanal. Tudo é feito às pressas. Antes, a vida demorava para acontecer. Hoje não. Não há espaço para a espera que nos permite ocupar a mente. Os sabores não demoram em nós. 
Recordo-me. A jabuticabeira florida era epifania de uma felicidade de época. Alegrias com cores de novembro. Chuvas torrenciais que nos permitiam tardes de prazeres delicados. Observar a metamorfose das flores em frutos era satisfação sem preço. 
A natureza costurada de regras consumava diante de nossos olhos o ditado bíblico diz que debaixo do céu há um tempo para cada coisa. 
Era o tempo alinhavando os destinos das floradas, enquanto no silêncio do coração uma primavera fora de hora insistia em lançar pequenos brotos.

Sou do tempo em que tristeza era curada com uma mala de roupa pra lavar. O sabão e sua espuma sugerindo limpeza. Por dentro e por fora. A mesma água lavando sujeiras diferentes, alvejando roupas e alma num mesmo movimento. Tanque cura tristeza. Sol quente favorecendo o desejo de quarar as mazelas do mundo, retirando as manchas do tempo, os desatinos do passado. A água e sua capacidade de atingir o mais profundo, ultrapassando a pele e chegando aos destinos mais ocultos. A sujeira da roupa sendo desfeita pela força dos gestos das mãos. Do gesto, o que se desfeita pela força dos gestos das mãos. Do gesto, o que se desprende, como se houvesse uma continuidade que os olhos não enxergam, mas que a alma recebe em silêncio, prostrada.

O que faz a diferença no mundo é o jeito como olhamos para ele.  Ando convencida de que a simplicidade são os óculos ideais pra uma visão mais acertada.
Relação complicada nasce é do jeito como nos olhamos. Depende do foco. Se há simplicidade em quem olha, naturalmente se torna simples aquele que é olhado. Oh, vida de meu Deus! Quanta coisa seria diferente, caso a simplicidade crescesse pelas ruas, do mesmo jeito que cresce a tiririca no meu jardim.

Sou do tempo em que jardim não era artigo de luxo. Cada família cultivava o seu. 
Hoje arrumaram até paisagistas para darem jeito nas feiúras do mundo. 
Solução fácil não existe. Cada um deveria cuidar da feiúra mais próxima. É só assim que o mundo pode ter jeito. 

Acho que estou ficando triste, ou deprimida, não sei.
Melhor comer um pedaço de goiabada com queijo!
Antes prevenir, que remediar.

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.