"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017


#correndo contra o tempo

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017




“Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.”



“A metade da beleza depende da paisagem;
e a outra metade da pessoa que a olha...”

__Herman Hesse

proibido lembrar


Quando eu era pequena, vivia na ponta dos pés espiando e desejando habitar no mundo dos adultos. Na minha incorrigível ideia, adultos sabiam das coisas. Inventavam outras.

Então, cresci. Aprendi tudo dos adultos. Aprendi o que desejava e o que nunca quis. E repeti as lições. Adultos franzem a testa. Criam rugas. Andam apressados. Demoram sorrir. Trabalham o tempo todo. Compram muitas coisas. Guardam em armários. Possuem desejos estranhos. Fazem coisas contraditórias. Engordam. Ficam zangados.

Adultos possuem problemas reais e imaginários. Tomam remédios sem parar e nunca melhoram. Adultos fazem regras e desobedecem as leis.

Guardam dinheiro. Guardam mágoas. Conservam coisas, descartam pessoas.

Adultos são cheios de dúvidas. Complicam a vida. Fazem perguntas e não encontram respostas.

Adultos brigam por seus dilemas. Aventuram-se pelo conforto. Adultos desamparam quem precisa. Desatam laços. Fazem nós nas situações. Querem ultrapassar limites. Cometem loucuras sem motivos. Falam duramente. Ferem sem necessidade. Adultos perdem o juízo, a calma, a alma.

Adultos colecionam medos. Competem inutilmente. Estudam fórmulas, teorias, conceitos, regras e nunca usam.

Adultos ficam tristes por qualquer coisa. Preocupam-se a toa. Choram sem razão. Entopem-se de felicidade provisória. Desiludem-se. Não se entendem. Amam por obrigação. Esquecem por suposições. Machucam por ilusões. Passam adiante as responsabilidades. Esquecem das flores. Afugentam os pássaros. Resumem os carinhos. Dispensam a alegria.

Com os adultos a folia é silenciosa, os palhaços ficam sérios e o circo dorme.

Adultos escolhem pelos olhos e condenam pelo coração. São coisas que aprendi e quero esquecer.


“Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros.” 

(Romanos 12:4-5)

sábado, 2 de dezembro de 2017

“Tudo que eu sinto esbarra em Deus. 

#meu alicerce!

humor é coisa séria


Um dia desses, um amigo me enviou uma piadinha por WhatsApp, e eu não respondi nada, que é o máximo de educação que eu consigo manter diante de uma foto bizarra acompanhada de um trocadilho infame. Ele deveria ter se tocado que não agradou e deixado por isso mesmo, mas resolveu cobrar pelo meu silêncio: pô, humor tem que ser sempre inteligente?

Que eu saiba, só existe humor na inteligência. Na falta dela, reside a idiotice.

Eu sei, eu sei. Estou parecendo extremamente mal-humorada, mas, diante desta histeria coletiva de se mandar duzentas mil gracinhas para os grupos de WhatsApp, é preciso ficar atento. Quando fazemos parte de uma turma íntima, vá lá, a idiotice pode funcionar como uma válvula de escape para as tensões do dia a dia, além de ser uma forma de manter contato - a troca de piadas tolas substitui a cervejinha no fim de tarde que não se teve tempo de tomar. Em todo caso, é bom cuidar para que a bobajada intramuros não vire alienação irreversível.

Humor bom é humor crítico. Pense na Escolinha do Professor Raimundo e no Porta dos Fundos, por exemplo. Duas épocas e duas linguagens completamente diferentes, mas a crítica está ali, no subtexto. Uma é mais popular e alegórica, a outra é mais ácida e realista, mas ambas prestam homenagem à sua, à minha, à nossa inteligência.

O humor combate a hipocrisia. O humor é uma via de transcender a mediocridade. O humor estimula o raciocínio e a reflexão. O humor desestabiliza. O humor ridiculariza o status quo. O humor empodera movimentos ("Homem não gosta de calcinha bege. Poxa, manda ele usar uma cor-de-rosa então"). O humor nos insulta e nos obriga a rir de nós mesmos, nos reposicionando no mundo de uma forma menos solene e mais humana. É o antídoto mais eficaz contra a arrogância.

Inverter o estabelecido: transformar o notável em banal, o defeito em virtude, a derrota em vitória. O olhar renovado para velhas convicções desperta a nossa consciência e solta o nosso riso, seja através da paródia, da sátira, da imitação, da ironia, do exagero, do besteirol. Até mesmo aquilo que é engraçado sem querer (o uso de um chapéu totalmente sem noção, por exemplo, ou se desequilibrar e cair da cadeira) tem uma espontaneidade que quebra o protocolo.

Qual a quebra de protocolo que há no trocadilho? É um humor tão simplório que até constrange.

Pra quem deseja ir mais fundo no assunto, vale a pena ler o livro A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do português Ricardo Araújo Pereira. Ajuda a entender que o humor serve para acordar os neurônios, não para anestesiá-los, e que a ignorância só produz sorrisos amarelos.


“Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.”

Mateus 6:31-34

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017


Chegou dezembro.

E, mais uma vez, passou voando sem dar a chance de olhar para trás com um gosto ácido de saudade. Com ele, vem o congestionamento nas ruas e nas lojas, as filas que não param de crescer, as pessoas que aproveitam esse período para mostrar exatamente quem são. É na hora do cansaço de uma fila sem fim, do calor que embola o estômago e da falta de ar que não dá trégua que a gente percebe que nem todo mundo tem educação.

Chegou dezembro.
Um mês esperado por muitos e detestado por outros tantos. Uma época de comemorações, de uma mistura de solidariedade com exibicionismo, um período voltado para o consumismo e para as extravagâncias e orgias gastronômicas.

Chegou dezembro.
Este mês traz dentro do saco do Papai Noel um universo de pedidos, promessas, reflexões e anseios. É o momento das listas, do balanço, da verdade, da conversa séria, da decisão, da vontade de melhorar, da decepção em constatar que nem tudo saiu conforme o planejado naquele outro dezembro que já deu adeus há muito tempo.

Chegou dezembro.
Ele traz na mala aquela saudade de quem já partiu, das amizades desfeitas, dos amores que se foram, da família que mora longe, de quem mudou de estado, país ou cidade.


Dezembro traz a certeza de que a esperança ainda existe, sim. E sempre existirá. Esperança que renasce e se torna mais forte com a chegada de um novo ano. Esperança que traz a oportunidade de fazer coisas novas, de um jeito novo, com um novo olhar e uma nova forma de sentir e viver tudo que ainda há para viver.


somos todas divas


Até mesmo as mulheres mais estonteantes do planeta passam por momentos tensos em frente ao espelho. Nunca estamos 100%, ao menos não na nossa própria avaliação. Digo nossa a fim de englobar o gênero feminino, e não a classe específica das estonteantes, coisa que nunca fui. Bem que eu queria ser lindona, mas não me coube essa sorte e tudo certo.

A beleza pode ser substituída por charme, por sensualidade, por exotismo, por maturidade, por mil outros atributos. Jamais sonhei em ser clone da Barbie, uma perfeitinha sem expressão. Ando ocupada com questões mais relevantes, porém, claro, adoraria ser bonita, e não interessante, o eufemismo clássico para quem não chegou lá.

Calma. Está tudo bem. Ninguém cortando os pulsos por aqui.

A maioria das mulheres é bela. As brasileiras são exuberantes e atraentes em toda a sua diversidade. Negras, brancas, crespas, lisas, gordas, magras. Eu percebia isso já na sala de aula, criança ainda. Cada menina tinha sua graça. Eu me sentia o patinho feio entre todas elas e, como namorava menos, tinha solidão de sobra para me dedicar aos livros, que foram meus verdadeiros affairs da adolescência.

Ao menos era alta e tinha um corpo bacana, mas isso não era suficiente pra ser a primeira opção nas reuniões dançantes. Então os anos passaram e meu cabelo melhorou, minha cabeça melhorou, a vida melhorou, e por fim descobri que a atração entre um casal pode ser dar por outros caminhos, tanto que tive namorados, casei, descasei, segui namorando e me tornei o grande amor de mim mesma, a relação essencial que alavanca todas as outras. Mas, entre mim e meus botões, às vezes ainda lamentava: quem dera ser gata.

Até que surgiram as redes sociais e o autobullying chegou ao fim. Hoje, nem mesmo a irmã gêmea do Quasímodo tem do que reclamar. Somos todas divas.

A criatura acorda às sete da manhã com o rosto inchado pelas 26 long necks que entornou na noite anterior. Posta uma selfie de ressaca, coberta de olheiras, e adivinha os comentários: Lindíssima! Poderosa! Lacrou!

Se você tem um pouco de noção, deleta a foto da ressaca e posta a foto em que está com o cabelo estrategicamente cobrindo metade do rosto: Musa! Deusa! Arraso!

Você tem 96 anos, com aparência de 104, está deformada por uma dúzia de plásticas e posta um autorretrato mesmo assim, pois anda meio gagá e já não enxerga quase nada: Gatíssima! Avião! Perfeita!

Não é o paraíso? Se a gente não está num dia bom, é só escolher a melhor foto entre as duzentas que tirou no fim de semana, caprichar no enquadramento e postar com a legenda: “sem filtro”. E então começar a contar os “uau” pipocando um embaixo do outro. Não existe mais mulher feia nem com baixa autoestima - a não ser que ela não tenha seguidores.


“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a [medalha de ouro], que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.” 

(2 Timóteo 4:7-8, NVI)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017



“O tempo, se não sabes deverias saber, apenas se mede em suspiros. 
Há quanto tempo deste o teu último?”

Pedro Chagas Freitas

“Somos o que ficamos depois de sofrer.

Porque na dor encontramos uma honestidade que não há em nenhum outro sentimento.
Porque na dor encontramos uma urgência que não há em nenhum outro lugar.
Porque na dor encontramos uma autenticidade que não há em nenhum conselho.

Ninguém usará disfarces, adiamentos, mentiras quando sofre. 
É quando nos conhecemos, nos aceitamos e passamos a amar as pequenas gentilezas e descobertas.

Somente aquele que cuidou de um pai ou mãe doente entenderá o que é ser filho.
Somente aquele que se separou ainda amando entenderá o que é casamento.
Somente aquele que perdeu um parente numa tragédia entenderá o que é fé.
Somente aquele que foi mendigo em sua casa entenderá o que é generosidade.

Sofrer é entender a si mesmo para ouvir com mais atenção e empatia.

Por mais angustiada que seja a perda, 
por mais gritante que seja a separação,
por mais inimaginável que seja a injustiça, 
temos uma incrível e maravilhosa capacidade de sobrevivência, de se regenerar, de despertar das ruínas, de seguir em frente.”


E os fariseus, vendo isso, perguntavam aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com publicanos e pecadores? 
Jesus, porém, ouvindo isso, respondeu: “Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos. Ide, pois, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifícios. Porque eu não vim chamar justos, mas pecadores.” 

Mateus 9:11-13

quinta-feira, 23 de novembro de 2017


“Descobri que o mais alto grau de paz interior decorre da prática do amor e da compaixão. Quanto mais nos importamos com a felicidade de nossos semelhantes, maior o nosso próprio bem-estar.”

\ Dalai Lama /


Desde quando me lembro, família tinha para mim uma importância extraordinária. Meu pai a considerava muito. Era a árvore, com raiz e galharia, com sombra, com tempestade, ramos caindo, raios atingindo, mas estava ali, a velha árvore. Eu, menina intrometida, de orelhas em pé ouvindo conversas adultas, pois durante alguns anos fui a única criança na casa, absorvia aquelas tramas, dramas, comédias, e coisas ternas e alegres que passavam como fios de teia de aranha entre tantas pessoas.

Eu adorava os almoços: avôs, avós, tios, tias, primos, primas. Aquilo me dava uma extraordinária sensação de proteção e pertença. E tudo se refletia num grande espelho diante da mesa de jantar. Também me fascinavam - não foi por nada que décadas depois comecei a escrever sobre laços familiares, embora nada a ver com aquela minha família - as conversas e posturas, que em qualquer grupo podem passar da inocência à bizarrice. Sentada à mesa, tendo de me esticar para manejar os talheres, embora posta sobre almofadas, com as perninhas balançando no ar, mais do que comer ou beber meu suco, eu espiava as pessoas.

Tomava um distanciamento involuntário, que me divertia e assustava: as pessoas pareciam salsichas enormes, com tufos de cabelo em cima, buraquinhos com olhos dentro, que giravam, outro buraquinho que se abria e fechava para receber comida ou soltar palavras. Ali aprendi que palavras podem ser plumas ou punhais - e que significam muito mais do que aquilo que expressam. Que uma inflexão muda o sentido, de amoroso para crítico; e que as mãos complementam tudo, com arabescos bailarinos por cima dos pratos.

Talvez tenha nascido assim meu encanto pelas palavras, pelo que dizem nos sons ou letras, e mais ainda nos espaços brancos ou silêncios. Ou isso simplesmente veio comigo como a cor dos olhos e dos cabelos, um sinal qualquer. Para mim, foram sempre motivo de felicidade, palavras como balas de tantos sabores e cores, ou pedrinhas coloridas que eu revirava na boca como se fossem pitangas ou uvas.

Sou uma mulher das palavras, e família tem entre elas um lugar especial: mais do que dissidências, importam as semelhanças; mais do que contradições, reinam os encontros; mais do que as ausências, predominam os gestos, as vozes, ou os sinais num WhatsApp. Uma dor por mal-entendidos pode ser curada com a palavra certa; uma ilusão alegrinha pode virar ferida, mas a gente nunca tem certeza...

Esse berço, esse colo ou esse peso chamado família pode magoar, irritar e salvar se tivermos a sorte de nascer num grupo amoroso. Nas horas mais escuras, essa rede pode nos impedir de cairmos no alçapão embaixo do poço. Nada como lembrar brincadeiras infantis entre irmãos, carinho de pais abrindo a porta com braçadas de orquídeas, dessas pequenas meio silvestres que florescem presas aos troncos das árvores no jardim. Nada como jogar conversa fora com quem se recorda, e nada como semear recordações futuras para os que, tão jovens, ainda nem têm passado.

Não sei onde foi parar aquele grande espelho, com um raro tom rosa-antigo. Quem sabe ainda estamos lá, presos: imortalizados os momentos felizes, os risos, brindes, lágrimas - e todos nós, como éramos um dia.


“É melhor não fazer voto do que fazer e não cumprir.” 

Eclesiastes 5:5

quarta-feira, 22 de novembro de 2017


#dia do músico

o homem é o sexo frágil


Durante almoço em uma cantina em Erechim, cidade gaúcha quase divisa com Santa Catarina, fui surpreendido pela entrada triunfal de um grupo de terceira idade. Mais de 150 mulheres felizes, ruidosas, dançantes. Dediquei um torcicolo para elas - mereciam. Tenho torcicolo a cada quatro anos, raro como uma Copa do Mundo, e pressenti que era o momento. Deveria aproveitar e girar a cabeça com força total para não perder nenhum dos movimentos daquele exército.

Elas desfrutavam de uma alegria fora do comum: desembaraçadas e sinceras nas gargalhadas. Não havia nenhum homem para atrapalhar. E não havia nem mesmo esperando em casa. Noventa por cento da comitiva era viúva. As meninas na faixa dos 70 a 90 anos estavam livres na pista de dança.

No começo, faziam piada de que mataram os seus maridos no cansaço pouco a pouco. Os senhores foram incapazes de acompanhar a maratona amorosa.

- Tadinhos, exigíamos muito deles na subida e ficaram sem fôlego na descida.

Mas a comédia foi formando um estranho sentido. Elas provavam que a mulher é o sexo forte, e o homem é o sexo frágil. Derrubaram o preconceito com uma acachapante ilustração de vitalidade.

Os homens morrem cedo, é uma verdade absoluta. Os homens são fracos. Os homens não tem resistência. A força física é ilusória: não faz cócegas diante da força espiritual.

E veja só: homens de outras épocas, que não precisavam cuidar de casa, dos filhos, trabalhar ao mesmo tempo em que unificavam a família. Homens com a metade das obrigações femininas. Homens que não passaram por nenhuma gravidez em seu corpo, que não saíram à rua para garantir direito ao voto, igualdade em concursos públicos e salários equivalentes. Homens que não queimaram os sutiãs e não empreenderam revoluções culturais para o livre-arbítrio da mesa e da cama. Homens que não combaterem as leis e não asseguraram o divórcio. Homens que não experimentaram o desgosto da solidão e da incompreensão, homens que não enfrentaram o vexame de esconder as suas fantasias e economias da própria companhia. Homens que não passaram por nenhuma cobrança para se arrumar, para manter as unhas pintadas e a aparência impecável. Homens que não eram condenados a sorrir amarelo em público e chorar azul no quarto. Homens de aceitação social fácil e orgânica. Mesmo assim, com uma carga infinitamente menor de responsabilidade, sucumbiram antes.

Aquelas damas derrubaram todos os reis do xadrez. Aquelas damas comemoravam o casamento delas com elas mesmas. O casamento consigo. O casamento com a guerra. O casamento com a tenacidade. O casamento com a intimidade. Quem se conhece vive mais, vive o dobro, vive os sonhos para além da idade.


“Disse a anciã curandeira da alma:
Não doem as costas,
doem as cargas.
Não doem os olhos,
dói a injustiça.
Não dói a cabeça,
doem os pensamentos.
Não dói a garganta,
dói o que não se expressa ou se exprime com raiva.
Não dói o estômago,
dói o que a alma não digere.
Não dói o fígado,
dói a raiva contida.
Não dói o coração,
dói o amor.

E é precisamente ele, o amor mesmo, quem contém o mais poderoso remédio.

Hermana Águila - Ada Luz Márquez
Tradução livre

Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. 1 João 2:4

segunda-feira, 20 de novembro de 2017


“Acima de sermos negros, brancos, árabes, judeus, americanos, somos uma única espécie.
Quem almeja ver dias felizes, precisa aprender a amar a sua espécie (...) 
Se você amar profundamente a espécie humana, estará contribuindo para provocar a maior revolução social da história.”


#dia da consciência negra

domingo, 19 de novembro de 2017


“Se eu desistir de existir, não se assuste,
é só o inicio de um novo fim.
E assim, se não nascer o sol, não se preocupe,
eu estarei dentro de ti!

Não pense que é fácil para mim
mas eu tentei, por muito tempo eu tentei.
E agora, abro mão e te juro de coração,
eu fiz de tudo para que o tudo não acabasse assim.

Espero que seja melhor, espero estar correto,
nessa vida eu não posso viver. 
Estou cada vez mais perto de sorrir, 
quando eu fechar meus olhos vou sorrir e enfim ser feliz.

É o fim, eu sei!
Um dia ele chega para todos nós,
Mas não quero esperar que aconteça.
Antes que eu me esqueça, deixe eu te lembrar,
te confortar, 
eu sei que assim vai ser melhor.”

lembrando do Dayvison, meu sobrinho, 
que não queria mais viver nessa vida.


o menino e sua mãe

                                                                                          André Luft

No dia 2 de novembro, Finados, a morte - que tudo comanda - levou um de meus filhos. André, um gigante de corpo e alma, belíssimo por dentro e por fora, morreu na plenitude da vida, fazendo o que mais amava: surfando nas águas verdes de Florianópolis, onde, embora trabalhando na África, ele e sua mulher residiam. Ainda incapaz de escrever coisas coordenadas, reproduzo aqui, para meus leitores, o trecho da página 67 de meu novo livro, A Casa Inventada, que já está nas livrarias. O menino, então com uns sete anos, era o André.

Um menino e sua mãe voltavam das compras no ônibus quase vazio. Ele segurava no colo o presente cobiçado: um microscópio “de verdade”, dado pelo pai, mas a mãe fora com ele comprar. De vez em quando, ele passava a mão no pacote:

- Parece mentira, né, mãe? - olhar sonhador daqueles olhos grandes de um azul indescritível.
- Mãe, que igreja é essa?
- Nossa Senhora Auxiliadora.
- Por que tem tanta Nossa Senhora? Não era só uma?
- É uma, sim, filho, mas ela tem muitos nomes.
- E o Nosso Senhor é São Pedro, né? Marido dela.
- Não, é Jesus. Quem se casou com ela foi São José. São Pedro era amigo de Jesus - a mãe suspirou: não praticar muita religião dava nisso.
- Ah... E por que o José não é o Nosso Senhor, se era casado com Nossa Senhora? - os olhos azuis começavam a deixar a mãe inquieta.
- Acho que é porque Jesus e Nossa Senhora são mais importantes, filho.
- Mas o José não era pai dele?
- Não era de verdade, o pai dele era Deus, José era pai adotivo.
- Então Jesus não nasceu da sementinha do José?

O silêncio no ônibus já meio vazio parecia imenso. O menino falava em voz alta e clara, pra ele era tudo natural, assim ensinavam em casa.

- Não, filho, Deus fez brotar a sementinha direto em Nossa Senhora, foi um milagre.
- Ué, então não foi como nas pessoas? - agora o silêncio podia ser cortado com faca. A mãe se fez de distraída, mas o menino pensava, concentrado.

- Mãe, como é que antigamente as primeiras pessoas sabiam como se fazia pra ter bebê, se ninguém tinha ensinado a elas?
- Ora, filho, essas coisas a natureza ensina.
- Mas a natureza não é pessoa pra ensinar a gente.
- Quer dizer, quando a gente cresce, aprende por si.
- Mãe, olha, nessa placa estava escrito Rua Mozart! Eu acho que ele mora aqui!
- Ele quem?
- O Mozart, mãe. Quem ia ser?
- Não, filho, ele viveu na Europa.
- Ah é? Até achei que era nos Estados Unidos, onde moram pessoas importantes.

Finalmente desembarcaram. Parado na calçada, sol nos cabelos claros, o menino retomou seu ar sonhador ainda segurando o pacote.

- Mãe, como eu tenho um pai bom, né?

E acrescentou depressa:

- Mãe também, claro...


O rico domina sobre o pobre; quem toma emprestado é escravo de quem empresta.

Provérbios 22:7

sábado, 18 de novembro de 2017

lá e aqui


A Operação Lava-Jato e a campanha das mãos limpas na Itália se parecem em poucos pontos, mas são pontos fundamentais. As duas começaram com cavaleiros destemidos dispostos a combater a corrupção em seu país - o procurador Di Prieto lá, o juiz Moro aqui. Nos dois casos, algumas leis foram, digamos, dribladas para tocar os processos. Moro levou ligeira vantagem sobre Di Prieto no quesito fins que justificam meios.

O terremoto provocado pelas revelações das mãos limpas, que derrubou partidos, carreiras políticas e reputações na Itália, não teve contrapartida exata na Lava-Jato. Aqui os partidos ficaram de pé - só em crise de identidade, sem saber bem o que são e com quem podem se juntar - e carreiras políticas não apenas sobreviveram ao bombardeio da Lava-Jato como estão conseguindo enfraquecê-la. Não demora e a faxina moral duradoura que a Lava-Jato prometia ao país não passará de nostalgia. Lembra do Moro? E pensar que um juiz de província quase liquidou a República...

Na Itália, houve suicídios de envolvidos em escândalos denunciados pelas mãos limpas. Aqui o único suicídio provocado pela Lava-Jato foi o de um inocente injustamente acusado.

O que as mãos limpas e a Lava-Jato têm indiscutivelmente em comum é que, na busca por uma moral absoluta, desnudaram mais do que esquemas de corrupção e de bandidagem corporativa, fizeram - sem querer - retratos de corpo inteiro do capitalismo de compadres em vigor nos seus países. Itália e Brasil têm a mesma história de sociedades dominadas por sistemas excludentes de poder que se fecham contra qualquer ameaça de mudança. Não cabe dizer que na Itália é pior porque lá tem o complicador da Máfia. Nós também temos máfias, que só não ousam dizer seu nome.

Na confusão política e econômica deixada pelas mãos limpas na Itália, brotou, como um cogumelo venenoso, o Berlusconi. O Moro é o nosso Di Prieto, a frustração com as mãos limpas é a frustração com a nossa Lava-Jato derrotada, o capitalismo viciado da Itália é o nosso capitalismo mafioso... Resta a grande questão: quem será o nosso Berlusconi?



Daqui a pouco o ano termina. Com a ida dele, chega a expectativa. O desejo de fazer diferente, a vontade de modificar o que não está legal, a ânsia de crescer e abraçar todos os planos do mundo. Finais de ano servem de balanço, de balança. A gente vai e vem, o pensamento viaja, o coração faz retrospectiva, a memória guarda o que foi bom e tenta passar a perna na parte amarga. A gente pesa os lados positivos e negativos, sorrimos ao perceber que fizemos a coisa certa, choramos ao lamentar o que saiu do eixo.

Não tem jeito: todo fim de ano é a mesma coisa. Uns riem, outros choram, alguns riem e choram. O que importa no fim das contas é acumular experiências dentro da bagagem e ter a disposição e a força para seguir em frente. E viver uma vida mais leve, feliz e cheia de esperança.


“Vou fazer 90 anos, nunca fiz cirurgia plástica. 
Tinha uma colega que dizia que minha autoestima era grande, porque eu sempre confiei na minha cara do jeito que estava. 
Não tenho problema algum com minhas rugas. Meu rosto reflete a minha vida, a minha alma, o que amei, o que sofri... 
Eu me gosto assim.”

__Laura Cardoso, atriz