"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



domingo, 15 de outubro de 2017


“Se não morre aquele que escreve um livro ou planta uma árvore, com mais razão, não morre o educador, que semeia vida e escreve na alma.”

|Jean Piaget
#dia do professor
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Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores!
Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite.

Salmos 1:1,2
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quinta-feira, 12 de outubro de 2017


Coisas que eu descobri depois:
O playground dos adultos é muito desinteressante;
Quando crescer não passa, na maioria das vezes, piora;
Tomar conta da própria vida também significa cuidar das feridas sozinho;
Se eu não fizer almoço corro o risco de ficar com fome;
O meu quarto não é do tamanho do mundo;
O chazinho sem o colo não tem gosto de nada;
Tenho mais obrigações do que tempo livre;
A chuva que causava algazarras, hoje provoca resfriado;
Que besta eu fui por não ouvir minha mãe;
Saudades dos tempos em que o maior drama era não ter feito a lição de casa.

#feliz dia da criança que mora aí dentro de você!
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a máxima tragédia


Era uma senhora casada. Uma senhora casada e muito sábia que tinha uma filha de uns três anos. Pois essa mulher muito sábia não deixava a filha brincar com terra, não deixava a filha entrar no mar, não deixava a filha andar de pés descalços. A senhora era uma sumidade em seu ofício, respeitada por toda a sociedade, então era possível que tivesse razão quando impunha esses impedimentos dizendo que era para o bem da filhinha, para que a menina não pegasse doença, não corresse riscos. Eu escutava essa história e pensava: ok, é uma senhora sábia e a filha dela nunca vai ficar doente – mas eu não queria ser se essa filha vetada pra vida.

Era, eu também, uma menina, portanto meu pensamento não vinha acompanhado dessa eloquência toda, mas era assim que eu sentia. Sem pé na terra, pé na grama, pé na areia, que infância era aquela, que graça haveria em ser um bibelô cujo vestido jamais ficaria imundo, cuja trança jamais se desmancharia? Acreditavam todos que a intenção da senhora era amorosa e protetora (e era), mas eu achava que faltava mais um adjetivo, sem saber direito qual – ainda não conhecia a palavra paranoica.

Não sei que consequências teve isso na vida das duas protagonistas. Hoje aquela filhinha de três anos deve ter saudáveis 45, por aí, e a senhora sábia deve ter mais de 70. Todos sobreviveram, inclusive essa história que nunca me saiu da cabeça, e que de vez em quando retorna, como agora.

Associei essa lembrança do passado a uma frase dita pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner em entrevista recente. Disse ele: “Porto Alegre fez o muro da Mauá tentando evitar a máxima tragédia, o dia em que houvesse a maior enchente da história. Por causa desse muro, você não vê o Guaíba. A gente não pode querer evitar a máxima tragédia. O mais importante é a tragédia do dia a dia”.

Não brinque com terra, não brinque com fogo, não mergulhe, não arrisque, não salte, não se apaixone. Evite as máximas tragédias, recomenda o grilo falante acomodado em um dos nossos ombros, com cara de quem teve poucas alegrias na vida. É um cauteloso profissional, daqueles que constroem muros contra imprevistos que se prenunciam desestabilizadores. Mas temos dois ombros, não apenas um. À medida que o tempo passa, tenho escutado mais o que o outro grilo assopra no lado oposto do meu pescoço. É um danado, tem algumas cicatrizes no rosto, mas vive sorrindo e o brilho do seu olho é uma provocação. Diz ele: trágico, guria, trágico mesmo, é o medo.

A menina que fui já intuía que perigoso era ficar de sapatos o tempo todo. É preciso correr o risco de umas perebas, de uns arranhões, de algumas inflamações. A máxima tragédia pode vir nunca. Com as mínimas a gente se vira.
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#dia da leitura
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por que a gente devia ler


Já me perguntaram muita coisa, interessante, boba ou doida, nas entrevistas pelo país afora e até fora dele. Outro dia, porém, um professor da plateia me deliciou perguntando: “Dona Lya, que motivo devo dar a meus alunos para estudarem?”. Não precisei pensar: “Ué, para não ficarem burros”. Risada geral, até eu achei graça, porque era tão verdadeiro embora meio irreverente.

Prefiro certa irreverência ao politicamente correto, que acho detestável, hipócrita, moralista e... burro também. Ontem, ao telefone, numa entrevista, me perguntaram por que alguém deveria ler Virginia Woolf, de quem, aliás, traduzi há muito tempo uma bela biografia e uns quatro romances. Depois a jornalista emendou: “Melhor primeiro dizer por que as pessoas deviam ler”.

Contei minha resposta ao professor meses atrás. Mas expandi um pouco: acho que não se trata de dever ler, mas de exercer o direito de ler. Isso, num país de milhões e milhões de analfabetos, é um direito do qual nem nos damos conta, e pouco nos avisam. Atenção: alfabetizado não é só o que assina o nome, mas que assina embaixo de um texto que entendeu!!! O resto é empulhação. Assim, o número de analfabetos entre nós é prodigioso.

De saber ler a ler Virginia Woolf é quase um abismo, para poucos eleitos, ou que se alçaram até lá. Vamos começar com ler, simplesmente ler. Ir à escola, onde houver escola; onde houver acesso razoável à escola, sem perder várias horas ao dia no trajeto. Onde houver, melhor do que computadores onde não existe internet ou ninguém os sabe manejar, boas cadeiras e mesas, paredes sólidas, quadro-negro e o material mais elementar para se dizer “escola”.

O que há nos livros que os torna tão importantes? Experiências impossíveis no cotidiano, viagens, aulas de psicologia, de história, sensibilidade e emoção, aventura, diversão e crescimento pessoal. Fazer parte de um mundo bem maior do que o nosso cotidiano. Não importa se for uma leitura num tablet ou computador. (Eu confesso que não desisto do velho hábito do livro de papel.) A literatura não vai acabar, ainda que mude sua forma de se transmitir.

Nem precisamos ler literatura, muito menos clássica (a não ser na escola se ela for boa). Para quem não aprendeu a gostar, ou não tem esse dom mas tem muitos outros, ler Machado, Alencar, pode ser um tormento. Descubra o que lhe agrada ler: pode ser jornal, crônica, esporte, história, ciências, assuntos da Nasa, policiais (curto muito um bom policial), textos cômicos, o que importa é não ser analfabeto, não continuar ignorante, mas abrir-se ao prazer, ao luxo, de ler. E quem sabe um dia chegaremos a ler Virginia, seus textos elaborados, sutis, sofisticados, desafiadores. Vamos lá.

#dia da leitura

programada

Os olhos do Senhor estão em toda parte, observando atentamente os maus e os bons.

Provérbios 15:3
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sábado, 7 de outubro de 2017


O Aécio ser preso significa que o Lula é santo? Não. 
O Temer cair significa que a Dilma fez um bom governo? Não. 
Os milhares de pobres que tiveram suas vidas melhoradas durante o governo Lula representam um argumento forte o suficiente pra gente tapar os ouvidos pra todos os esquemas de corrupção no (e durante o governo do) PT? Não. 
Isso só aconteceu no (e durante o governo do) PT? Aff, não. 
Mas isso é desculpa pra gente não ficar #chateado com essa putaria deslavada? Não.
Eu tenho vergonha de já ter votado no PT? Não. 
Eu sairia hoje na rua pra defender o PT? Não. 
Ter bode de camisa polo ou diploma de letras na USP justifica dizer que nem um único liberal presta? Não. 
Muitos prestam? Não. 
Bolsonaro vai pro céu? Claro que não. 
Dá pra gente dizer que odeia o FHC mesmo ele apoiando o Huck? Não. 
Tem como não amar Pepe Mujica? Não. 
O Joesley é safadão? Não vem ao caso.

Se o país cair nas mãos de algum evangélico, showman ou publicitário vale a pena continuar colocando #gratidão nas redes sociais? Não. 
Fugir pra Miami vai continuar sendo opção de gente idiota? Não. 
Já fez algum sentido escrever gratidão ou colocar a florzinha da gratidão nas redes sociais? Não. 
Pessoas fofas e positivas e leves e muito felizes são legais de conversar? Não. 
Essas pessoas, por pior que sejam nossos candidatos, votam melhor que a gente? Definitivamente não. 
“Vote consciente” é uma frase que ainda faz sentido? Não.

Se todos caírem e só sobrar o Tiririca, melhor devolver o país pra Portugal? Não, essa piada meu avô fazia, já deu. Pensemos uma nova. 
Nenhum colunista de esquerda fala merda e todo colunista de direita fala merda? Mil vezes não. 
Enquanto inimigos íntimos de esquerda e de direita se bloqueiam e se desbloqueiam num sexo sujo virtual de entra e sai raivoso e estéril, a primeira dama da Friboi faz meia ruga na testa? Não.

Quando dá um nó na sua cabeça e você não entende mais nada ou tem profunda preguiça de se aprofundar no milésimo desdobramento canalha de algum político ou marqueteiro ou dono de empreiteira, isso significa que você é burro ou alienado? Não. 
Eu já achei o João Santana um gênio e quis ser amiga dele e trabalhar com ele? Não (mentira, já). 
A Mônica Moura estava histericamente empolgada na delação premiada porque faz uso de remédios ou porque todo baiano é acima de tudo feliz? Não saberemos.

Existe hoje algum político que nos emocione, nos faça acreditar, militar e, ao mesmo tempo, pareça ter força pra governar esse país? Não. 
Apesar de tudo, vai dar tudo certo? Não. 
As pessoas que não aceitam isso e colocam a mão no fogo por determinado candidato ou partido fazem isso porque são geniais, estudaram mais do que você e conseguem ver uma verdade que civis limitados não conseguem? Não. 
Se eu fosse solteira daria uma chance para aquele policial de coque? Não responderei.

Ver o Cabral, o Eike e o Cunha presos significa que o Moro é um herói que chegou pra tirar nossos ideais da solidão? Não. 
A gente pode dizer que o Moro é um vendido escroto amigo risonho do Aécio que não fez nenhum bem pro país? Não. 
O Lula ter usado a mulher morta em sua defesa foi bonito de ver? Não. 
Você ter quase acreditado no Lula porque ele fala bonito quer dizer que você é uma besta quadrada? Não. 
O Cunha ter recebido tantas mesadas e o seu filho ter ficado sem nenhuma mesada é motivo para estraçalhar bens públicos? Não. 

Somos pessoas carentes, infantilizadas, necessitadas de juntar amigos em grandes avenidas e torcer por algum líder, algum deus, algum salvador e por isso nos agarramos a crenças vazias, diariamente frustradas e acabamos sendo pequenas massinhas apáticas de manobras multicoloridas?

amor triste


Amor triste não é aquele em que nos arrependemos dos vacilos e das falhas, da falta de palavras e da incoerência.

Não sofremos tanto quando a separação é justa e fizemos por merecer. Aceitamos o fim por mais penoso que seja, porque vislumbramos um motivo para não estarmos juntos. Tem uma explicação pontual, um desvio de percurso, uma quebra de lealdade que feriu e destruiu a confiança mútua. É de se entender a ruptura pelo contexto de uma mágoa.

Amor triste não é aquele em que nos arrependemos das brigas e das discussões, das ofensas e das maldades, pois é natural se destruir quando se gosta muito. 

Amor triste, ironicamente, é quando nos constrangemos da própria alegria, nos arrependemos dos momentos felizes, das viagens e passeios, dos presentes e dedicações. Nem a euforia que existiu fica de pé. Nem as fotografias mais bonitas sobrevivem.

É quando saímos da relação com o nítido pressentimento de que estávamos sozinhos desde o início.

É aquele amor esvaziado, que não nos serve de experiência, que não nos aperfeiçoará para futuros laços, não nos acrescentou em nada para aprendermos a lidar melhor com a dor.

É aquele amor melancólico, onde chegamos à conclusão da total perda de tempo, a ponto de lamentar o sacrifício da nossa juventude e de anos valiosos da vida.

É aquele amor ladrão que nos leva inclusive os finais de semana e as férias, a paz de ter tentado, o alívio de cenas emocionantes.

É aquele amor desmemoriado, no qual erramos a companhia muito mais do que errar qualquer passo durante a convivência. Até o contentamento soa falso, até a festa era para dentro.

Amor triste é o que não deixa saudade nem do que foi bom.



“Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem” 

(Salmo 23:4)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017



Durante alguns anos, convivi com uma senhora que trabalhou a vida inteira numa casa de família. Praticamente criou os filhos dessa família, que depois cresceram e seguiram amparando-a. Era uma mulher de alma boa, mas com uma vida desértica. Não sabia ler nem escrever. Não sabia identificar os números. Falava um português sofrível. Nasceu e viveu no interior do Rio Grande do Sul. Conheceu Porto Alegre, mas na Capital não conseguia pegar um ônibus ou fazer compras sozinha. Não teve filhos. Não se tem notícia de algum namorado, é bem possível que nunca tenha amado um homem. Colecionava bonecas mesmo depois de adulta. Era de uma ingenuidade assombrosa. Assistia televisão, mas entendia muito pouco do que via. Era uma mulher inocente que desconhecia a maldade, o sarcasmo, as segundas intenções. Cozinhava bem, seu grande dom. Fora isso, ter seis ou 60 anos não fazia a menor diferença, a não ser no aspecto físico. Nunca deixou de ser uma criança.

Soube que ela faleceu esta semana. Eu não a via há muitos anos e, quando soube da notícia, senti a melancolia natural de quem passa a recordar de alguém que já não habita esse mundo. Que eu saiba, não aconteceu nada de genial na vida dela, nada de minimamente empolgante, e isto me soou como um desperdício. Que graça tem viver a repetição sistemática dos dias, qual o sentido de existir sem arte, sem conhecimento, sem paixão, sem questionamentos? Me perguntei se ela teria sido feliz.

Imediatamente caí em mim: se bem a conhecia, ela nem sonhava com a possibilidade de haver outra opção que não a de ser feliz. Dava a impressão de que não reconhecia a existência de alternativas: ou isso ou aquilo. Só conhecia “isso”: a vida dela, do jeito que era, sem desejos ou frustrações. Agradar às pessoas ao redor parecia ser a única coisa que queria fazer. Talvez tenha sido carrancuda algumas vezes, ou egoísta, ou desaforada: certamente foi, não era uma planta, e sim um ser humano. Mas nenhuma dessas reações vinha acompanhada de alguma consciência filosófica, de algum embasamento teórico. Ela não conectava suas emoções aos porquês. Impossível uma criatura dessas não ser feliz – ou perceber que é infeliz. Simplesmente, ela não racionalizava sobre seu estado de espírito. Não tinha recursos intelectuais para tal. Assim como ela, quantas outras vivem dessa maneira? Um mundaréu de gente, todos ignorantes de si próprios, mas nem por isso insatisfeitos.

Certa vez escrevi uma crônica chamada Minha Felicidade Não É a Sua, inspirada em um livro de Carlos Moraes. Lembrei dessa crônica ao pensar nessa senhora. O que sabemos nós sobre aquele que parece radiante ou sobre aquele outro que parece à beira do suicídio? Eles podem parecer o que for e seguiremos sem saber de nada, sem saber de onde eles extraem prazer e dor. É um atrevimento nos outorgar o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem não.

Essa senhora que nunca leu, nunca viajou, nunca amou, nunca fez sexo, ou seja, que nunca experimentou os requintes e dissabores da vida adulta, parece ter desperdiçado sua vida. Mas estar no mundo apenas por estar, vá saber, pode ser uma forma sofisticadíssima de paz.


“Nenhuma arma forjada contra você prevalecerá, e você refutará toda língua que a acusar. Esta é a herança dos servos do Senhor, e esta é a defesa que faço do nome deles”, declara o Senhor.

Isaías 54:17

terça-feira, 3 de outubro de 2017

deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz


No mês de setembro, ocorre a maioria dos aniversários de minha família: eu mesma, netas, filho, irmão, além dos que já se foram, como mãe e avó materna, sem contar os amigos. Suponho que tenhamos sido inventados nos cálidos meses de verão. Tenho, em relação ao correr do tempo, não amargura ou medo real, mas curiosidade – desde quando, menina mimada, bati o pé porque queria alguma coisa “agora”. Algum adulto presente achou graça e resolveu liquidar a minha manha:
“Deixa de ser boba, o agora nem existe”.

Iniciou-se um diálogo surreal: a menina curiosa e teimosa insistia em saber que história era aquela. Explicaram que o tempo passa constantemente, de modo que, quando pronunciamos a última letra da palavra “agora”, esse agora já é passado. Obstinada, várias vezes tentei pensar a palavra “agora” empilhando as letras numa coisa só – mas desisti.

Então, a cada momento, tudo passava, mudava e já era outro? Eu já era outra? Comecei a me angustiar, eu me angustiava com coisas que pouco tinham a ver com crianças, que, segundo adultos de então, deviam brincar, comer, dormir e se portar bem. Ainda por cima, alguém com humor macabro me alertou: “O tempo só para de passar quando a gente morre”.(Assunto para outra crônica.)

Sempre tive vontade de ser adulta: achava a vida e os assuntos dos “grandes” muito mais interessantes do que os infantis. Detestava ser comandada, numa época de educação bastante severa: por que ir para a cama às sete e meia? Por que só comer comidinha inocente, como purê de batata e carne de frango?

Por que não falar muito à mesa? Por que ter de aprender prendas domésticas como toda boa menina? Eu não queria ser uma boa menina: queria ser a Emília do Monteiro Lobato.

Aí fui vendo que a passagem do tempo não apenas significava transformação e novidades (parte boa para quem facilmente se entediava), mas também perdas, e para muitos o terror da perda da juventude. Tornou-se uma epidemia a busca desesperada por deter a qualquer custo os sinais do tempo: parecer trinta aos sessenta, ter lábios sensuais aos setenta – vale a pena?

A velhice (desde que não com o detestável nome de melhor idade) é uma fase natural da vida – um dom a ser curtido. Dor e doença não escolhem idade. Nem sempre a juventude é linda. No avançar do tempo, importa preservar certa elegância (quando dá…) e cultivar o bom humor (quando possível…). Tônia Carrero, ao fazer oitenta, respondeu a uma jovem jornalista que lhe perguntava como encarava a velhice: “Velhice? Eu acho ótimo! Porque a alternativa é morrer jovem”. E minha amada comadre Mafalda Verissimo, que sempre me faz falta, contou, fingindo-se indignada, que alguém ao telefone, sabendo que era ela, exclamou: “Dona Mafalda! A senhora, ainda tão lúcida!”.

Que se arrume o que nos incomoda, mas dentro de alguma normalidade. Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz, que a gente vai tentar não ficar ainda por cima rabugenta. E quem sabe o rio do tempo desemboca em algum mistério mais interessante do que nossas trapalhadas de agora?

No dia 01/10, comemora-se o “Dia do idoso!”


perdas inevitáveis


A vida se faz de planos e de acasos, de vitórias e de conquistas, mas, essencialmente, ela é feita de perdas. 
Cada segundo que passa são preciosos momentos que se vão sem qualquer possibilidade de retorno. É como se a vida nos escorresse lentamente por entre os dedos. 
Cada dia que vivemos, são dias que perdemos de nossas vidas. São dias que não viveremos mais. São dias a menos que teremos para mostrarmos ao que viemos nessa vida. 
Não há, portanto, qualquer motivo para lamentarmos as perdas que acontecem ao longo de nossa vida. Elas são inevitáveis e são partes integrantes da vida de qualquer pessoa. 

Perdemos muito tempo lamentando, por exemplo, a perda de um ente querido, de uma pessoa amada que por motivos aleatórios já não está ao nosso lado. Lamentamos até mesmo a perda de bens materiais, como se a falta de tais bens nos custasse a própria vida. 
Quando lamentamos a perda de alguém de quem gostamos, o que estamos fazendo é, justamente, reconhecendo que as coisas aconteceram exatamente da forma como deveria ter sido. Se lamentamos, é porque essa pessoa marcou de alguma forma a nossa vida. As pessoas se vão, mas fica a certeza de que o sentimento foi vivido, mesmo que às vezes não tenha sido demonstrado ou mesmo percebido no tempo certo, mas o que importa é que ele existiu e modificou positivamente a nossa vida. As perdas são tão inevitáveis quanto necessárias em nossas vidas, pois com elas aprendemos a valorizar os sentimentos verdadeiramente importantes da vida… 

Com as perdas é que aprendemos como devemos conduzir nossas ações.
Que nossos amores devem ser vividos à exaustão.

Aprendemos que precisamos viver cada minuto da melhor maneira possível, procurando fazer fluir o amor e a benevolência. 
Devemos fazer com que nossas ações se eternizem de tal forma que sejamos lembrados de maneira afetuosa quando já não estivermos por aqui. 

Talvez esta seja a maneira mais efetiva de atingirmos o milagre da vida eterna que tanto almejamos, eternizando o amor produzido por nossas ações.

__Carlos Rocha

O câncer de mama pode apresentar sintomas como nódulo duro, geralmente indolor e irregular. Outra característica é a pele, que quando existe o câncer, pode ficar com o aspecto de casca de laranja. Além disso, alguns pequenos caroços podem surgir em baixo do braço. Mas, vale lembrar que para diagnosticar definitivamente o câncer é preciso um exame clínico mais aprofundado, pois, nem todo caroço pode ser realmente um câncer. É necessário examinar sempre!

Importante ainda é realizar periodicamente a mamografia e uma ultrassom das mamas, que detecta de uma forma mais eficaz qualquer tipo de alteração nos seios, até mesmo de lesões pequenas. Recomenda-se que este tipo de exame seja realizado em mulheres com mais de 35 anos de idade.

Um dos fatores de risco do câncer de mama é a genética familiar. Outra pré-disposição está relacionada a cânceres anteriores como um próprio de mama ou câncer de ovário em qualquer idade.

#outubro rosa

O Senhor firma os passos de um homem, quando a conduta deste o agrada; ainda que tropece, não cairá, pois o Senhor o toma pela mão.

- Salmos 37:23-24

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

feliz cidade


                                             
   “Campo Belo, cidade montesa
                                             ... és rainha da terra mineira!”
#138 anos

 “Diz a mãe :
a vida faz -se como uma corda.
É preciso trançá-la até não
distinguirmos os fios dos dedos.”

| Mia Couto


 Os olhos do Senhor estão em toda parte, observando atentamente os maus e os bons.

Provérbios 15:3

sexta-feira, 22 de setembro de 2017



Que a primavera venha leve, suave e calorosa, enchendo de cor o dia-dia e iluminando os corações gelados.


“Fui me confessar ao mar.
E o que ele me disse?
Nada.”


“Pois tu formaste o meu interior tu me teceste no seio de minha mãe.” 

Salmos 139:13

quinta-feira, 21 de setembro de 2017


#dia da árvore

“Uma coisa é plantar uma árvore,
outra é fazê-la sobreviver.”
(Wangari Muta Maathai)


A vida é curta demais para se beber maus vinhos.”

Duijker, Hubrecht

sem os dentes da frente


Perder um amor é o equivalente a arrancar dentes.

Suspenderá a mastigação da vida. E a dor é igual: de osso, impactante, torturante.

Óbvio que nem todos fins doem. Há os amores dentes de leite da infância, que abrem espaço para dentes melhores. Pertencem à esfera onírica dos primeiros arrebatamentos, idealizados, feitos da recompensa da amizade e das bitocas inocentes e puras.

O equilíbrio começa a ruir pelos amores sisos, os quatro dentes que despontam no auge da adolescência e acavalam o rosto. Representam as paixões proibidas e que enfrentam clara resistência social e familiar.

Todos passam pela natureza clandestina e selvagem desses encontros-conflitos. São dentes escondidos na carne e que desorganizam o desenho da gengiva. São os amores cafajestes, loucos, passionais, que atravancam a carreira, a rotina, a paz, a dentição dos fatos, que competem com os amigos e prazeres. São os amores imprestáveis, provenientes de casos, rolos e aventuras.

Os amores sisos não resistem, não se encaixam em papéis fixos, não perduram nas palavras. Raramente viram relacionamentos estáveis e longevos. Têm uma duração curta e intempestiva. Acabam habitualmente extraídos da forma mais dolorosa possível, sem anestesia.


Por isso não tema, pois estou com você;
não tenha medo, pois sou o seu Deus.
Eu o fortalecerei e o ajudarei;
eu o segurarei
com a minha mão direita vitoriosa.

(Isaías 41:10)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017



Uma vez, na minha infância, a família se reuniu para uma fotografia. O fotógrafo gritou para que todos sorrissem. Naquele dia, eu havia perdido a minha boneca preferida, meu pai me colocara de castigo porque eu tinha brigado com meu irmão e a vovó ainda estava internada por causa da asma. Eu não sorri.

Esta fotografia está em um porta-retratos, na sala de jantar da casa dos meus pais. Gosto do olhar corajoso da menina que não obedeceu ao comando do fotógrafo. Relembro como foram tantas as vezes, na minha vida, em que fui forçada a sorrir sem estar com vontade. Penso na hipocrisia que me rodeia e aquela foto envelhecida renova a minha esperança.

É que vez ou outra volto a sentir meu peito inflamado, como naquele dia da minha infância. Nem sempre tenho certeza sobre o que me dói. Uma cicatriz antiga ou uma saudade recente? Ou é o espelho que, vira e mexe, me lembra do quanto sou insignificante perante as dores do mundo?

Enquanto sentidos me queimam por dentro, sei que nações estão destruindo umas às outras e a si mesmas; que bombas atômicas esperam pela terceira guerra mundial; que ditaduras se mascaram de democracia; que extremistas matam por causa da religião; que a imigração desordenada é indesejada e que uma população nervosa e desacreditada está em ebulição.

Sinto raiva pelas filas enormes nos atendimentos médicos dos postos de saúde e pelo excesso de escândalos e corrupção na política. Enquanto escrevo este texto, alguma mulher está sendo estuprada.

Sob meu edredom quentinho, assisto a reportagens de pessoas que morrem de fome, de frio e de medo, e não sei se fico tonta de vergonha (culpa?) ou por causa do vinho.

Outro dia, ao tentar deixar a internet de lado, tive uma revelação: estamos cada vez mais livres do conservadorismo (podemos ser o que e quem quisermos), mas cada vez mais presos à tecnologia moderna (não conseguimos nos desligar de aplicativos e celulares). Estamos sendo substituídos por máquinas e robôs que roubam nossos empregos e nossa humanidade. E a nossa liberdade de expressão está sendo oprimida por um tal novo mundo admirável e politicamente correto.

Perco a vontade de sorrir quando penso nisso tudo, e volto à fotografia da minha infância: não quero uma felicidade dissimulada. Também não quero camuflar a minha angústia, nem quero ser igual àqueles que aceitam o sem sentido da vida. Quero ser selvagem sem ser ingênua: “quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade” (Aldous Huxley, em “Admirável Mundo Novo”), pois quero viver a desgraça sem a obrigação de disfarçá-la com um sorriso cordial no rosto.

É que os dias passam, mas as mágoas permanecem dobradas como lenços envelhecidos no bolso da calça. O tempo passa, mas não vai embora, nem fica: ele nos revisita com suas cicatrizes (e fotografias), culpas e saudades.

Talvez não haja tempo suficiente para resolver o que não tem explicação. Resta a nós descobrir a nossa própria verdade: viver sob o controle de consumismo, egoísmo e alienação (espalhando sorrisos editados, mesmo quando nada está indo bem) ou viver sob a vulnerabilidade humana — como selvagens de nós mesmos — com infortúnios e alegrias, mas aprendendo a deixar doer.

__Rebeca Bedone

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.”

Hebreus 11:1