"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quarta-feira, 26 de abril de 2017


ô, de casa


Era certo como Natal e Ano-Novo. A família se reunia na véspera das aulas para encapar os cadernos.

Sentávamos todos os irmãos e a mãe ao redor da mesa para colocar uma capa transparente ou uma estampa que sobrava dos presentes.

Um dos únicos dias do ano em que dormíamos tarde, atravessando de longe a meia-noite.

Lembro da função: recortar papel bonito, dobrá-lo nas orelhas e paramentar uma por uma das obras para o começo do ano letivo.

Estudar significava um prêmio. Não podia chegar de qualquer jeito na escola. Assim como revisávamos o uniforme (podia ser pobre, mas sempre limpo, podia ser gasto, mas sempre lavado), não permitíamos que nenhum livro viesse sem uma sobrecapa. Tinha que durar. Tinha que sobreviver aos sanduíches do recreio e às gotas perdidas do Nescau da térmica. Tinha que aguentar as viradas de página e o manuseio infinito.

A mãe transformava a tarefa em festa. Ela nos ensinava a embrulhar devagar, a preencher o nome e a série que iniciaríamos em todos os itens, colava durex com o nosso nome nos objetos do estojo de madeira, incitava o orgulho da letra e do capricho.

Ela descia à nossa idade para mediar a ansiedade, perguntava se manteríamos a mesma turma ou viriam colegas novos, questionava qual tinha sido o professor preferido, de quem sentíamos mais saudade, se escondíamos um amor secreto nas amizades. Quando não respondíamos nada, nos atacava com cócegas debaixo dos braços: “Fala, fala, fala!”.

Ninguém recebia um caderno diferente de outro irmão. Tudo igual, para não gerar ciúme e competição. A maior parte não contava com fotografia e desenho famoso, não descendia de grife e marca. Cadernos simples, pautados, sem espiral, pequenos, incluindo o temido de caligrafia. As folhas costumavam ser duplas, não havia como arrancar nenhuma página sem fazer estrago na costura.

Apontávamos os lápis, como quem repassa um exército enfileirado. Dois para cada filho. Eu queria ser famoso como Faber-Castell. Partilhávamos as mesmas iniciais. Jurava que Faber-Castell era filho do Johann Faber.

Não usávamos caneta. Caneta pertencia ao mundo do escritório, coisa de adulto. Nossa condição estava restrita a escrever rascunhos até crescer e virar gente grande.

Amava aquele tempo de expectativa, de preparação para momentos importantes da vida. Não vivíamos apenas, mas nos preparávamos para viver.

Existia uma paciência que não existe hoje, de esperar a televisão aquecer até vir a imagem, de furar a lata de azeite com um preguinho, de aguardar a foto revelar, de escrever cartas, de descontar um cheque, de lustrar os móveis com o óleo de peroba, de catar cidades no mapa, de ir até o orelhão para falar com parente no Interior, de mandar telegrama em caso de doença ou morte, de suportar o leite fervendo e a massa do bolo descansar, de degelar a geladeira, de pensar como seríamos felizes se passássemos naquele ano por média.


O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono:
Louvado seja Deus!


“Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos! Do trabalho de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.” 

Salmos 128:1-2

terça-feira, 25 de abril de 2017


turbilhão


Fico escutando as quantias (dois milhões, quatro, nove) e a cifra vai aumentando até que de milhões a bilhões muda apenas a consoante no início da palavra, pois parece que já não se trata de dinheiro – entramos num território mais subjetivo e intangível.

Que grana toda é essa que saía de uma conta corrente para entrar em outra, numa transferência que parecia uma simples jogada do Banco Imobiliário? O brinquedo da Estrela existe até hoje e é assim descrito nos sites de venda: “Você agora poderá ser um próspero proprietário de imóveis. Ter crédito em banco, títulos, terrenos, casas e hotéis nos melhores pontos da cidade. Onde o céu é o limite! Cabe a você investir tudo que possui para tornar-se um milionário e monopolizar o mercado imobiliário. Para isso, você terá que provar que tem faro para os negócios”.

Dinheiro de papel. A gente se divertia com isso. Era fácil se sentir rico. Ter o céu como limite. Em que momento a pessoa se apega tanto a uma fantasia infantil, que não consegue mais crescer? Troca dinheiro de papel por dinheiro de verdade sem perceber que está negociando outros valores.

Ouço, leio: 7 milhões, 25 milhões, 300 milhões. E apenas uma palavra me vem à cabeça: pobreza. Que vida miserável. Não bastasse a total ausência de escrúpulos, a pessoa não consegue se contentar com o suficiente, nunca atinge um montante que sirva para apaziguar sua insignificância. A ganância é um sorvedouro, o muito é pouco, é nada para quem carrega dentro de si um buraco profundo no lugar onde deveria haver retidão.

Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu? Que saldo deveria aparecer em nosso extrato para nos sentirmos seguros, satisfeitos e dizer: ok, já tenho o que preciso, me basta.

Não é aos 30 nem aos 40 anos de idade que a gente começa a acumular bens. Nosso patrimônio é constituído bem mais cedo, antes até de aprendermos a brincar com o Banco Imobiliário. É o que investiram em nós, na infância, que vai determinar para que servirá, de verdade, o nosso faro, se para correr atrás de uma vida digna ou para enfiar o nariz numa lixeira.

Se fizerem investimentos no nosso caráter, na nossa inteligência, na nossa segurança emocional, seremos tão ricos que não nos importaremos de parecer uma pessoa barata aos olhos dos outros – nos contentaremos com uma casa boa e não gigante, com um carro legal e não um tanque de guerra, e nos vestiremos com despojamento em vez de desfilar por aí feito uma árvore de Natal. Alguém tem medo de parecer barato aos olhos dos outros?

Infelizmente, a lista é longa. Bem mais longa do que a do Fachin.


“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” 

(2 Timóteo 3:16-17)

domingo, 16 de abril de 2017



Viver e morrer são dinâmicas inevitáveis.
Cada um sabe o tanto que morre.
Cada um sabe o tanto que vive.
As escolhas estão por toda parte.
Mas o Cristo está diante de nós.
Em suas mãos não há outra coisa senão a sua Misericórdia.
O motivo de sua morte é o motivo de nossa vida.
Ele morreu porque quis nos ensinar que a justiça divina compreende também a sua capacidade de amar.
Ele nos deu o direito de sermos íntimos do Pai.
Ensinou caminhos simples, diretos, sem rodeios.
Ensinou que podemos ser santos, mesmo sendo proprietários de tantos defeitos.
Ensinou que há sempre uma esperança escondida dentro de nós,
e que procurar por ela é um jeito bonito que temos de colocar os nossos passos nas marcas de seus pés.
Neste tempo de Ressurreição queiramos a sua misericórdia.
Eu quero.
Queira também.
Eternamente.


Eu quero!

sábado, 1 de abril de 2017


mentiras


Desde cedo somos programados e educados para mentir. Desde cedo nos ensinam que existem “mentiras bobas” ou “mentiras boas”, que são completamente diferentes das “mentiras ruins” (aquelas que supostamente seriam as únicas que causam algum tipo de dano a alguém). Em um grau de sofisticação um pouco maior, chegaram a nos ensinar que algumas mentiras são, inclusive, benéficas, porque protegem alguém de algo. Ou então que a omissão é a “arte de não mentir sem precisar dizer a verdade”. Resumindo: nos ensinam que é possível viver uma vida honesta mesmo que por muitas vezes, em maior ou menor grau, visitemos um “campo de distorção da realidade”. Que de maneira alguma é uma mentira.

Pois bem, aprendemos isso com todo mundo e não só com os nossos pais. A sociedade nos ensina nos pequenos gestos. Quando um parente/conhecido chato liga e você manda falar que não está (também funciona para os telemarketing). Quando alguém está acima do peso e você “por educação” elogia o seu corpo. Quando algum defeito de uma pessoa transforma-se em uma repressão de comentários. Quando alguém faz uma pergunta simples (como, por exemplo, se te acordou com o telefonema) e você mente para “ser educado”. A questão é que fazemos isso diariamente na frente dos nossos filhos. Nossos pais já faziam isso e os pais deles também. Vemos as pessoas fazendo isso todos os dias, o tempo todo.

Mas não estou aqui para defender a postura da “sinceridade total” ou do “sincerissídio”. O que me incomoda é constatar que essa postura, que ao longo da vida vai nos parecendo normal e até ganha padrões de funcionalidade, acabam atrapalhando o dia a dia das empresas. O comportamento da “mentirinha inocente” é capaz de gerar custos invisíveis, que deixariam o pessoal de finanças de cabelo em pé. As mais comuns são usadas com a justificativa válida de “salvar a própria pele”. São informações, números ou fatos ditos e repetidos quando o interlocutor não tem a menor ideia da resposta correta. Em geral, quando é algum superior que pergunta.

A dificuldade inicial de não admitir que desconhece a informação e a dificuldade maior de reconhecer que deu uma resposta equivocada faz com que profissionais trabalhem para validar um dado errado. Já vi equipes inteiras tendo que comprovar uma informação que foi proferida em um momento de pressão diante do chefe e que depois tem que virar realidade para evitar um desconforto maior. No fim das contas o que acontece é que, como somos programados para pensar que uma “mentirinha só não dói” e ao mesmo tempo temos que comprovar diariamente que temos o total controle das informações, deixamos de lado, automaticamente, duas palavras que facilitariam tudo para todo mundo: “não sei”.

Proponho um desafio: cada um conta quantos “não sei” ouviram de alguém em uma reunião de trabalho nos últimos meses. Garanto que não vai preencher cinco dedos de uma mão. Todo mundo sabe de tudo, mesmo que seja mentira. Todos têm os números de cabeça e na ponta da língua. Há reuniões que mais parecem uma prova oral do primeiro grau - as pessoas decoraram todos os resultados e fórmulas para que possam ser cuspidos ao sinal da primeira dúvida. E o engraçado é que muitas vezes quem ouve a “resposta inventada” se dá por satisfeito, mesmo que ache estranha a informação dada. Talvez também por medo de parecer que não conhece o processo ou a informação, talvez por querer acreditar que seus subordinados têm todas as informações, talvez por não querer expor a pessoa (e voltar ao ciclo da “mentira boa”, no qual você mente acreditar para ser educado).

A questão é que, de mentira em mentira, acabamos perdendo tempo demais ou corrigindo as informações dadas ou “distorcendo um pouco o campo da realidade” para adequá-lo às nossas mentiras. Só tem um problema nessa equação: se tempo é o bem mais escasso que temos (alguns até dizem que é dinheiro) e estamos gastando para confirmar nossas mentiras, em que momento estamos trabalhando com a verdade? Ou quanto dinheiro e tempo eu poderia estar economizando se começasse a fazer diferente? 

___André Moragas

Pensei em fazer piada sobre o 1º de abril, mas me recordei que a mentira já me feriu muitas vezes: quando me contaram e quando contei. 
Me recordei das vezes em que pensei conhecer e não conhecia; em que acreditei ser e não era. 
Hoje, troco a piada por uma prece: “que seu seja verdadeiro, tanto quanto espero que os outros sejam.”

__Abner Santos


Satisfaze-nos pela manhã
com o teu amor leal,
e todos os nossos dias cantaremos felizes.

__Salmos 90:14

quarta-feira, 29 de março de 2017

.
A gente tem a mania de se explicar demais.
Quase todo mundo estimulando a rotulação uns dos outros.

É dispensável grandes elementos de oratória quando o que estressa aos rotuladores pode ser respondido numa frase:



Fiquei pensando:
e se a gente pudesse voltar no tempo e refazer as coisas?
Não sou o tipo de gente que levanta a bandeira do:
“a gente só deve se arrepender do que não fez”.
Tem muita coisa que eu fiz e me arrependo, sim.
Já fiz muita cagada nesta vida.
De algumas coisas, sinceramente, me envergonho.
De outras, me perdoo. 



Se for preciso, escreva.
Se for útil, publique.
Se aliviar, compartilhe
Se necessário, furte-se de ter razão
E seja anfitrião na escuta, calada, atenciosa e amorosa.
Agindo assim, talvez não se torne celebridade. 
Certamente irá adquirir apenas serenidade (se isso importar).

#importa sim!

O rico domina sobre o pobre; quem toma emprestado é escravo de quem empresta.

Provérbios 22:7

quinta-feira, 23 de março de 2017


Troque sua quaresma sem doce, refrigerante ou pão, por uma quaresma sem fofoca, maldade ou egoismo.
Para Deus e para o mundo não faz diferença ficar sem tomar coca-cola ou cerveja por 40 dias, se você continuar a ser reflexo do inferno na vida dos outros.

cachê vexame


Uma ideia criativa alavanca as vendas. Slogans como “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”, “não é nenhuma brastemp” e “bonita camisa, Fernandinho” ficaram no imaginário coletivo e são alguns dos cases que orgulham a propaganda brasileira. Porém, na ausência de uma sacada genial, o recurso é buscar o depoimento de pessoas famosas, já que elas encurtam o caminho até a aceitação do consumidor.

Esta eficiência, claro, tem um preço. Já vi atriz que mora na Barra da Tijuca anunciar um condomínio em Porto Alegre dizendo que era o lugar onde sempre sonhou morar. Por que uma atriz global iria querer morar aqui no Sul? Por nenhum motivo. Ela jamais cogitou essa hipótese. Queria apenas embolsar os 50 mil do cachê para terminar de pagar seu apartamento de frente para o mar. Pareceu-lhe um preço justo pelo vexame de ter que aparecer em horário nobre dizendo uma inverdade.

Por um dinheiro extra – não qualquer dinheiro, mas um extra de muitos dígitos –, há quem deixe o ego de lado. Quem não se lembra de Gloria Pires dizendo que iria nos contar um segredinho? “O Orlando tem caspa”. Pois é, o Brasil inteiro descobriu que o marido de uma de suas mais talentosas atrizes tinha caspa e havia resolvido o problema com determinado xampu. Beleza. Logo o comercial saiu do ar e o casal recebeu sua grana honesta.

Se o Orlando tinha caspa mesmo, ou ainda tem, será sempre uma incógnita que roubará nosso sono. O que importa é que nenhum crime foi cometido – o consumidor sabe que propaganda testemunhal não é feita por filantropia.

Os cachês são altos porque os riscos também são. Maitê Proença vendeu sua credibilidade para anunciar uma marca de anticoncepcionais que se revelou fraudulenta: algumas mulheres engravidaram por ingerirem pílulas de farinha. A empresa foi autuada e ainda teve que pagar indenização para a atriz, que fez muito bem em buscar seus direitos.

Por essas e outras, é bom pensar direitinho antes de usar a própria imagem para vender detergentes, remédios, sabonetes, cervejas. Vá que o dono da empresa esteja usando uma tornozeleira eletrônica, vá que baratas estejam perambulando perto demais dos estoques, vá que esqueceram de comentar esses detalhes no contrato.

A repercussão da Operação Carne Fraca pode ser exagerada, mas o estrago está feito: Tony Ramos se queimou por enaltecer as virtudes de uma empresa sob suspeita. Diante de uma oferta milionária, não titubeou– alguém iria?

O Brasil não é um bom distribuidor de renda, mas o vexame está ao alcance de todos.



Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram. 

Romanos 12:15

quarta-feira, 22 de março de 2017



‘A mente que se abre a uma nova ideia 
jamais voltará ao seu tamanho original’.

a eles


Gosto de refletir sobre a condição humana, essa que unifica a todos, não importa a idade, raça, condição financeira. Aquilo que a gente carrega dentro (dores, desejos, sonhos) e que formata a nossa essência.

Raramente escrevo sobre política, pois sou movida a entusiasmo, e política, ao contrário, me desanima. Acredito que deveríamos devolver o Brasil para os índios e pedir desculpas, mas não há como voltar no tempo. É preciso lidar com esse monstro que geramos, um país onde há um encantamento patético pelo poder, um fascínio cafona e provinciano. Em vez de cidadãos maduros trabalhando pelo bem social, a maioria dos servidores se apega a cargos, perdendo facilmente o senso de justiça, ética e decência. É um vexame público. Dá para adivinhar seus pensamentos: “Que a imprensa reclame, que as redes explodam, se eles estivessem aqui fariam o mesmo, vamos livrar o nosso que é o que interessa”. Chego até a escutar o sotaque de alguns.

Livrar o nosso. Nosso de quem? Nada é deles. Dinheiro que vem do trabalho de cada habitante do norte, do centro, do sul. NADA é deles. O que poderia ser deles – a biografia honrada - foi negligenciado em troca de sentirem-se imperadores de coisa nenhuma. Vão morrer menosprezados pela pátria e deixarão uma vergonha colossal de herança para os filhos.

Pois é, eles esquecem que vão morrer. Além da ausência total de escrúpulos, falta também essa humildade.

Estou escrevendo para o presidente, governadores, senadores, deputados, ministros, todos aqueles que têm motivo para não dormir à noite, seja porque foram citados em delações ou porque foram coniventes com os trambiques rotineiros de Brasília. Escrevo para os que não têm habilidade para nada além de passar a perna no país e faturar com isso. Para os que acreditam que ser poderoso é fazer uso despudorado do lobby, arregimentar uma legião de puxa-sacos, dar explicação sobre sua conduta em frente a microfones e perder a capacidade de se avexar pela reputação espúria que construiu.

A todos: por favor, compostura. Não entrem para a história como ratos. Assumam suas responsabilidades sem colocar uma nação inteira em risco. Se tiverem que ir para o sacrifício, vão - de cabeça em pé, sem recorrer a manobras indignas. Sejam homens. 200 milhões de olhos estão sobre vocês, testemunhando a desmoralização de suas carreiras. A democracia é um bem valioso. Trabalhem pela sobrevivência dela ao menos no último ato.

#quem procura, acha!


Procure obter sabedoria e entendimento; não se esqueça das minhas palavras nem delas se afaste.

Provérbios 4:5            

segunda-feira, 20 de março de 2017


Quando o casal me diz que nunca discute ou está mentindo ou um dos dois reclama e o outro é indiferente.

A farsa é para selfie. Pois o sorriso de margarina derrete ao sol da verdade.

Não tem como acertar sempre de primeira. Nem os inspirados em rosas e gentilezas, nem os plantonistas dos versos de Pablo Neruda.

A paz é feita de sucessivos acordos e tratados. Ninguém assina a concordância eternamente. Não há amor à primeira vista, isso é coisa da paixão. O amor é parcelado em cada reconciliação.

Há casais que brigam excessivamente, com temperamentos geniosos, e casais que brigam pouco, com uma maior maleabilidade de suas opiniões. Mas não discutir é censura. Nada mais triste do que a ditadura da felicidade. Compreensão difere assombrosamente da submissão.


(...) Nem todos sabem como surgiu esta prática de guardar o estômago para os prazeres oriundos do mar ou das afamadas receitas portuguesas quando o assunto é bacalhau.

É certo que não há, nas sagradas escrituras, nenhuma norma ou referência que regulamente o consumo de peixes nesta época do ano. Da mesma forma como é fácil compreender a jogada comercial que motivou a prática.

Na virada do século XV para o XVI o Vaticano financiava boa parte das grandes expedições marítimas. Para tanto associou-se a vários reis e rainhas católicos, em particular da Espanha e Portugal. Nos novos continentes descobertos, seu quinhão estava assegurado — a peso de muito ouro e enormes propriedades.

É nesta época que, de repente, a Igreja cisma de decretar que, em reconhecimento ao sofrimento de Cristo, os fiéis não poderiam consumir carnes “quentes” ou “vermelhas” durante a Quaresma.

O que nem todos sabiam é que o Vaticano, na verdade, era proprietário da maior frota bacalhoeira — caravelas para a pesca do bacalhau que levavam os “dóris”, barcos a remo nos quais os pescadores (bacalhoeiros) se lançavam ao mar para a pesca.

Seus armazéns ficavam abarrotados e era preciso escoar regularmente a mercadoria antes do vencimento dos prazos de validade (afinal, peixe salgado também estraga porque o sal se desfaz a baixas temperaturas durante o inverno).

Assim, visando a maximizar seus lucros, espertamente os padres proibiram o consumo de outros tipos de carne durante a Quaresma. Não deu outra: as vendas de bacalhau explodiram, já que o alimento era apreciado nas camadas populares europeias, sobretudo portuguesas, por ser nutritivo e barato.

Os ricos e nobres continuaram mandando brasa nos seus faisões. 

__Luis Nassif

canção de outono


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,

menos que as folhas do chão...

Ele muda as épocas e as estações; destrona reis e os estabelece. Dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos que sabem discernir. 

Daniel 2:21

domingo, 19 de março de 2017



Não é este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é Maria, e não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 

Mateus 13:55

#dia do carpinteiro

sábado, 18 de março de 2017

aproveitando a deixa


Deixa o Rei faturar uns troquinhos. Ele merece e tem enorme crédito com cada um de nós, brasileiros.

Quem já nos repassou tantas emoções e nos ensinou que é preciso saber viver tem o direito de outra vez fazer com que 1 milhão de amigos escolham carne Friboi.

O Rei, se houver patrulhamento, vai dizer: querem acabar comigo. E se ficar raivoso, complementará: quero que vá tudo pro inferno! Se insistirmos no patrulhamento, ele nos desafiará: pode vir quente que estou fervendo!

Cá entre nós, o Rei é gente boa e cada vez que ele nos olha, em foto ou em vídeo, tenha a certeza de que ele nos faz esta pergunta: como vai você? Ele pode argumentar, ainda, que não fará novamente comercial de carne e dizer: solamente una vez.

Se você insistir que o comercial por ele estrelado é ilegal, imoral e engorda, certamente o Rei dirá que o show já terminou porque não quero ver você triste! E restará a você olhar além do horizonte e voltar a cantarolar as canções que você fez pra mim!

Grato, Roberto, porque falando sério, estamos com muitas saudades das belas tardes de domingo contigo, Erasmo, Vanderleia, Jerry Adriani, Vanderlei Cardoso, Leno e Lilian, Demetrius, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, The Fevers…

Fim de papo, na certeza de que uma picanha Friboi ficará mais saborosa se tiver uma brasa, mora!
____________

De Luiz Carlos Rizzo
Recomendável para quem curtiu a Jovem Guarda

a falsa liberdade e a Síndrome do “ter de”


Essa é uma manifestação típica do nosso tempo, contagiosa e difícil de curar porque se alimenta da nossa fragilidade, do quanto somos impressionáveis, e da força do espírito de rebanho que nos condiciona a seguir os outros. Eu tenho de fazer o que se espera de mim. Tenho de ambicionar esses bens, esse status, esse modo de viver – ou serei diferente, e estarei fora.

Temos muito mais opções agora do que alguns anos atrás, as possibilidades que se abrem são incríveis, mas escolher é difícil: temos de realizar tantas coisas, são tantos os compromissos, que nos falta o tempo para uma análise tranquila, uma decisão sensata, um prazer saboreado.

A gente tem de ser, como escrevi tantas vezes, belo, jovem, desejado, bom de cama (e de computador). Ou a gente tem de ser o pior, o mais relaxado, ou o mais drogado, o chefe da gangue, a mais sedutora, a mais produzida. Outra possibilidade é ter de ser o melhor pai, o melhor chefe, a melhor mãe, a melhor aluna; seja o que for, temos de estar entre os melhores, fingindo não ter falhas nem limitações. Ninguém pode se contentar em ser como pode: temos de ser muito mais que isso, temos de fazer o impossível, o desnecessário, até o absurdo, o que não nos agrada –  ou estamos fora.

A gente tem de rir dos outros, rebaixar ou denegrir nem que seja o mais simples parceiro de trabalho ou o colega de escola com alguma deficiência ou dificuldade maior.  A gente tem de aproveitar o mais que puder, e isso muitos pais incutem nos filhos: case tarde, aproveite antes! (O que significa isso?) A gente tem de beber em preparação para a balada, beijar o maio número possível de bocas a cada noite, a gente tem de.

A propaganda nos atordoa: temos de ser grandes bebedores (daquela marca de bebida, naturalmente), comprar o carro mais incrível, obter empréstimos com menores juros, fazer a viagem maravilhosa, ter a pele perfeita, mostrar os músculos mais fortes, usar o mais moderno celular, ir ao resort mais sofisticado.

Até no luto temos de assumir novas posturas: sofrer vai ficando fora de moda.

Contrariando a mais elementar psicologia, mal perdemos uma pessoa amada, todos nos instigam a passar por cima. “Não chore, reaja”, é o que mais ouvimos. “Limpe a mesa dele, tire tudo do armário dela, troque os móveis, roupas de cama, mude de casa.” Tristeza e recolhimento ofendem nossa paisagem de papelão colorido. Saímos do velório e esperam que se vá depressa pegar a maquilagem, correr para a academia, tomar o antidepressivo, depressa, depressa, pois os outros não aguentam mais, quem quer saber da minha dor?

O “ter de” nos faz correr por aí com algemas nos tornozelos, mas talvez a gente só quisesse ser um pouco mais tranquilo, mais enraizado, mais amado, com algum tempo para curtir as coisas pequenas e refletir. Porém temos de estar à frente, ainda que na fila do SUS.

Se pensar bem, verei que não preciso ser magro nem atlético nem um modelo de funcionário, não preciso ter muito dinheiro ou conhecer Paris, não preciso nem mesmo ser importante ou bem-sucedido. Precisaria, sim, ser um sujeito decente, encontrar alguma harmonia comigo mesmo, com os outros, e com a natureza na qual fervilha a vida e a morte é apaziguadora.

Em lugar disso, porém, abraçamos a frustração, e com ela a culpa.

A culpa, disse um personagem de um filme, “e como uma mochila cheia de tijolos. Você carrega de um lado para o outro, até o fim da vida. Só tem um jeito: jogá-la fora”. Mas ela tem raízes fundas em religiões e crenças, em ditames da família, numa educação pelo excessivo controle ou na deseducação pela indiferença, na competitividade no trabalho e na pressão de nosso grupo, que cobra coisas demais.

Dizem que devemos nos informar melhor, mas quanto mais informação, mais dúvidas; quanto mais abertura, mais opções; quanto mais olhamos, mais se expande a tela onde se projetam nosso desejos.

Nessa rede de complexidades, seria bom resistir à máquina da propaganda e buscar a simplicidade, não sucumbir ao impulso da manada que corre cegamente em frente. Com sorte, vamos até enganar o tempo sendo sempre jovens, sendo quem sabe imortais com nariz diminuto, boca ginecológica e olhar fatigado num rosto inexpressivo. Não nos faltam recursos: a medicina, a farmácia, a academia, a ilusão, nos estendem ofertas que incluem músculos artificiais, novos peitos, pele de porcelana, e grandes espelhos, espelho, espelho meu. Mas a gente nem sabe direito onde está se metendo, e toca a correr porque ainda não vimos tudo, não fizemos nem a metade, quase nada entendemos. Somos eternos devedores.

Ordens aqui e ali, alguém sopra as falas, outro desenha os gestos, vai sair tudo bem: nada depressivo nem negativo, tudo tem de parecer uma festa, noite de estreia com adrenalina a aplausos ao final.


“Tu és a minha lâmpada, ó Senhor! O Senhor ilumina-me as trevas.”

2 Samuel 22:29        

quinta-feira, 16 de março de 2017


“Meu maior desafio não é revolucionar nada, é manter o bom humor no meio de tanta gente reclamando da vida.”

__Rita Lee

o salto


A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato — pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente — você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.

Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas — mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.

Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?

Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte — quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo — o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão –, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.

Antonio Prata