"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



sexta-feira, 31 de maio de 2013


Mulher não desiste, se cansa.
A gente tem essa coisa de ir até o fim, esgotar todas as possibilidades, pagar pra ver.
A gente paga mesmo. Paga caro, com juros e até parcelado. Mas não tem preço sair de cabeça erguida, sem culpa, sem ‘E se’!
A gente completa o percurso e às vezes fica até andando em círculos, mas quando a gente muda de caminho, meu amigo, é fim de jogo pra você.
Enquanto a gente enche o saco com ciúmes e saudade, para de reclamar e agradece a Deus! Porque no dia que a gente aceitar tranquilamente te dividir com o mundo, a gente não ficou mais compreensiva, a gente parou de se importar, já era.

Quem ama, cuida! E a gente cuida até demais, mas dar sem receber é caridade, não carinho! E estamos numa relação, não numa sessão espírita. A gente entende e respeita seu jeito, desde que você supra pelo menos o mínimo das nossas necessidades, principalmente emocionais, porque carne tem em qualquer esquina.
Vocês nem sempre sabem, mas além de peito e bunda, a gente tem sentimentos, quase sempre a flor da pele. Somos damas, somos dramas, acostumem-se. Mulher não é boneca inflável, só tem quem pode! Levar muitos corpos pra cama é fácil, quero ver aguentar o tranco de conquistar corpo e alma, até o final.

esse cara não sou eu


Sou eu e ela aproveitando os 10 minutos de tolerância do despertador para ficar ainda mais abraçados.
Sou eu e ela brindando com xícaras de café.
Sou eu e ela dividindo o espelho na hora de escovar os dentes.
Sou eu e ela perguntando se está frio ou quente na rua para escolher as roupas.
Sou eu e ela fazendo planos para o final de semana em plena segunda-feira.
Sou eu e ela de mãos dadas no cinema até formigar os braços.
Sou eu e ela criticando a cafonice de alguém na rua.
Sou eu e ela no banco da praça tomando chimarrão e jogando pipoca aos pássaros.
Sou eu e ela trocando cumprimentos de pernas debaixo da mesa.
Sou eu e ela se beijando devagar para respirar melhor dentro do beijo.
Sou eu e ela guardando as rolhas de nossos vinhos.
Sou eu e ela escondendo surpresas no armário da cozinha.
Sou eu e ela ouvindo os problemas sem jamais dizer que não é nada (é horrível ouvir que não é nada quando se sofre).
Sou eu e ela relatando as confusões do trabalho, e exagerando para soar engraçado.
Sou eu e ela disputando quem acessa primeiro a web.
Sou eu e ela arrumando a casa depois de festa.
Sou eu e ela colocando ao mesmo tempo nossas fotos no Facebook.
Sou eu e ela dançando com a cabeça voltada ao teto.
Sou eu e ela lendo o mesmo livro, um esperando o outro terminar o parágrafo para virar a página.
Sou eu e ela adivinhando o que significa certas palavras antes de consultar o dicionário.
Sou eu e ela em silêncio barulhento quando nos emocionamos com uma história.
Sou eu e ela mordendo os lábios no momento da excitação.
Sou eu e ela dividindo os moletons mais gastos.
Sou eu e ela atendendo ligações de madrugada dos amigos em fossa.
Sou eu e ela dando desculpas furadas para não sair no frio.
Sou eu e ela pedindo: por favor, coce minhas costas.
Sou eu e ela passando a roupa um pouquinho antes da festa.
Sou eu e ela atentos quando um dos dois levanta no meio da noite.
Sou eu e ela encardindo as meias pelos corredores do prédio.
Sou eu e ela confessando ciúmes com humor.
Sou eu e ela guardando as caixas de sapatos e as embalagens dos presentes.
Sou eu e ela mudando de canal sem parar sempre alegando que nunca tem programa bom.
Sou eu e ela conferindo se fechamos a porta.

Não sou o cara, mas melhor do que isso: sou um casal.


Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos.
E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará.

João 8:31-32

quarta-feira, 29 de maio de 2013


Não adianta agarrar com unhas e dentes,
quando é pra ser seu, você segura em um abraço.

ausência


Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
porque nada te poderei dar
senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
para que eu possa levar
uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado

Eu deixarei...

tu irás e encostarás a tua face em outra face
teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada
mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite
porque eu encostei minha face na face da noite
e ouvi a tua fala amorosa
porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
suspensos no espaço
e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado

Eu ficarei só
como os veleiros nos pontos silenciosos
mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir
e todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada

Eu sou a luz do mundo;
quem me segue não andará em trevas,
mas terá a luz da vida.

João 8:12

terça-feira, 28 de maio de 2013


Meus amigos separados não cansam de me perguntar como eu consegui ficar casado trinta anos com a mesma mulher. As mulheres, sempre mais maldosas que os homens, não perguntam a minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.

Os jovens é que fazem as perguntas certas, ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo.

Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário. Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas, dito isso, minha resposta é mais ou menos a que segue.

Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar. Ninguém agüenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade, já estou em meu terceiro casamento - a única diferença é que me casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano, está em seu quinto, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes do que eu.

O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher. O segredo no fundo, é renovar o casamento, e não procurar um casamento novo. Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal. De tempos em tempos, é preciso renovar a relação. De tempos em tempos, é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, voltar a se vender, seduzir e ser seduzido.

Há quanto tempo vocês não saem para dançar? Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo como se seu par fosse um pretendente em potencial? Há quanto tempo não fazem uma lua de mel, sem os filhos eternamente brigando para ter a sua irrestrita atenção?

Sem falar nos inúmeros quilos que se acrescentaram a você, depois do casamento. Mulher e marido que se separam perdem 10 quilos num único mês, por que vocês não podem conseguir o mesmo? Faça de conta que você está de caso novo. Se fosse um casamento novo, você certamente passaria a freqüentar lugares desconhecidos, mudaria de casa ou apartamento, trocaria seu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo e a maquiagem. Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge.

Vamos ser honestos: ninguém agüenta a mesma mulher ou marido por trinta anos com a mesma roupa, o mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas. Muitas vezes não é sua esposa que está ficando chata e mofada, são os amigos dela (e talvez os seus), são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração. Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo, que é justamente um dos prazeres da separação. Quem se separa se encanta com a nova vida, a nova casa, um novo bairro, um novo círculo de amigos.

Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso. Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar. Isso obviamente custa caro e muitas uniões se esfacelam porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento. Mas, se você se separar, sua nova esposa vai querer novos filhos, novos móveis, novas roupas, e você ainda terá a pensão dos filhos do casamento anterior.

Não existe essa tal “estabilidade do casamento”, nem ela deveria ser almejada. O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos. A melhor estratégia para salvar um casamento não é manter uma “relação estável”, mas saber mudar junto. Todo cônjuge precisa evoluir, estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensando fazer no início do casamento. Você faz isso constantemente no trabalho, por que não fazer na própria família? É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo.

Portanto, descubra o novo homem ou a nova mulher que vive ao seu lado, em vez de sair por aí tentando descobrir um novo e interessante par. Tenho certeza de que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças. Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão: por isso, de vez em quando é necessário casar-se de novo, mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par.

(Stephen Kanitz)


Quem crê em mim, como diz a Escritura,
rios de água viva correrão do seu ventre.

João 7:38

segunda-feira, 27 de maio de 2013


Tenho um coração de todas as cores.
Que amanhece azul e adormece vermelho
ou bege
ou rosa
ou verde
ou roxo ou…
qualquer cor serve,
porque quanto mais cor no coração,
aprenda: mais cor-agem na vida!


Provavelmente ninguém vai lhe ensinar isto.
Dê um jeito de aprender, você vai precisar.
Saiba desistir, porque em algum momento da vida isso vai ser necessário.
Focar no que é, e não no que poderia ter sido.
Colocar a vida à frente do orgulho.
Seus desejos à frente do que os outros desejam pra você.
Uma ousadia, um disparate, uma loucura, eu sei.
Provavelmente ninguém vai lhe ensinar a entender o que você realmente deseja. Mas dê um jeito de aprender.
Em algum momento da vida, desistir vai exigir mais coragem que seguir em frente.
Desistir será o mesmo que parar de tentar. E parar de tentar pode ser finalmente o começo.
Desistir é um ato de coragem, muitas vezes...

depois dos 35


Depois dos 35 anos, a beleza é resultado da simpatia, da elegância, do pensamento, não mais do corpo e dos traços físicos.

A beleza se torna um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento.
A sensualidade vai decorrer mais da sensibilidade do que da aparência.

Uma mulher chata pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher burra pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher egoísta pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher deprimida pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher desagradável pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher oportunista pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher covarde pode ser bonita antes dos 35.
Depois, não mais, depois acabou a facilidade. Depois o que ilumina a pele é se ela é amada ou não, se ela ama ou não, se ela é educada ou não, se ela sabe falar ou não.
Depois dos 35 anos, a beleza vem do caráter. Do jeito como os problemas são enfrentados, da alegria de acordar e da leveza ao dormir.
Depois dos 35 anos, o sexo é o botox que funciona, a amizade é o creme que tira as rugas, o afeto é o protetor solar que protege o rosto.

A beleza passa a ser linguagem, bom humor.
A beleza passa a ser inteligência, gentileza.
Depois dos 35 anos, só a felicidade rejuvenesce.

(Carla Bruni, em entrevista para a Veja)

Uma grande multidão seguia Jesus e o comprimia.
E estava ali certa mulher que havia doze anos vinha sofrendo de uma hemorragia.
Ela padecera muito sob o cuidado de vários médicos e gastara tudo o que tinha, mas, em vez de melhorar, piorava.

Quando ouviu falar de Jesus, chegou-se por trás dele, no meio da multidão, e tocou em seu manto, porque pensava: “Se eu tão-somente tocar em seu manto, ficarei curada”.

Imediatamente cessou sua hemorragia e ela sentiu em seu corpo que estava livre do seu sofrimento.

No mesmo instante, Jesus percebeu que dele havia saído poder, virou-se para a multidão e perguntou: “Quem tocou em meu manto?”
Responderam os seus discípulos: “Vês a multidão aglomerada ao teu redor e ainda perguntas: ‘Quem tocou em mim? ’”

Mas Jesus continuou olhando ao seu redor para ver quem tinha feito aquilo.

Então a mulher, sabendo o que lhe tinha acontecido, aproximou-se, prostrou-se aos seus pés e, tremendo de medo, contou-lhe toda a verdade.
Então ele lhe disse: “Filha, a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofrimento”.

Marcos 5:24-34

sábado, 25 de maio de 2013

coisa mais linda...



#rdb
Esse é um poema que o Cazuza fez para a avó dele, quando ela morreu, e só foi descoberto depois da morte dele.
Sua mãe, Lucinha Araújo, encontrou o texto e deu de presente para o Ney Matogrosso, que pediu ao Frejat que o musicasse e gravou.
É linda... perfeita: letra, melodia e interpretação.
Digna de replays ininterruptos.

antigamente


Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas.
Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito.
Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio.
E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia.
As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro.
Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada.
Encontravam alguém que lhes passasse a manta e azulava, dando às de vila-diogo.
Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno.
Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n’água.

Havia os que tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira.
Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.”
Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”.
Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca.
Era natural que com eles se perdesse a tramontana.
A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso.
Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja.
As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias.

Antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas.
Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde.
As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga.
Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe.
As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.

Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico.
Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.

Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.

(crônica extraída do Livro Quadrante - Vol. I)


Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.
= João 7:24 =

sexta-feira, 24 de maio de 2013


(...) durante a vida, a gente conhece um mundaréu de pessoas, estabelece variadas trocas de impressões, passeia por outras tribos e tal.

São homens e mulheres que chegam bem perto do nosso epicentro, nem sempre por escolha, mas porque são parentes de alguém, conhecidos de não sei quem, e que acabam sendo agregados à nossa agenda do celular. Até que o tempo vai mostrando uma dissimulação aqui, uma maldade ali, uma energia pesada, e você se dá conta de que alguns não são da sua turma.

Da série “Coisas que a gente aprende com o passar dos anos”: abra-se para o novo, mas na hora da intimidade, do papo reto, da confiança, procure sua turma. É fácil reconhecer os integrantes dessa comunidade: são aqueles que falam a sua língua, enxergam o que você vê, entendem o que você nem verbalizou.

São aqueles que acham graça das mesmas coisas, que saltam juntos para a transcendência, que possuem o mesmo repertório. São aqueles que não necessitam de legendas, que estão na mesma sintonia, e cujo histórico bate com o seu. Sua turma é sua ressonância, sua clonagem, é você acrescida e valorizada. Sua turma não exige nota de rodapé nem resposta na última página. Sua turma equaliza, não é fator de desgaste. Com ela você dança no mesmo compasso, desliza, cresce, se expande. Sua turma é sua outra família, aquela, escolhida.

Não tenho mais paciência com o que me exige atuação, com quem me obriga a usar palavras em excesso para ser compreendida. Não tenho mais energia para o rapapé, para o rococó, para o servilismo cortês, para o mise-en-scène social. Não tenho motivo para ser quem não sou, para adaptações de última hora, para adequações tiradas da manga. Não quero mais frequentar estranhos, em cujas piadas não vejo a mínima graça.

Não quero mais ser apresentada, muito prazer, e daí por diante ter que dissecar minha árvore genealógica, me explicar em nome dos meus tataravôs, defender posições que me farão passar por boa moça. Não quero mais ser uma convidada surpresa. Se você mandar eu procurar minha turma, acredite, tomarei como carinho.


Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo que for desnecessário.
Ando cansada de bagagens pesadas.
Daqui para frente apenas o que couber no bolso e no coração.

Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre;
e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.

João 6:51

quinta-feira, 23 de maio de 2013


A paixão é um porre.
Ninguém mantém suas atitudes, conserva suas latitudes.

A paixão é uma pane.
Só vai conquistá-la a partir de constrangimento público, chamando seu par para dividir um vexame.
Terá que convidá-la a dançar na rua sem som nenhum, ou gritar seu nome desesperadamente na parada do metrô, ou beijá-la no meio de um bar como se não houvesse gente alguma querendo passar pelos corredores.
É necessário escandalizar os passantes, é necessário um público incrédulo e invejoso que não entenda o que vocês estão fazendo.
Ambos andarão na contramão da hora e do espaço, isolados na própria alucinação, resguardados pela onipotência do desejo.
O desatino é o pedágio da conquista.
Você vai se ajoelhar numa faixa de segurança, pedir esmola para bancar o engraçado, criar diálogo de marionetes com cachorros-quentes.
É estranho concluir que nos habilitamos para o relacionamento sendo inconsequentes. O conservadorismo não tem chance. A caretice não merece sala.

No amor, podemos pedir a mão ao destino. Na paixão, pedimos a mão dela para mergulhar no abismo.
Será um rompante que sustentará o futuro, determinará o súbito endividamento do passado.
Você pode encarnar um tipo educado, culto, estável, sensível, nada disso contará a seu favor.
O que arrebata a mulher é o quanto pode enlouquecer por ela.
É um desvio de seus bons modos, uma coragem inusitada, um apelo à espontaneidade que definirá o namoro.
Você pode ser o mais retrógrado dos mortais, mas apaixonado sairá da linha e cometerá uma imprudência. Mesmo que seja a única de sua vida.
Todos os casais guardam o dia em que se decidiram um pelo outro. E é sempre uma sandice que será lembrada com orgulho, marcará o motivo de estarem juntos até hoje.
Representará a demonstração de seu desprendimento, um duelo onde a palavra venceu a aparência e a irreverência superou o julgamento moral.

Paixão é quando dissemos: dane-se o mundo, e sigamos com o nosso instinto. É uma breve e inesquecível alforria dos olhos.
Você nadará nu numa piscina, descerá as trilhas de uma floresta no escuro, cantará músicas francesas no muro do viaduto.
É o momento em que os dois provam que estão preparados para a maior loucura que um casal é capaz de experimentar dali para frente: dividir normalidades.

E que graça teria a vida se só houvessem dias ensolarados e amigos equilibrados?

Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.

João 6:35

quarta-feira, 22 de maio de 2013


Que possam se doer em paz os que sofrem: por angústias existenciais, desamor ou qualquer coisa que pareça banal. 
Que possam, simplesmente, silenciar e não sorrir naquele dia. 
Que possam entrar em contato profundo com o trecho machucado de sua vida, com a garganta magoada pelo choro engolido, com a vontade da desistência. 
E que, a partir disto, possam qualquer coisa, inclusive decidir o que fazer com isso: pode ser que tanto, pode ser que nada. 
Mas, sobretudo, que percebam a não obrigação de cumprir o imperativo milenar do “reaja, melhore esta cara, vamos viver!”, pois a vida é esta poça de lama também. 
Então, que sejam respeitados em sua dor os que sofrem e que não sejam importunados senão por um abraço, ou talvez nem isso. Respeitem seus cansaços. Não cobrem luz da sombra. 
Que possam se doer em paz enquanto seres sentimentais: ao menos não fizeram uso de anestésicos emocionais. 

felicidade?


Disse o mais tolo: “Felicidade não existe”.
O intelectual: “Não no sentido lato”.
O empresário: “Desde que haja lucro”.
O operário: “Sem emprego, nem pensar!”.
O cientista: “Ainda será descoberta”.
O místico: “Está escrito nas estrelas”.
O político: “Poder”.
A igreja: “Sem tristeza, impossível... (Amém)”.
O poeta riu de todos,
e, por alguns minutos...
foi feliz.

(O Teatro Mágico)

Aqui só existe o bem.
Se você me deseja o mal, eu te desejo amor.

Estava num café esperando por uma amiga. Enquanto o tempo passava, fiquei observando o ambiente. Outra mulher estava sozinha a poucas mesas de distância, também esperando alguém atrasado. O atrasado dela chegou antes da minha. Vi quando ela se levantou para cumprimentá-lo. Deram-se dois beijinhos.

Os dois beijinhos mais vacilantes e constrangedores que podem ocorrer entre um casal. Talvez fosse delírio meu, mas tenho quase certeza de que eram ex-amantes, ex-namorados, ou um ex-marido e uma ex-esposa que haviam terminado a relação poucos dias atrás, no máximo alguns meses atrás.

É uma cena clássica. Depois de anos de amor e intimidade, a relação se desfaz. Os dois juram nunca mais se ver, odeiam-se por algumas semanas, até que um dia surge uma pendência para ser conversada, ou simplesmente resolvem tomar um drinque para provar ao mundo que a amizade prevaleceu, essas cenas aparentemente civilizadas que trazem significados ocultos.

Ou pior: encontram-se sem querer num estacionamento no centro da cidade, num corredor de shopping, num quiosque do mercado público. Você aqui? Que surpresa. E os dois beijinhos saem de uma forma tão desengonçada que seria motivo pra rir, não fosse de chorar. Eles não se possuem mais fisicamente.

Interdição do corpo. Um dos troços mais sofridos de um final de relacionamento, que só se vai experimentar depois de um tempo afastados. Uma coisa é você ficar racionalizando sobre o desenlace trancafiada no quarto, ele ficar ruminando sobre as razões do rompimento enquanto trabalha.

Uma coisa é você chorar durante o banho para disfarçar os olhos inchados, ele falar mal de você em bares, fingindo que se livrou da Dona Encrenca. Uma coisa é você consultar uma cartomante a fim de acreditar em dias mais promissores, ele sair com umas lacraias bonitinhas pra provar que te esqueceu.

Outra coisa é quando os dois se encontram, cara a cara, depois de semanas ou meses apenas se imaginando.

Ele está ali na sua frente. Mas você não pode agarrar seus cabelos, não pode passar a mão no seu peito, não pode rir de uma piada interna que só pertence aos dois, porque está oficializado que nada mais pertence aos dois.

Ela está ali na sua frente. Mas você não pode mais dar uma beliscadinha na sua bunda, não pode mais beijá-la na boca, não pode mais dizer uma bobagem em seu ouvido, porque está oficializado que ela agora é apenas uma amiga, e não se toma esse tipo de liberdade com amigas.

Depois de terem vivido, por anos, a proximidade mais libidinosa e abençoada que pode haver entre duas pessoas apaixonadas, vocês agora estão proibidos ao toque. Não se amam mais, é o que ficou decretado. Logo, os códigos de aproximação mudaram.

Você dará dois beijinhos na mulher que tantas vezes viu nua, como se ela fosse uma prima. Você dará dois beijinhos no homem para quem tanto se expôs, como se ele fosse um colega de escritório. Esses dois beijinhos doerão mais do que um soco do Mike Tyson.

O corpo interditado. Você não pode mais tocá-lo, você não pode mais tocá-la.
O definitivo sinal de que o fim não era uma ilusão.


Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

João 3:16

terça-feira, 21 de maio de 2013

tirando a poeira


É como se aqui fosse uma folha velha. Um papel encardido e empoeirado que aos poucos se embeleza com a cor do tinteiro. Umas passadas firmes com a mão pra retirar o excesso de tempo e as pautas vão revelando um charme que só a experiência é capaz de dar. E quanto vivem as pautas da nossa vida.

E o tempo vivido me dá liberdade de fazer o que for com as letras, com a poeira, comigo. Posso dizer que o tempo me ensinou a sem-vergonhice que emagrece os quilos da responsabilidade.

Quando se tem um pouco de poeira nas costas, meu caro, não se dá tanta importância a corretismos ou baixezas. A aspereza do pó faz qualquer traço de atitude sair mais leve.
A gente já não marca as folhas como no colégio. Ficavam fundas do outro lado, lembra? Não, agora não... agora o punho desliza sujando um pouco do dorso que detalha as sutilezas, a simplicidade.
O realismo dos momentos que também diminui a paciência com gente aparentemente limpa demais, que tudo ama, tudo critica, tudo se abstém. Gente escrota precisa de um pouco de pó da vida pra conviver em sociedade.

Um pouco de poeira humaniza a história da gente.


O que a gente gosta, a gente guarda.
Quem ama a gente, a gente cuida.
E pro resto a gente mostra a língua.

( Cássia Eller )


- Morreu de que? Suspirou.
- Sufocado de palavras que nunca disse.

Pedro Pinheiro

parâmetro



Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.


O que é impossível para os homens é possível para Deus.

Lucas 18:27

segunda-feira, 20 de maio de 2013

mais um dia... mais uma semana!


Que o banho quente seja revigorante.
Que o café me acorde.
Que tudo que eu vestir fique bonito em mim.
Que eu saiba respirar bem fundo quando a coisa ficar preta.
Que consiga apreciar o sol, o céu, o vento geladinho que bate no rosto ou o canto dos pássaros.
Que não me estresse no trânsito.
Que não perca a paciência com quem tem um jeito de fazer as coisas diferente do meu.
Que o barulho do colega ao lado não me tire o foco.
Que me sobre um tempinho para almoçar com calma.
Que as pessoas não me liguem só para contar problemas.
Que eu não tenha que me explicar.
Que meu sapato não faça bolha no pé.
Que eu não esqueça tudo que preciso fazer.
Que minha energia esteja boa.
Que a energia dos outros não me contagie.
Que eu consiga me proteger do que não me faz bem.
Que eu consiga distinguir o que é meu e o que é seu. E o que for seu que continue bem guardado com você.
Que eu não sinta nenhuma dor.
Que quem eu amo esteja bem.
Que eu não dê bola para as pequenices, pois o mundo é grande demais pra gente perder tempo com besteiras.
Que eu continue me tratando bem e me respeitando.
Que eu não passe por cima dos meus valores (nunca).
Que eu não perca a capacidade de aprender.
Que eu continue achando que sempre é possível melhorar.
Que eu nunca perca meu lado positivo de ver as coisas.
Que minha urgência pelas coisas nunca se vá.
Que eu continue, por muito tempo, respirando e sentindo aquela paz com sabor de caramelo.
Que eu controle meus nervos.
Que eu consiga dizer o que sinto.
Que eu entenda que não posso insistir no mesmo erro.
Que eu não perca esse lado bonito de acreditar de novo. E de novo. E de novo.
Que a gente não se perca.
Que eu não sofra.
Que eu consiga encarar o mundo de frente.
Que eu nunca me envergonhe dos meus atos ou sentimentos.
Que eu consiga dar conta do dia. E de mim.

Amém.

Eu me perdoo porque em vários momentos, fui injusta com vocês, comigo.
Deixei que as minhas expectativas se tornassem exigências e julguei pessoas inteiras por causa de uma única atitude.
Eu me perdoo porque na tentativa diária de acertar, cometi inúmeros erros por medo de errar.
Fui áspera quando estava assustada e precisava pedir abraço, ajuda.
Fui dócil por interesse, por necessidade de ser aceita para minha falsa completude.
Eu me perdoo porque, não estando inteira para mim, doei fragmentos do que eu tinha, fui cínica com a minha poesia, falei de amor quando o que eu sentia era carência.
Eu me perdoo por tantas vezes, não perdoar tua displicência, invadir tua individualidade, reclamar tua ausência.
Eu me perdoo pela falta de compreensão e paciência com as minhas limitações e com as suas.
Eu me perdoo por tirar a roupa quando você queria me sentir emocionalmente mais explícita, não apenas me ver nua.
Eu me perdoo por ter me anestesiado tanto tempo e desrespeitado minha angústia, negligenciado qualquer aprendizado que trouxesse sofrimento.
Eu me perdoo por rasurar com minhas autocríticas, os meus melhores momentos.
Eu me perdoo porque sou imperfeita e humana, mas já pretendi a perfeição do outro, mesmo não havendo importância ou a possibilidade disto. Por querer receber aquilo que nem eu tinha para dar. Por insultar querendo que a mudança fosse alheia porque julgava ser do outro o medo de transcender, de transmutar.

Eu me perdoo por ter vivido por tantos anos sem me perdoar.

Nunca escrevi nada por linhas tortas a minha
vida inteira, vocês é que não sabem ler!

do filme “Deus é brasileiro”

Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito,
e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.

Lucas 16:10

sábado, 18 de maio de 2013

Pollyannidades


Pollyanna é o título de um livro escrito pela americana Eleanor H. Porter, em 1913. O sucesso da história foi tanto que, em 1915, Porter publicou uma continuação, que aqui no Brasil recebeu o nome de Pollyanna Moça.*

Eu devorei esses dois livros quando era adolescente.

Pollyanna, a protagonista, era uma criança orfã que, entre outras características, era extremamente otimista, apesar de todas as dificuldades pelas quais passava. E uma das “heranças” deixadas pelo pai foi o “jogo do contente”.

O “jogo do contente” era uma forma de a garota driblar as intempéries da vida. Um dia, por exemplo, esperando por uma boneca no Natal, foi abrir um baú de doações e encontrou, em vez do brinquedo, um par de muletas.*

Esse seria motivo suficiente para qualquer criança abrir um berreiro, mas Pollyanna, depois de viver por apenas alguns segundos o momento de frustração, aplicou as regras do “jogo”: não deveria ficar triste por não ter ganhado a boneca, mas sim contente por não precisar das muletas.

Pois bem.

Esforço-me para fazer o “jogo do contente”, mas há situações em que, por mais que tento, fica difícil ver o lado bom: A vida é bela e tudo o que acontece comigo tem uma razão boa de ser…

Nunca me vi como uma pessoa essencialmente otimista.
Na verdade, sempre me achei bastante realista (pessimista, certamente não sou). Mas de fato, sou alguém que tem fé e esperança nas pessoas, no amor, na felicidade, enfim, no humano.

É inspirador quando alguém consegue ver um lado bom de situações claramente ruins, mas eu, pessoalmente estou mais para José Saramago do que Pollyana: “Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo”.

Não sei se estou de mau humor, triste ou magoada. “Tem a ver com o peito, mas o que dói é o cotovelo”. (Flah Queiroz)
O que sei é que esse sentimento exige de mim uma certa ‘dedicação’, pois a dor que a gente não expressa ou vive, acaba virando doença.
E é por isso que estou aqui, fazendo esse blog de divã.

Sei que vai passar... de um jeito ou de outro, tudo passa.
Ainda bem que, na pior das hipóteses, tudo passa (e ouso dizer que ‘apesar de’, estou usando o meu lado otimista, senão teria dito: “não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe”. E essa é de cortar os pulsos!)

*Wikipédia

quinta-feira, 16 de maio de 2013


Otimista nata, tenho a mania de pensar que, quando uma coisa não deu certo, é porque foi melhor assim.
Por exemplo: se as vagas para um curso que eu quero fazer estão completas, logo penso que talvez o curso não seja grande coisa e que eu posso gastar o dinheiro da inscrição comprando um livro muito mais útil.
É um comportamento simplista, sim, mas bem menos estressante.

Às vezes o fracasso é só isso, um fracasso.

Todos concordam que o baterista que abandonou os Beatles no começo da carreira, por achar que música não dava futuro, deve estar até hoje em Liverpool arrancando os poucos cabelos que sobraram (enquanto que Ringo Starr não tira aquele sorriso bobo do rosto por ter ganho um bilhete premiado). Ainda assim, assisti uma vez a uma reportagem com o primeiro baterista da banda em que ele afirmava que, caso tivesse se tornado um superstar, dificilmente teria conhecido sua mulher, com quem ele se entende às maravilhas.

Perdendo também se ganha.

São muitos os exemplos de fracassos que podem vir a ser um golpe de sorte.
O namorado que lhe chutou e por quem você tem derramado baldes de lágrimas talvez tenha lhe deixado disponível para um amor muito mais saudável, que está por pintar a qualquer momento.
Você foi demitido? Quem garante que a empresa não vai falir daqui a um tempo, deixando todos os funcionários a ver navios? Enquanto isso você embolsou o fundo de garantia e pode sonhar em montar um negócio seu.
Se bateram no seu carro, é dose, mas talvez na oficina descubram o desgaste do seu freio que, caso não fosse descoberto a tempo, poderia ter provocado um acidente muito mais sério.
Se não aceitaram sua proposta de compra de um apartamento, champanhe! Você iria se encalacrar de dívidas e morar o resto da vida num buraco, enquanto que agora está aí, pensando em torrar o dinheiro numa viagem que poder mudar completamente seu destino. É preciso confiar.

Quando a estrada fica interrompida, o desvio pode ser surpreendente.


Só deseja um amor saudável, quem já viveu uma paixão dilacerante. Porque a paixão corroía tudo por dentro até tirar o fôlego, mas até a dor parecia bonita: aquele único instante de felicidade com o outro compensava os trezentos outros de infelicidade.

Só deseja ter um dia tranquilo, sossegado, quem tem a intensidade à flor da pele, quem acorda suspirando a vida, devorando o dia, se lambuzando de tudo sem conseguir tocar nas coisas com a ponta dos dedos.

Só deseja constantemente a companhia das palavras quem escreve. Para estas, o silêncio nunca é mudo, é sempre uma possibilidade.

Só consegue vislumbrar a paz quem se investiga, quem tem consciência do que deseja e pode ou não obter, quem aprendeu a lidar com o imediatismo.

A escrita ensina a esperar, a escutar a letra da música e depois a melodia, juntas e separadas.
A escutar a história do outro sem fazer intervenções antes da conclusão.
A compreender que os espertinhos são aqueles que sempre vão terminar levando uma rasteira da própria ingenuidade, porque perderam a inocência.

Só consegue acordar para a vida, quem viveu solitário e insone dentro de uma noite interminável e caminhou sonolento pelo resto do dia, quem perdeu o sol.

Só consegue apreciar a nudez, quem não é vulgar. Quem percebe com naturalidade que um corpo é como uma árvore, que o seu ambiente é extensão do meio ambiente e que, juntos, ambos são um ambiente inteiro.

Só julga acidamente os outros o tempo todo quem é recalcado. Quem se aprisionou na ideia do que é ridículo e não consegue suportar um ser autêntico.

Só consegue ser irônico, quem é inteligente.
Só consegue ser doce, quem já foi ferido e curado pela espiritualidade.
Só consegue o que quer os que têm desejos justos. E acreditam.

obrigada, Senhor, pela graça deste novo dia!


De fato, há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos.

Lucas 13:30

quarta-feira, 15 de maio de 2013

a partir de hoje...


... vou deixar que o outro seja: uma boa ou má pessoa, o que lhe aprouver.
Tudo que julgo ou critico, tomo como referencial os meus valores.
Não há como saber quem está certo a partir disto, e nem tem importância no final das contas.
A partir de agora, eu sei quem quero atrair para a minha vida: pessoas que não me façam sentir que estou traindo a mim mesma.
Tudo é resolvido com um olhar distanciado e um afastamento físico.
Não enfio mais poesia em situações onde o protagonista não sou eu e o coadjuvante não consegue ser lírico.


Seu nome está escrito no meu braço
Você é o motivo pra tudo que eu faço

Seu nome está escrito na minha alma
Você é paz, é tudo que me acalma

É uma obsessão
Mas o meu coração só quer você

(Tatuagem  - Tianastácia)

crônica de uma tensão


Quando eu tinha dez anos fui ao banheiro e chamei minha mãe. Tinha ficado menstruada. Não me assustei, afinal, ela já tinha me explicado todas aquelas coisas. Não gostei muito dela ter espalhado para as amigas que eu tinha "virado mocinha", mas tudo bem, é coisa de mãe. Mães gostam de envergonhar a gente de vez em quando (vai dizer que sua mãe nunca mostrou fotos horrendas da adolescência para seu novo namorado?).

Tudo ia quase bem. Apesar de ter me sentido de fralda usando meu primeiro absorvente, me senti adulta. Adorei contar para todas as amigas que tinha ficado semi adulta. Adorei usar a desculpa do estou-muito-indisposta durante anos e anos para os professores de educação física. Minha mãe disse que eu poderia sentir cólica, como de fato senti. Ela só esqueceu de me contar sobre a TPM.

Tenho uma TPM violenta. Normalmente, sigo dois caminhos: viro uma brucutu irritada e braba ou viro uma molengona sensível que chora até com o bom dia do porteiro. É bem difícil. Começa uns 7 ou 8 dias antes do dia M (menstruation day). Peitos ficam sensíveis e do tamanho do Corcovado, cólicas infernais me assombram, fora o humor que fica dando piruetas all the time.

Quando eu morava em casa era tudo simples. Xingava minha mãe e pronto. É, é natural que a gente solte as patas em quem está mais próximo. Então, comecei a namorar. E continuei dando coices na minha mãe (coitada, ela sofreu por muitos e muitos anos). De vez em quando ela perguntava e-ai-ela-te-maltrata-antes-daqueles-dias? E ele dizia que não. É claro que não. Como você vai espantar namorado novo? O problema é que o namorado novo uma hora vira namorado velho. E namorado velho, sabe como é, é que nem calcinha antiga: já se acostumou com você. Por isso, a gente é o que é, sem filtro. Passei a mostrar meu lado negro, o que deixou ele meio confuso. Como pode aquela mulher legal, divertida, carinhosa ser tão bruxa? Podendo. Na TPM a gente vira bicho.

Namorar na TPM é fácil. O problema é morar junto na TPM. Dividir o mesmo teto quando o teto parece desabar em cima de você. É duro. Tudo irrita, incomoda e atormenta. O que é uma coisa simples vira um acontecimento. Nos dias normais eu nem noto se o tapete do banheiro está torto ou não. Se a torneira ficou bem fechada. Se o tubo de pasta de dente ficou apertado no meio. Se o copo sujo ficou em cima da mesa. Se o chão tem pingos. Se eu que pego a correspondência. Se eu troco a água da cachorra. Se eu que tiro os pratos da mesa.
Mas na TPM parece que tudo se desmonta:
- Você deixa a porra do tapete torto sempre!
- Fecha a merda da torneira, pô!
- Por que você aperta a pasta no meio? Que saco!
- Olha o copo sujo, eu lavo tudo sempre e você não faz nada!
- Não sabe mirar o xixi?
- Eu sempre busco a correspondência, eu sempre troco a água, eu sempre tiro os pratos, eu sempre faço tudo e você nunca ajuda em nada!

É um horror, uma guerra.
Na TPM tudo vira uma coisa maluca. No meio da enxurrada de palavras, alguma coisa sopra no meu ouvido: sossega. É uma fase. Essa não é você. Então eu sorrio. E depois começo a chorar.

(E no outro mês tudo recomeça.)