"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Das coisas boas


Tem uma crônica do Paulo Mendes Campos em que ele conta de um amigo que sofria de pressão alta e era obrigado a fazer uma dieta rigorosa.
Certa vez, no meio de uma conversa animada de um grupo, durante a qual mantivera um silêncio triste, ele suspirou fundo e declarou:
- Vocês ficam aí dizendo que bom mesmo é mulher. Bom mesmo é sal!

O que realmente diferencia os estágios da experiência humana nesta terra é o que o homem, a cada idade, considera bom mesmo.
Não apenas bom. Melhor do que tudo. Bom mesmo.

Um recém-nascido, se pudesse participar articuladamente de uma conversa com homens de outras idades, ouviria pacientemente a opinião de cada um sobre as melhores coisas do mundo e no fim decretaria:
- Conversa. Bom mesmo é mãe.

Depois de uma certa idade, a escolha do melhor de tudo passa a ser mais difícil.
A infância é um viveiro de prazeres.
Como comparar, por exemplo, o orgulho de um pião bem lançado, o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos, o cheiro da terra úmida e o cheiro de caderno novo?
- Bom mesmo é o cheiro de Vick VapoRub.

Mas acho que, tirando-se uma média das opiniões de pré-adolescentes normais brasileiros, se chegaria fatalmente à conclusão de que nesta fase bom mesmo, melhor do que tudo, melhor até do que fazer xixi na piscina, é passe de calcanhar que dá certo.

Mais tarde a gente se sente na obrigação de pensar que bom mesmo é mulher (ou prima, que é parecido com mulher), mas no fundo ainda acha que bom mesmo é acordar na segunda-feira com febre e não precisar ir à aula.

Depois, sim, vem a fase em que não tem conversa.
Bom mesmo é sexo!

Esta fase dura geralmente até o fim da vida, mesmo quando o sexo precisa disputar a preferência com outras coisas boas (“Pra mim é sexo em primeiro e romance policial em segundo, mas longe”).
Quando alguém diz que bom mesmo é outra coisa, está sendo exemplarmente honesto ou desconcertantemente original.

- Bom mesmo é figada com queijo.
- Melhor do que sexo?
- Bom... Cada coisa na sua hora.

Com a chamada idade madura, embora persista o consenso de que nada se iguala ao prazer, mesmo teórico, do sexo, as necessidades do conforto e os pequenos prazeres da vida prática vão se impondo.

- Meu filho, eu sei que você aí, tão cheio de vida e de entusiasmo, não vai compreender isto. Mas tome nota do que eu digo porque um dia você concordará comigo: bom mesmo é escada rolante.

E esta é a trajetória do homem e seu gosto inconstante sobre a terra, do colo da mãe, que parece que nada, jamais, substituirá, à descoberta final de que uma boa poltrona reclinável, se não é igual, é parecido.
E que bom, mas bom mesmo, é nunca mais ser obrigado a ir a lugar nenhum, mesmo sem febre.

A receita é infalível: ocupe-se com que lhe causa encantamento.
E tudo a que chamamos de 'problemas' fica pequeno, perto do fascínio daquilo que chamamos de vida.

(Mel Costa)

Como jóia de ouro em focinho de porco, assim é a mulher formosa, mas indiscreta e que se aparta da razão.

Provérbios 11:22

sexta-feira, 26 de outubro de 2012


“A vida nos oferece mil chances...
tudo que precisamos fazer é aceitar uma”.

- do filme Sob o sol da Toscana -

"Milagre é quando tudo conspira contra, mas Deus vem de mansinho e com um sopro leve muda o rumo dos ventos.
Milagre é quando o incerto nos abraça depois de nos atingir cruelmente com sua fúria.
É quando respirar vira quase um suspiro de alívio e a vida devolve o sorriso como forma de retribuição por todo sofrimento.
É o instante teimoso que resiste bravamente a um duro percurso e mantém-se em pé amparado pela força divina.
É a decisão que escapa de nossas mãos, mas que antes de cair agarra-se com toda força a uma segunda chance.
Milagre é o improvável gesto de carinho que impulsiona o ser humano a não deixar de acreditar."

Quem faz o bem aos outros, a si mesmo o faz;
o homem cruel causa o seu próprio mal.

Provérbios 11:17

quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Não há nada de errado em - de vez em quando - chorar e pedir a Deus que nos coloque no colo.
Porque, acredite em mim,
uma cicatriz não se forma num morto,
uma cicatriz significa:
"Eu sobrevivi."

(Chris Cleave)

O tempo continua indo...
Mas aqui dentro, as coisas estão iguais.
Tenho pensado nas inúmeras formas de te falar, sem que o que eu diga esteja preso no que foi ou que minha insegurança disperse aquele momento, ali...
(Quero que tudo aconteça naturalmente).
Quando você chegar, vou comentar a saudade, beijar teu rosto de leve e sentir teu cheiro.
E sem que a gente diga, a lembrança percorrerá sobre tudo o que trocamos a distância,(carinhos em noites de ausência).
Só quero poder estar ao teu lado, sem que nada seja tão preciso.
Mas se teu olhar sobre mim silenciar aquele instante; se o calor do teu desejo entender o meu, vou entregar um sorriso que é só teu.
E ainda que nada mude.
Mesmo que não seja o tempo, não desisto da certeza que tenho mantido: Você é meu complemento. Sempre. Será. Tem sido.

É lindo saber que ainda existe
aquela história de amor sincera,
onde um olhar vale toda uma espera...

O nome é um espelho. O primeiro e último espelho. A nossa estreia pública, na certidão de nascimento, e o nosso derradeiro aceno das letras, na lápide.

Enxergar o nome impresso foi sempre uma das minhas principais alegrias. Eu sabia que existia, mas era a chance de outros saberem. Vinha como promessa de alguma posteridade, de alguma fama, de algum significado maior.

Talvez a gente viva pelo desejo de ver nosso nome em destaque. É a primeira coisa que a gente aprende na escola: escrever o nome. No meu caso, em intermináveis cadernos de caligrafia.

É o motivo da batalha inicial — de uma guerra sem fim — dos pais por nossa causa: qual será o nome dele?

É uma briga que levamos vida afora, defendendo a grafia em hotéis e documentos e a pronúncia em telefonemas e encontros.

O nome é a solidão, a paz, o ferrolho dos recreios e das corridas, onde nenhum colega pode nos alcançar (terrível quando nos deparamos com um nome e sobrenome exatamente iguais ao nosso, e ainda descobrimos que o gêmeo bastardo é mais rico, sortudo e feliz e que, na verdade, somos o bastardo dele).

Sem nome, não existe destino. Recordo minha concentração obsessiva ao treinar a assinatura para a carteira de identidade, o temor de não repeti-la.

Pense na força do nome nas conquistas. Sem ele, sequer nos alegramos, não há mérito. O nome é a cicatriz da vitória.

Meu nome na toalhinha de rosto do jardim da infância. Meu nome na lista de chamada. Meu nome no boletim escolar. Meu nome no cabeçalho do bilhete de amor. Meu nome no título de eleitor. Meu nome na lista dos aprovados do vestibular. Meu nome no primeiro livro. Meu nome na casa própria. Meu nome no convite de casamento. Meu nome na conta de luz.

Mas o lugar mais importante de todos e o que mais esperei para colocar meu nome, e que hoje não faz nenhum sentido, era a lista telefônica. Antes do Google e dos sistemas de busca, só havia um jeito de encontrar alguém: consultando aquele calhamaço dividido entre as páginas cinza (residencial) e as amarelas (comercial). Não importava que a letra fosse de formiga, de bíblia, imperceptível, que dependia do corrimão do indicador. Quem ali constava desfrutava de respeito, de valor, de dote social. Ter o nome na lista telefônica era a prova incontestável de que havia ingressado na vida adulta. O momento que entrei como proprietário de endereço e telefone não me aguentei de contentamento: Nejar, Fabrício. Página 879 de Porto Alegre. Qualquer trote já identificava como resultado da publicação. Melhorou meu riso no trabalho. Melhorou meu desempenho sexual. Cresceu bigode nas vogais.

Fui mostrar ao meu avô que apareceu mais um Nejar na Lista Telefônica. O décimo primeiro, sublinhei a linha para não me confundir na hora de procurar.

— Olha, vô, aqui! Estou famoso.
— Agora você está igual a todos.
— Ei, por quê?
— Gente comum tem seu nome na lista telefônica, gente famosa tira.

O Senhor repudia balanças desonestas, mas os pesos exatos lhe dão prazer.

Provérbios 11:1

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


Quem anda no trilho é trem de ferro.
Sou água que corre entre pedras.
Liberdade caça jeito.


Segundo a 'profecia Maia', o mundo acabará no dia 21 de Dezembro.
A pergunta é: Para você, quantas vezes o mundo acabou?

Ainda que um copo d’água com açúcar ou um bom porre o tenha feito perceber que era pura frescura, aposto que pelo menos uma vez na vida você já teve essa sensação, a terrível sensação de fim do mundo, um acidente ou qualquer baque doloroso o suficiente para tirá-lo do eixo.
Quem nunca?
A perda do emprego, do amor ou do cartão do banco; a morte de alguém importante.

A vida é um constante abrir e fechar de ciclos e exagerando um pouquinho, dá para dizer que ao longo da estrada a gente vê o mundo acabar (e recomeçar) algumas vezes.

A gente morre e renasce a cada queda – eis a (des)graça de existir.

Esqueça aquela história de cultivar o jardim para contar com as borboletas.
O segredo, o grande segredo, é aprender a ressurgir cada vez que seu mundo acabar. 

(Flah Queiroz)

- Doutor, estou com taquicardia e sinto calafrios pelo corpo.
- Isso acontece sempre?
- Não, só em alguns momentos.
- E quais são as ocasiões?
- Antigamente, era toda vez que o celular tocava.
- Certo. Demorava para passar?
- Passava rápido. Eu tomava os remédios com certa frequência.
- E por que você parou com eles?
- Minha fonte secou.
- A fonte secou?
- Eu era viciada, estou em reabilitação.
- Viciada?
- Sim, meu vício não era ilícito. Mas é uma droga.
- E qual era o seu vicío?
- Eu era viciada naquele sorriso. Naqueles olhos... Naquela voz...
- E o que aconteceu?
- A endorfina e a dopamina foram embora. Procurei usar um genérico, até mesmo um similar, mas não fizeram o mesmo efeito.
- Foram embora? Como?
- Numa noite de sexta feira cinzenta. Tempo abafado. Primavera. Lembro-me com tristeza daquele dia. A partir de então, entrei em crise. Crise de abstinência.
- Tudo bem. Mas ainda não entendi tudo isso.
- Doutor, quando ele foi embora, perdi minha alegria.
- Huummm... seu diagnóstico é fácil: paixonite aguda do miocárdio. Isso é muito comum.
(...)

Aline Machado

Os tesouros de origem desonesta não servem para nada, mas a retidão livra da morte.

Provérbios 10:2

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Giselda confidenciou a Martô, sua melhor amiga, que nada no noticiário recente a abalara mais do que a volta à moda da cueca samba-canção.

- Não sei se você entende - disse Giselda.
- Eu entendo - disse Martô.
- O Júlio usa cueca samba-canção - disse Giselda.
- Eu sei - disse Martô.
- E isso me dava uma certa segurança. Entende?

Martô entendia. Era o fim da tarde. As duas tinham tirado os sapatos e estavam com os pés sobre a mesinha de centro, na sala da Giselda. Jovens senhoras.

- Bobagem, claro - disse Giselda. - Mas, entende?
- Perfeitamente - disse Martô.
- Eram, assim, como um símbolo. As cuecas do Júlio. De estabilidade. De bom senso. Até de uma certa resignação diante da vida. Mas no bom sentido.
- Claro.
- Imagina se um dia ele me aparece de Zorba. De sunga. Colorida! Sinal de quê?
- Outra.
- Isso. Ou outras.
- Podes crer.
- Mas não. Ele insistia nas cuecas samba-canção. Até tinha horror a novas. Queria sempre as mesmas. Rasgadas, não importava. Você podia desconfiar de alguma coisa de um homem assim? Vou dizer uma coisa. Cueca é caráter.
- Quem vê cueca vê coração.
- Você acha que eu estou brincando?
- O que é isso? Eu estou concordando com você.
- Eu insistia para ele trocar de cuecas. Mas no fundo, no fundo, gostava que ele fosse assim. E agora isso...
- O quê?
- As cuecas samba-canção na moda de novo. Entende?
- Anrã.
- Ele não vai mais ter vergonha de tirar as calças na frente de outra.
- Ou outras.
- Ou outras. Pode até dizer que não tem culpa. Não foi ele que mudou, foi a moda. Continua o mesmo homem sério e conservador. Não foi ele que resolveu sair para a vida, a vida é que veio atrás dele. Vou ter que ficar de olho. Agora sim. Olho vivo. Ou eu estou exagerando?
- Não, não.

Depois que Martô saiu, Giselda foi tratar do jantar das crianças e do Júlio. Só horas mais tarde, vendo o filme na TV com o Júlio roncando ao seu lado, repassando a conversa daquela tarde, é que se deu conta. Telefonou para a Martô.

- Martô?
- O que é, Gi?
- Quando eu disse que o Júlio só usa cueca samba-canção...
- Sim?
- O que é que você quis dizer com "eu sei"?!

A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo o que possuis adquire o entendimento.
Ouve, filho meu, e aceita as minhas palavras, para que se multipliquem os anos da tua vida.
Eu te ensinei o caminho da sabedoria; guiei-te pelas veredas da retidão.
Quando andares, não se embaraçarão os teus passos; e se correres, não tropeçarás.
Apega-te à instrução e não a largues; guarda-a, porque ela é a tua vida.
Não entres na vereda dos ímpios, nem andes pelo caminho dos maus.
Evita-o, não passes por ele; desvia-te dele e passa de largo.
...
Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.
O caminho dos ímpios é como a escuridão: não sabem eles em que tropeçam.
Filho meu, atenta para as minhas palavras; inclina o teu ouvido às minhas instruções.
Não se apartem elas de diante dos teus olhos; guarda-as dentro do teu coração, porque são vida para os que as encontram, e saúde para todo o seu corpo.
Guarda com toda a diligência o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.
Desvia de ti a malignidade da boca, e alonga de ti a perversidade dos lábios.
Dirijam-se os teus olhos para a frente, e olhem as tuas pálpebras diretamente diante de ti.
Pondera a vereda de teus pés, e serão seguros todos os teus caminhos.
Não declines nem para a direita nem para a esquerda; retira o teu pé do mal.

Provérbios 7:4-27

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Especial 'Dia da criança'


Querida, vou jogar futebol com os amigos. Vou chegar por volta das 11, mas se eu demorar, vê se não faz como da outra vez, em que você se trancou dentro do quarto e deixou minha escova de dentes no corredor, com as cerdas enterradas no carpete.
:(

Primeiro a gente passa na casa da minha mãe, e depois, se der tempo, a gente passa na sua. Se não for assim nem saio de casa.
:(

Você tem que ligar o secador bem na hora do documentário sobre elefantes asiáticos? Semana passada você fez a mesma coisa durante os treinos da fórmula Indy. Por que você não seca esses cabelos na hora da Marília Gabriela, hein?
:(

Você fingiu orgasmo, né? Achei você meio diferente hoje. Você fez um teatrinho, não fez? Pode contar amor, eu não vou brigar com você. EU SABIA, SUA FALSA!!!
:(

Sidney, não gosto quando você diz que me ama enquanto lê o jornal. Será que você não pode dizer isso olhando nos meus olhos? Forçado, por quê? Ora, forçado. Que mania você tem de ser espontâneo. Diz, Sidney. Se você não disser eu vou achar que você não me ama. Olhando pra mim, Sidney, olhando pra mim!
:(

Vem cá, dá uma espiada nessa cama. O meu lado tá todo arrumadinho e no seu parece que passou um tornado essa noite. Você se mexe muito durante o sono, será que não dá para dormir parado? Ah, você não pode controlar o que faz dormindo... Sei. Isso lá é argumento.
:(

Você simplesmente não notou que eu mudei a cor do esmalte hoje.
:(

Você não quer que eu vá junto no bar do Artur porque esse cara dá em cima de você, é por isso que você só vai lá com suas amigas, não é? Ele te dá desconto, ao menos?
:(

Por que você fechou o computador bem na hora que estavam entrando uns e-mails? Abre aí, abre aí.
:(

De quem são essas fitas pornôs escondidas dentro do forno? Que empregada, Beto? A gente não tem empregada.
:(

Quem também é chegado a uma criancice bota o dedo a-qui!!!
\º/

Sua majestade, a criança


Tem se falado muito na falta de limites das crianças de hoje.
A garotada manda e desmanda nos pais e estes, sentindo-se culpados pelo pouco tempo que ficam em casa, aceitam a troca de hierarquia — hoje, os adultos é que recebem ordens e reprimendas, e não demora serão colocados de castigo.

Segundo os pedagogos, precisamos voltar a dizer não para a pirralhada.
É a ausência do não que faz com que meninas saiam de madrugada sem avisar para onde estão indo, garotos peguem o carro do pai sem ter habilitação e todos sejam estimulados a consumir descontroladamente, a não dar explicações e a viver sem custódia.
Mas onde encontrar energia para discutir com filho?
Pai e mãe se jogam no sofá e pensam: “Façam o que bem entenderem, desde que nos deixem quietos vendo a novela.”

Alguns adultos defendem-se dizendo que é impossível dar limites, vigiar e orientar, tendo que sair de manhã para o batente e voltar à noite demolidos pelo cansaço.
Compreendo, é complicado mesmo.
Se existem uma liberalidade e uma agressividade maiores hoje entre as crianças, é claro que o fato de as mulheres terem entrado no mercado de trabalho e deixado em aberto o posto de rainhas do lar tem algo a ver com isso. Mas nem me passa pela cabeça estimular um meia-volta, volver.
A sociedade avançou com a participação das mulheres e esse é um caminho sem retorno.
O que compromete o destino de uma criança é não ter sido amada. E muitas não foram, mesmo com os pais por perto.

A falta de amor é a origem de grande parte das neuroses, psicoses e desvios de conduta.
Uma criança que não se sentiu amada pode cometer erros de avaliação sobre si própria e cometer desvarios para alcançar uma autoestima que está sempre fora de alcance.

Não adianta o pai e a mãe passarem a mão na cabeça do filhote de vez em quando e repetir um “eu te amo” automático.
A criança precisa se sentir amada de verdade, e as demonstrações não se dão apenas com beijos e abraços, e tampouco com proibições sem justa causa.
O “não deixo, não pode” tem que ser argumentado. “Não deixo e não pode porque...”
Tem que gastar o latim. Explicar. E prestar atenção no filho, controlar seus hábitos, perceber seus silêncios, demonstrar interesse pelo o que ele faz, pelo o que ele pensa, quem são seus amigos, quais suas aptidões, do que ele se ressente, o que está calando, por que está chorando, se sua rebeldia é uma maneira de pedir socorro, se está precisando conversar, se o que tem sentido é demasiado pesado pra ele, se precisa repartir suas dores, se está sendo bem acolhido pela escola, se não estão exigindo dele mais do que ele pode dar, se não foram transferidas responsabilidades para ele que são incompatíveis com sua idade, se há como entender e aceitar seus desejos, se ele está arriscando a própria vida e precisa de freio, se estamos deixando ele sonhar alto demais, se estamos induzindo que ele sonhe de menos, se ele está recebendo os estímulos certos ou desenvolvendo preconceitos generalizados.
Dá uma trabalheira, mas isso é amar.

Algumas crianças são criadas por empregadas, ou seja, são terceirizadas e depois o psiquiatra que junte os cacos.
Com amor, ao contrário, toda criança sente-se ilustríssima, majestade, vossa excelência, sem fazer mau uso do cargo.
Será confiante e segura como um rei, não se violentará para agradar os outros (usando drogas ou imitando o que os outros fazem para ser aceita num grupo).
Será o que é, afinada com o próprio eixo.

E se transformará num adulto bem resolvido, porque a lembrança da infância terá deixado nela a dimensão da importância que ela tem.

Crescendo foi ganhando espaço
Pulou do meu braço
Nasceu outro dia e já quer ir pro chão
Já fala mãe, já fala pai
Já não suja na cama
Não quer mais chupeta
Já come feijão
E posso até ver os meus traços nos primeiros passos
Tropeça e seguro e não deixo cair
Se cai, levanta, continua
A porta da rua fechada
Criança não deixo sair
Da linha
Reflexo no espelho leva à emoção
A lágrima ameaça do olho cair
Semente fecundou
Já começa a existir
É cria, criatura e criador
Cuida de quem me cuidou
Pega na minha mão e guia


Cria - Maria Rita
Composição : Serginho Meriti/Cesar Belieny

- Deixem que as crianças venham a mim e não proíbam que elas façam isso, pois o Reino de Deus é das pessoas que são como estas crianças.
Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem não receber o Reino de Deus como uma criança nunca entrará nele.

(Lucas 18:16-17)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Dos filhos do anjo torto...


Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
...
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Esse poema tem gerado 'filhos e netos' de Drummond em diferentes gerações,
na poesia e na música popular.
O anjo torto dele, fez germinar coisas geniais:
Para o tropicalista Torquato Neto é um anjo hippie.
Na visão de Chico Buarque, o anjo virou um querubim chato e safado.
Para a mineira Adélia Prado, ele é esbelto e toca trombeta.

Conclusão: Deus pode ser brasileiro, mas o anjo da guarda da gente é torto,
safado, chato e toca trombeta.
E mais: autoritário, ele decreta.
(Carlos Machado)

Let's play that

Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes

(Do CD Torquato Neto - Todo Dia É Dia D)

Quando nasci veio um anjo safado
o chato do querubim
e decretou que eu estava predestinado
a ser errado assim

Já de saída a minha estrada entortou
mas vou até o fim

(Até o fim - Chico Buarque)

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

O homem que comete adultério não tem juízo;
todo aquele que assim procede a si mesmo se destrói.

Provérbios 6:32

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Do túnel do tempo


Eu sou de um tempo distante, o chamado "Tempo do Onça", tempo em que qualquer máquina era uma geringonça...
Sou do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, que aos domingos a gente ia à missa...
Trago lembranças bacanas das Casas Pernambucanas, das farras, no bonde aberto, dos chapéus da Casa Alberto.
Tempo em que adultério era crime e o Flamengo... ainda tinha time.
Do busca-pé, do rojão, sou do tempo do xarope São João!

Venho do tempo em que menino só gostava de menina, tempo do confete e serpentina nas festas de Carnaval do Sírio, do Monte Líbano, dos bailes do Municipal.
Sou do tempo do bicarbonato, do lançamento do Sonrisal.
Sou do tempo em que futebol era para macho, em que ninguém sossegava o facho nos bailes de formatura, dos play-boys botando banca.
Tempo que o telefone era preto e a geladeira era branca!
Sou do tempo em que se confiava nas companhias aéreas, em que a penicilina curava as doenças venéreas!
Sou do tempo da Rádio Nacional, do lança perfume no Carnaval, do calouro na hora da peneira.
Tempo em que "pó", era o mesmo que poeira...
Tempo do terno risca de giz, da calça de boca apertada, da Lapa de Madame Satã, de poder ir torcer no Maracanã e lembrar da mãe do juiz...

Sou do tempo do Dói-Codi, do comigo-ninguém-pode, da ditadura envergonhada.
Sou do tempo em que "ficar" era não ir...
Tempo de permitir passeios à beira-mar.
Tempo de se curtir a vida sem medo de bala perdida, tempo de respeito pelos pais.
Enfim, sou de um tempo que não volta mais...

Sou do tempo da brilhantina, do laquê, da Glostora, do Gumex.
O correio não tinha Sedex o que vinha era telegrama trazendo uma má notícia...
Sou do tempo em que a polícia perseguia todo sambista que tivesse alguma fama.
Tempo em que mulher é que usava brinco, em que as portas não tinham trinco, e que se dizia "demorou", só pra quem chegasse atrasado...
As calças não perdiam o vinco.
Picada, era só na bunda, se aquela febre profunda não tivesse melhorado...
No meu tempo, coca era refrigerante e todo homem elegante abria a porta do carro.
Aceitava-se qualquer cigarro sem medo de ser um novo fato.
Só preço podia ser barato, "bicho" era só o animal.
"Cara", o rosto do pobre mortal...

Sou do tempo do tergal, do ban-lon, do terilene, da Emilinha e da Marlene no sucesso musical.
Sou do tempo do mocinho e o vilão com cara de mau, do reclame de fortificante do óleo de fígado de bacalhau.
Sou do tempo do coreto e da banda, do velho cigarro Yolanda vendido na venda da esquina...
Sou do tempo da estricnina, veneno tão poderoso!
Sou do tempo do leite de magnésia, do sagu, do fubá Mimoso, do fosfato que curava a amnésia.
Sou do tempo da cocoroca do tempo da Copa Roca que muita gente não viu.
Do progresso tão abrupto que todo mundo assistiu.
Porém: Político corrupto, o rato que sai da toca, ora!... esse, sempre existiu!...
Sou do tempo em que Benjor se chamava Jorge Bem, a carne do bife era acém, ração de cachorro era bofe.
No meu tempo, não havia estrogonofe.
Sou do tempo do tostão e do vintém, da zona com seus bordéis, programas de dez mil réis...
Sou do tempo da Cibalena e do Veramon, só não vi a revista Fon-fon.
Assisti filmes do Rin-tin-tin.
Sou do tempo da confeitaria Manon da magia, do pó de pirlimpimpim.
Colecionei estampas Eucalol, acompanhei o lançamento da Avon, tomei o fortificante Calcigenol.
Sou do tempo da PRK 30, do rádio tipo capelinha, dos contos da Carochinha, do remédio anunciado:
"Veja ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado...
Mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado!".

Sou do tempo da Cafiaspirina, da compressa de antiflugestina, do bálsamo de benguê...
Fui leitor do almanaque Tico-Tico, tempo em que trabalhador ficava rico...
Sou do tempo da Casa Cave do taco com cera Parquetina dos discursos do Presidente Gegê.
Sou do tempo do óleo de linhaça, andei na Maria Fumaça, li muito a revista Cruzeiro, escrevi com caneta-tinteiro, separei o joio do trigo, vi muito vigarista na cadeia...
Só não fui garçom da Santa-Ceia.
Também, não sou assim tão antigo!...

(Carlos Alberto L. Andrade)

Meu filho, obedeça aos mandamentos de seu pai e não abandone o ensino de sua mãe.
Amarre-os sempre junto ao coração; ate-os ao redor do pescoço.
Quando você andar, eles o guiarão; quando dormir, o estarão protegendo; quando acordar, falarão com você.
Pois o mandamento é lâmpada, a instrução é luz, e as advertências da disciplina são o caminho que conduz à vida.

Provérbios 6:20-23

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Dos sites de relacionamento


Botou foto de quando era criança?
Ou vestida e maquiada prum casamento?
Ou estilizada pelo Instagram?
Ou de perfil contra a luz?
É feia.

Do racismo


- Escuta aqui, ó criôlo…

- O que foi?

- Você andou dizendo por aí que no Brasil existe racismo.

- E não existe?

- Isso é negrice sua. E eu que sempre te considerei um negro de alma branca… É, não adianta. Negro quando não faz na entrada…

- Mas aqui existe racismo.

- Existe nada. Vocês têm toda a liberdade, têm tudo o que gostam. Têm carnaval, têm futebol, têm melancia… E emprego é o que não falta. Lá em casa, por exemplo, estão precisando de empregada. Pra ser lixeiro, pra abrir buraco, ninguém se habilita.
Agora, pra uma cachacinha e um baile estão sempre prontos. Raça de safados! E ainda se queixam!

- Eu insisto, aqui tem racismo.

- Então prova, Beiçola. Prova. Eu alguma vez te virei a cara? Naquela vez que te encontrei conversando com a minha irmã, não te pedi com toda a educação que não aparecesse mais na nossa rua? Hein, tição? Quem apanhou de toda a família foi a minha irmã. Vais dizer que nós temos preconceito contra branco?

- Não, mas…

- Eu expliquei lá em casa que você não fez por mal, que não tinha confundido a menina com alguma empregadoza de cabelo ruim, não, que foi só um engano porque negro é burro mesmo. Fui teu amigão. Isso é racismo?

- Eu sei, mas…

- Onde é que está o racismo, então? Fala, Macaco.

- É que outro dia eu quis entrar de sócio num clube e não me deixaram.

- Bom, mas pera um pouquinho. Aí também já é demais. Vocês não têm clubes de vocês? Vão querer entrar nos nossos também? Pera um pouquinho.

- Mas isso é racismo.

- Racismo coisa nenhuma! Racismo é quando a gente faz diferença entre as pessoas por causa da cor da pele, como nos Estados Unidos. É uma coisa completamente diferente. Nós estamos falando do crioléu começar a freqüentar clube de branco, assim sem mais nem menos. Nadar na mesma piscina e tudo.

- Sim, mas…

- Não senhor. Eu, por acaso, quero entrar nos clubes de vocês? Deus me livre.

- Pois é, mas…

- Não, tem paciência. Eu não faço diferença entre negro e branco, pra mim é tudo igual. Agora, eles lá e eu aqui. Quer dizer, há um limite.

- Pois então. O …

- Você precisa aprender qual é o seu lugar, só isso.

- Mas…

- E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.

- É, mas…

- E enquanto o negro conhecer o lugar dele, nunca vai haver racismo no Brasil. Está entendendo? Nunca. Aqui existe o diálogo.

- Sim, mas…

- E agora chega, você está ficando impertinente. Bate um samba aí que é isso que tu faz bem.

Era uma vez um gato chinês
que me chamou para comer um frango xadrez
no boteco onde ele era freguês

E eu, como gata vadia
topei porque sempre podia
e fiz dele meu prato do dia

Há seis coisas que o Senhor odeia, e a sétima, ele detesta:
olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que traça planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal, a testemunha falsa que espalha mentiras e aquele que provoca discórdia entre irmãos.

Provérbios 6:16-19

segunda-feira, 8 de outubro de 2012


Só telefonei para lhe dizer que depois de beijá-lo e antes de novamente beijá-lo é o momento mais lindo do mundo.

É claro que eu gosto de você.
Nem é preciso perguntar.

Das manias de gato


É aquela velha história.
Amor, pra mim, só dura em liberdade. Nasci pra ser livre e – quem quiser – que me aceite assim.
Tenho um coração que quase me engole, uma força que nunca me deixa e uma rebeldia que às vezes me cega.
Sou guerreira. Sou druida. Sou filha da lua.
Quero sempre o voo mais alto, a vista mais bonita, o beijo mais doce.
Tenho um jeito de viver selvagem, mas sou mansa com quem merecer.
Não gosto de café morno, de conversa mole, nem de noite sem estrela.
Sou bem mais feliz que triste, mas às vezes fico distante. E me perco em mim como se não houvesse começo nem fim nessa coisa de pensar e achar explicação pra vida.
Explicação mesmo, eu sei: não há. E me agarro no meu sentir porque, no fundo, só meu coração sabe. E esse mesmo coração que me guia e não quer grades nem cobranças, às vezes me deixa sem rumo, com uma interrogação bem no meio da frase: O que eu quero mesmo?

Por isso, eu te peço (de um jeito meio sem-vergonha, que é assim que eu costumo ser): se eu gostar de você, tenha a gentileza de não me deixar tão solta.
Não me pergunte aonde vou, mas me peça pra voltar.
Sou fácil de ler, mas não tente descobrir por que o mesmo refrão insiste em tocar tanto. Se eu gostar de você, tenha a delicadeza de também gostar de mim.
E me deixe ser, assim, exatamente como eu sou. Meio gato, meio gente.
Desconfiada. E independente. E adoradora de todos os luxos e lixos do mundo.
Quer me prender? Nem tente.
Quer me adorar? A escolha é sua, meu amigo, vá em frente!
Gosto de pensar assim: se a gente faz o que manda o coração, lá na frente, tudo se explica.
Por isso, faço a minha sorte.
Sou fiel ao que sinto.
Aceito feliz quem eu sou.
Não acho graça em quem não acha graça.
Acho chato quem não se contradiz.
Às vezes desejo mal.
Sou humana.
Sou quase normal.
Não ligo se gostarem de mim em partes.
Mas desejo que eu me aceite por inteiro.
Não sou perfeita, não sou previsível.
Sou uma louca.
Admiro grandes qualidades.
Mas gosto mesmo dos pequenos defeitos.
São eles que nos fazem grande.
Que nos fazem fortes.
Que nos fazem acordar.
Acho bonito quem tem orgulho de ser gente.
Porque não é nada fácil, eu sei.
Por isso continuo princesa.
Continuo guerreira.
Continuo na lua.
Continuo na luta.
No meio do caos que anda o mundo, aceitar é ser feliz.