"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



sábado, 30 de agosto de 2014

o começo do fim


Daqui a pouco o ano vai dobrar em uma esquina que eu gosto. Mais para a frente virá uma rua comprida, arborizada, cheia de flores e folhas de um verde vivo. Um colorido sem fim misturado com os mais variados cheiros e sons de pássaros cantarolando, borboletas e abelhas passeando livres. 

Ali na outra rua já está o mês que eu morro de carinho e amor: setembro
Sei que ele vai chegar apressado, me aquecendo, brindando comigo, fazendo festa, avisando que estou mais madura, inteira, precisa. Também vai trazer na mala um megafone, avisando que o fim do ano se aproxima e traz consigo todas as crises existenciais possíveis. No meio delas a pergunta que nunca dorme ou tira férias: será que fiz o que precisava ser feito? 

Logo à frente, no outro quarteirão, já está outubro.
Por enquanto pode parecer loucura eu já tocar no nome dele, mas nesta época tudo passa num piscar de olhos.
Outubro corre mais que maratonista e logo cede o lugar ao querido novembro. O mês das programações, telefonemas, planejamentos, compromissos e decisões. 

Ele mal chega e já sai de mansinho, dando espaço ao grande astro do ano: dezembro. O último mês do ano, aquele que muitos amam e tantos outros detestam. O mês do encontro, da reaproximação, dos votos de felicidade e paz, do esquecimento e do perdão, da amizade e da confraternização, da solidariedade e da caridade, da vontade de estar junto e de distribuir os mais gostosos abraços. O mês de reavaliar a vida, os planos, os passos. O mês de relembrar o que fez feliz e o que fez chorar. O mês de deixar para lá o que não mais importa e trazer para perto o que sempre faz e fez bem. O mês de se emocionar, se deixar levar e ter a coragem necessária para iniciar uma nova jornada. O mês de resolver como será o ano seguinte. O mês em que todos nós temos pelo menos um pouco de esperança em um futuro que, botamos fé, será mais bonito.



Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Mateus 11:28-30

quinta-feira, 28 de agosto de 2014


o quase


O candidato à Presidência Eduardo Campos estava no auge da vida pessoal e política. Desapareceu no ar, deixando filhos jovens, uma interrogação na campanha presidencial e um sem-número de piadas de mau gosto. Meu primo Renato seguia reconstruindo a vida com seu entusiasmo quando um infarto deixou o gosto amargo do quase. Seu filho mais novo tinha 4 anos. A esposa terá de refazer não o caminho, mas o destino: o lugar para onde caminhava deixou de existir.

O pai do meu filho foi interrompido em pleno gerúndio. Não teve tempo para ver Francisco além da barriga. 

Quase foi o melhor pai do mundo.

A motorista do ônibus mostrava o trabalho à filha pela primeira vez quando um viaduto lhe caiu sobre a cabeça. Assim, feito piano de desenho animado. E fomos torcer pelo Brasil, cuja derrota não foi um quase.

E o cinema acordou sem Robin Williams. Ele, sim, preferiu não acordar mais: uniu-se aos poetas mortos.

O improvável está por toda parte. Os que o respeitam, nem tanto. Tem morrido gente que nunca morreu antes, diria a piada. Porque, isso, sabemos fazer bem. E, enquanto exércitos de vidas seguem às gargalhadas, outras restam devastadas.

Diante do improvável que insiste, alguns persistem em prever a vida. Cultivam cautela, medo e lugares-comuns como quem desbrava um caminho inédito para a imortalidade. Para não engolir um quase sem aviso, revestem-se de quase-escudos, enchendo o tempo de sorrisos vazios. Há os que vivem para os planos ou lembranças. E há os que se atrevem a viver - são loucos, onde estão com a cabeça?

O brasileiro que não desiste nunca é o fantasma do quase assombrando nossa vida. Palavra que nada diz, nada faz, nada conclui. Preguiçosa e sem ambições, mata aos poucos e talvez sem dor. De quase em quase, vamos todos chegando ao final - não por ordem de chegada.

Enquanto isso, felicidade é palavra arisca: vem e vai quando bem entende. É preciso se abrir para ela: fazer a cama, perfumar a casa, afofar o sofá. Pode se esconder sob a poeira da estrada, apertada entre dois dentes ou escorrendo no suor das costas. Não se orna de certezas nem de garantias. Não anseia pelo que vem depois. Seu tempo é preciso e suave. Sua eternidade cabe num segundo.

Para não morrer de quase, há que se jogar inteiro: olhar com a sede da primeira vez e o zelo da última. Cultivar cócegas de medo como quem frequenta montanha-russa. Comprar loucurinhas no supermercado. Surpreender o previsível. Abandonar velhas convicções como quem sai para comprar cigarros. Ter certezas como se não fossem. Abanar as brigas com sopros de riso. Chorar, muitas vezes. 

Beijar o tempo. Viver a vida no infinitivo. Para receber o ponto final sem sofrer a saudade do que não foi.

[ publicado na Veja BH ]

Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados.

2 Coríntios 4:8

quarta-feira, 27 de agosto de 2014


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

meu candidato a Presidente


Ele, ou ela, tem entre 40 e 60 anos, talvez uma pouco menos ou um pouco mais, a chamada meia-idade, em que já se fizeram algumas besteiras e por conta delas sabe-se o que vale a pena e o que não vale nessa vida.

Nasceu no Norte ou no Sul, não importa. Desde que tenha estudado, e se foi em escola pública ou privada, também não importa, desde que tenha lido muito na juventude e mantido o hábito até hoje, e que através da leitura tenha descoberto que o mundo é injusto, mas não está estragado para sempre, que um pouco de idealismo é necessário, mas só um pouco, e que coisas como bom senso e sensibilidade não precisam sobreviver apenas na ficção.

Ele, ou ela, é prático, objetivo e bem-humorado, mas não é idiota. Está interessado em ter parceiros que governem como quem opera, como quem advoga, como quem canta, como quem leciona: com profissionalismo e voltado para o bem do outro, e que o dinheiro seja um pagamento pelos serviços prestados, não um meio ilícito de enriquecer. Alianças, ele quer fazer com todos os setores da sociedade, e basta, e já é muito.

Ele, ou ela, sabe comunicar-se porque seu ofício exige isso, mas comunicar-se é dizer o que pensa e o que faz, e como faz, e por que faz, e se ele possui ou não carisma, é uma questão de sorte, se calhar até tem. Mas não é bonito nem feio: é inteligente. Não é comunista nem neoliberal: é sensato. Não é coronelista nem ex-estudante de Harvard: é honesto.

Meu candidato, ou candidata, é casado, ou solteiro, ou ajuntado, ou gay, pode ter filhos ou não; problema dele. Paga os impostos em dia, tem orgulho suficiente para zelar por seu currículo, possui um projeto realista e bem traçado, e não está muito interessado em ser moderno, mas em ser útil.

Meu candidato, ou candidata, é católico, evangélico, ateu, budista, não sei, não é da minha conta. É avançado quando se trata de melhorar as condições de vida das minorias estigmatizadas e das maiorias excluídas, e é retrógrado em questão de finanças; só gasta o que tem em caixa, e não tem duas.

Ele, ou ela, é uma pessoa que tem idéias praticáveis, que aceita as boas sugestões vindas de outros partidos, que não tem vergonha de não ser malandro e sim vergonha de pertencer a uma classe tão desprovida de credibilidade, e tenta reverter isso cumprindo sua missão, que é curta, e sendo curta ele concentra nela todos os seus esforços.

Pronto. Abri meu voto.

falha na comunicação



Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam.

(Êxodo 20:3-5)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014


Iazul é o título de uma das mais belas lendas de Malba Tahan, pseudônimo do escritor brasileiro Júlio César de Melo e Sousa, que transformou matemática em literatura e escreveu contos encantadores sobre países que nunca conheceu. De acordo com a história, a palavra Iazul estava gravada num anel de ouro, encontrado por um certo rei árabe nos despojos do inimigo vencido. Sem entender o seu significado, ele chamou o sábio do reino para esclarecer o mistério. O homem examinou o anel demoradamente e explicou que o objeto era mágico, exatamente por conter a palavra mais poderosa do vocabulário persa:

– Essa palavra tem o dom de nos tornar alegres quando estamos tristes, e de moderar nossas alegrias nos momentos de extrema felicidade e ventura – afirmou.

Antes de colocar o anel no dedo, o rei ainda quis saber qual era a tradução exata da tal palavrinha. Vamos compartilhar esta revelação no final deste texto. Nestes dias em que o céu da ilusão futebolística parece ter desabado sobre nossas cabeças, talvez seja oportuno refletir sobre uma palavra que não é consoladora nem hipócrita. É, isto sim, a expressão de uma realidade que nem sempre conseguimos ver.

Demasiadamente humano isso. Nossa dor sempre vai parecer a maior dor do mundo, porque é nossa, intransferível, ninguém poderá senti-la em nosso lugar. Somos passionais, achamos que nossas tristezas e decepções vão durar para sempre, assim como muitas vezes nos enganamos em relação às nossas alegrias e conquistas, sem considerar que ambas são finitas.

Também temos uma tendência a transferir aos outros a responsabilidade por nossas angústias, quando na verdade somos nós que as alimentamos. O jogo da vida ninguém joga por nós. Neste, queiramos ou não, temos que nos assumir como protagonistas, tomar decisões, fazer escolhas, construir o nosso próprio destino.

O anel com a palavra mágica só funciona porque nos faz entender que somos seres em constante mutação, que nada é eterno, nem o planeta, nem o sol, nem o universo e muito menos os seres humanos e os seus sentimentos.

Iazul significa simplesmente “isso passa”.

__Nílson Souza

não vou deixar de ser feliz...

... para me proteger da inveja.


Meu pai me alertou hoje de manhã:
- Filho, não fique dizendo que está feliz, não mostre sua namorada, não mostre seu sucesso, olha o olho gordo!

Assim não descrevemos nossa alegria por medo da inveja.
Não apresentamos quem a gente ama, não contamos os nossos melhores momentos, por medo da inveja.
Não nos declaramos aos amigos, para a família, não ficamos rindo à toa por medo da inveja.
Não falamos que transamos a noite inteira por medo da inveja.
Não espalhamos as boas notícias de nossa vida por medo da inveja.
Não contamos sobre uma promoção aos colegas por medo da inveja.
Não exibimos roupas e móveis novos por medo da inveja.
Por medo da inveja, a gente se esconde e se protege.

Por quê?
Por que temos que guardar o que é mais precioso e revelar o que não tem valor?
Para ninguém roubar nossos sentimentos?

Não está errado deixar de viver pela inveja?

A tristeza a gente faz questão de expor. Já disfarçamos o contentamento para não esnobar.

Pode me invejar. A inveja envelhece.



Só tu és o Senhor. Fizeste os céus, e os mais altos céus, e tudo o que neles há, a terra e tudo o que nela existe, os mares e tudo o que neles existe. Tu deste vida a todos os seres, e os exércitos dos céus te adoram.

Neemias 9:6

terça-feira, 19 de agosto de 2014

na terra do “se”


Se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar antes a si próprio.
Se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece.
Se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal.
Se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de devotos.
Se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui o ciúme e a posse) tem 100% de chance de gerar boas reações e resultados positivos.
Se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva.
Se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismo.
Se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.
Se todos lessem bons livros.
Se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro do armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida.
Se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar.
Se mudássemos o foco e concluíssemos que a infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.
Se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.
Se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário.
Se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida.
Se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.
Se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.
Se.

#comando


Bruxa malvada
Décima terceira fada
Alguém tinha de ser
Se não fosse a bruxa, coitada!
Nada ia acontecer,
A história nem começaria
Tudo, como estava, permaneceria.

Mas a fada rejeitada
Tinha a chave de toda sorte
E condenou a princesa à morte.
Bruxa alguém haveria de ser
E cumprir sua missão
Fazer o mal agir
E promover evolução
Algo tem de destruir
Para a vida fluir,
Se renovar.

Desde o princípio já havia
O que dela dependeria,
Salvar o reino de uma vida estagnada
Por causa daquela que foi rejeitada.
A princesa precisava a bruxa encontrar.
Sem que adormecesse, não poderia despertar.
Sem o mal o bem não venceria
E a princesa ainda estaria
No mesmo lugar.


Faze-me ouvir, pela manhã, da tua graça, 
pois em ti confio... porque a ti elevo a minha alma.

Sl 143.8

quinta-feira, 14 de agosto de 2014


“quase” Veríssimo...


Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. 

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.


O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. 

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

__Sarah Westphal

Dr. Patch Adams


“O amor é contagioso”

RIP Robin Williams

de mãe para filha


Minha querida menina, no dia que você perceber que estou envelhecendo, eu peço a você para ser paciente, mas acima de tudo, tentar entender pelo o que estarei passando.

Se quando conversarmos, eu repetir a mesma coisa dezenas de vezes, não me interrompa dizendo: “Você disse a mesma coisa um minuto atrás”. Apenas ouça, por favor. Tente se lembrar das vezes quando você era uma criança e eu li a mesma história noite após noite até você dormir.

Quando eu não quiser tomar banho, não se zangue e não me encabule.

Lembra de quando você era criança eu tinha que correr atrás de você dando desculpas e tentando colocar você no banho?

Quando você perceber que tenho dificuldades com novas tecnologias, me dê tempo para aprender e não me olhe daquele jeito... lembre-se, querida, de como eu pacientemente ensinei a você muitas coisas, como comer direito, vestir-se, arrumar seu cabelo e lhe dar com os problemas da vida todos os dias...o dia que você ver que estou envelhecendo, eu lhe peço para ser paciente, mas acima de tudo, tentar entender pelo o que estarei passando.

Se eu ocasionalmente me perder em uma conversa, dê-me tempo para lembrar e se eu não conseguir, não fique nervosa, impaciente ou arrogante. Apenas lembre-se, em seu coração, que a coisa mais importante para mim é estar com você.

E quando eu envelhecer e minhas pernas não me permitirem andar tão rápido quanto antes, me dê sua mão da mesma maneira que eu lhe ofereci a minha em seus primeiros passos.

Quando este dia chegar, não se sinta triste. Apenas fique comigo e me entenda, enquanto termino minha vida com amor. Eu vou adorar e agradecer pelo tempo e alegria que compartilhamos. Com um sorriso e o imenso amor que sempre tive por você, eu apenas quero dizer, "eu te amo, minha querida filha”.


***
Pai querido, eu te agradeço por ter sido tão bondoso comigo, me dando uma mãe tão maravilhosa e tão querida. 
Obrigada pela vida dela. 


Sonda-me, ó Deus...vê se há em mim algum 
caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.

Salmo 139:23-24

terça-feira, 12 de agosto de 2014


Ontem foi dia do advogado.
Com atraso, parabéns!

das reflexões


O que me chateia no suicídio não é a morte, afinal, vamos todos morrer.

O que me chateia no suicídio é a tristeza profunda que antecedeu ao ato, a desesperada constatação que nem Deus e nem ninguém pode aliviar, a desilusão é tanta que acredita que acabar com a vida física seja a resolução dos problemas.

É a perda da confiança em todo mundo, o sentimento de solidão.

Me chateia a dolorosa perda do encantamento com a vida: quando o mundo não é mais um bom lugar para se viver...

Me chateia também a perda da chance de perceber quando isso acontece em alguém, a oportunidade não percebida de convencer que vale a pena tentar de novo. Que há coisas por se fazer, ou por si, ou por outros.



[ Encontrado na net
Achei reflexivo e decidi compartilhar ]

Acho que existe também outra forma de suicídio.
Suicídio também é o desperdício de vida, a falta de amor, o ódio... 
As pessoas morrem, mas não percebem que “se suicidaram” involuntariamente.


a casa do vizinho


Muitas situações provocam estranhamento, e uma das mais inquietantes é entrar no apartamento de um vizinho de prédio. Está ali a mesma sala, do mesmo tamanho que a sua, com a mesma orientação solar, a mesma disposição das paredes, a mesma cozinha, os mesmos quartos e banheiros mas nada, nada é o mesmo. 

A parede que na sua casa é cor de marfim, na do vizinho está pintada de vermelho, o que muda a atmosfera do ambiente, faz com que pareça menor. Você, que adora plantas e coleciona bugigangas trazidas de viagens, entra cautelosa naquele apartamento gêmeo ao seu, porém totalmente despojado de humanidade, mais parece um show room. 

Onde você tem um aparador lotado de porta-retratos, o vizinho colocou um espelho do teto ao chão. Você deixa um sofá branco e confortável virado em direção à sacada, enquanto seu vizinho têm duas chaise longue de aço cromado e couro preto que ficam paralelas uma a outra, voltadas para uma parede onde ele possui uma televisão do tamanho de um aquário do Sea World. 

Ao entrar na cozinha dele, imagina que está dentro de uma nave espacial, tudo é cinza chumbo e imaculadamente limpo, enquanto sua cozinha tem uma fruteira de papel machê trazida da Bahia e armários de madeira. 

O lavabo dele é revestido com um papel de parede austero e elegante, o seu se manteve como a construtora entregou, com azulejos sem graça, e você nem trocou a torneira original, simplesinha – a dele deve ter sido transplantada de algum castelo francês, é um colosso. Se você tivesse um lavabo igual, é lá que receberia as visitas. Aí você lembra que tem um igual, só que o seu parece um banheiro de rodoviária. 

Apartamento de vizinho causa desconforto porque inevitavelmente será mais bem cuidado ou mais desleixado que o seu, mais escuro ou mais claro, mais atraente ou mais insosso. A disposição dos móveis parece incorreta, tudo sugere uma grande transgressão, e você não se sente acolhido, tem vontade de sair correndo daquele lugar que foi concebido de um jeito estranho a fim de confrontar você. É isso. O apartamento do vizinho lembra que há outras formas de viver, enquanto você julgava que só havia uma: a sua. 

Cada um de nós concebe a vida de uma determinada forma, decora a seu modo os dias e noites, colore suas paixões com suavidade ou desespero, dá um revestimento aos seus traumas ou os deixa a nu, expõe suas esquisitices ou as joga para baixo do tapete. 

Cada um de nós recebe o mesmo espaço para existir e o arranja, inventa, traduz, transforma e recria de acordo com uma identidade que será sempre única, particular. Quando você tiver um ataque de petulância e achar que só o seu jeito de viver é que é certo, dê um pulo no apartamento do vizinho. E assombre-se com a quantidade de novos mundos que existem nas portas ao lado.


Pois todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.

— Lucas 14:11

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

pais e filhos


Era uma sessão de terapia. “Não tenho tempo para educar a minha filha”, ela disse. Um psicanalista ortodoxo tomaria essa deixa como um caminho para a exploração do inconsciente da cliente. Ali estava um fio solto no tecido da ansiedade materna. Era só puxar um fio... Culpa. Ansiedade e culpa nos levariam para os sinistros subterrâneos da alma. Mas eu nunca fui ortodoxo. Sempre caminhei ao contrário na religião, na psicanálise, na universidade, na política, o que me tem valido não poucas complicações. 

O fato é que eu tenho um lado bruto, igual àquele do Analista de Bagé. Não puxei o fio solto dela. Ofereci-lhe meu próprio fio. “Eu nunca eduquei meus filhos...”, eu disse. Ela fez uma pausa perplexa. Deve ter pensado: “Mas que psicanalista é esse que não educa os seus filhos?”. “Nunca educou seus filhos?”, perguntou. 

Respondi: “Não, nunca. Eu só vivi com eles”. 

Essa memória antiga saiu da sombra quando uma jornalista, que preparava um artigo dirigido aos pais, me perguntou: “Que conselho o senhor daria aos pais?”. 

Respondi: “Nenhum. Não dou conselhos. Apenas diria: a infância é muito curta. Muito mais cedo do que se imagina os filhos crescerão e baterão as asas. Já não nos darão ouvidos. Já não serão nossos. 

No curto tempo da infância há apenas uma coisa a ser feita: viver com eles, viver gostoso com eles. Sem currículo. A vida é o currículo. Vivendo juntos, pais e filhos aprendem. A coisa mais importante a ser aprendida nada tem a ver com informações. Conheço pessoas bem informadas que são idiotas perfeitos. O que se ensina é o espaço manso e curioso que é criado pela relação lúdica entre pais e filhos”.
Ensina-se um mundo! 

Vi, numa manhã de sábado, num parquinho, uma cena triste: um pai levara o filho para brincar. Com a mão esquerda empurrava o balanço. Com a mão direita segurava o jornal que estava lendo... Em poucos anos, sua mão esquerda estará vazia. Em compensação, ele terá duas mãos para segurar o jornal.


ao pais, com carinho!!!



Não tem como escapar, toda mulher deve realizar o exame de Papanicolau*.

Chamado pelos profissionais da saúde de “preventivo”, esse exame é a principal estratégia para detectar lesões precocemente, sua realização periódica permite que o diagnóstico seja feito cedo e reduza a mortalidade por câncer do colo do útero. 
Eu sei disso tudo, mas o fato é, vou ter que fazer o exame e isso requer alguma preparação psicológica. 

Ah, como nós mulheres somos ridículas. 
Segui todas as orientações da enfermeira: fiz as contas para não estar menstruada na data do exame, não fiz amorzinho nas últimas 48 horas, nem utilizei ducha vaginal, o que tendo em vista minha mania de limpeza, me deixa um tanto quanto indignada. Escolhi calcinha e top combinando e fui.

Cheguei no consultório para fazer o exame preventivo, com aquele jeitão de quem tá indo para um primeiro encontro com um cara de quem nunca foi a fim. 
Sorrisinho sem graça e roupa discreta, afinal se vou ficar pelada em frente a um estranho tenho que aparentar enquanto vestida ser uma moça de respeito.

Depois das perguntas de praxe, o médico e eu tivemos aquela conversa divertidíssima sobre os meus relacionamentos amorosos e sexuais prévios e então ele disse:  
- Ok, agora você pode entrar no banheiro para se despir e depois deitar na maca.

Entrei no banheiro e fiz o que ele pediu. 
Lá estava eu, vestindo apenas uma camisolinha ridícula aberta na frente e chinelinho de pano, me sentindo sem nenhuma dignidade. 
Deito na maca toda sem graça e só abro as pernas quando ele solicita. 

Ele então diz:  
- Agora vou te introduzir o “bico de pato”. 
Bico de pato é o nome popular do espéculo, aparelhinho utilizado para visualizar o colo do útero. 

Eu sei disso, eu conheço o aparelho. Não há nenhum motivo para ficar nervosa, eu podia ficar calma, eu podia relaxar. Mas não, não tem como você ouvir que alguém vai enfiar um “bico de pato” em você sem ficar nervosa. 
Nós mulheres somos românticas até neste momento. Vai enfiar um bico de pato em mim sem criar um clima, me oferecer uma bebida, me excitar ou querer saber do meu dia? 
Malditos homens, um homem como outro qualquer, insensível. 

O exame deve ter demorado cerca de 10 minutos, embora para mim pareceu a eternidade, mas sobrevivi.
E você? Não fique com medo. Pode até reclamar, mas faça! 

Andréa Nolli


*O Papanicolau é um exame ginecológico que serve para detectar alterações no colo do útero como inflamações, infecções ou doenças pré-cancerígenas e, se estas doenças são descobertas a tempo, há uma grande chance de o desenvolvimento do câncer ser combatido através de um tratamento simples.


No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. 

1 João 4:18

quinta-feira, 7 de agosto de 2014


o analfabetismo mata!

- Alô! Meu pai tá aí?

- Seu pai? Mas quem é seu pai?

- Ué! meu pai, marido da minha mãe...

- Eu sei, mas como é o nome dele?

- Bom, aí depende, né? Minha mãe chama o meu pai de "benzinho". Eu chamo de Paiê. Já a minha avó chama de João...

- Tá bom, tá bom, garoto, mas como ele é?

- Aí também depende, né? De manhã, ele é bem apressado. Se eu pergunto alguma coisa, ele diz que à noite a gente conversa. Já de noite, ele diz que está cansado e diz que amanhã a gente conversa...

- Não foi isso o que eu perguntei. Eu quero saber como é ele fisicamente. Com quem ele parece...

- Ah, bom! Minha avó diz que ele parece comigo... Ou será que eu é que pareço com ele? Mas só que é mais alto, assim ó... e tem bigode.

- Olha aqui garoto. Eu tenho mais que fazer. Passe bem.

- Que sujeito nervoso. Até parecia o meu pai... Será que era ele?

(Marcelo Pacheco)

pra mim é...


Amor pra mim é ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo. 
Isso é o mais pleno amor. 
Dar a liberdade dele existir ao meu lado do jeito que ele é...


Portanto, vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora! 

(Mateus 25:13)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

eme


Meu fascínio pelo M começou muito cedo, praticamente no dia em que registraram meu nascimento. 

Meu nome é Margareth, nasci no 13º dia do mês, o que também tornou inevitável o protagonismo que a 13ª letra do alfabeto (incluindo o K) passou a exercer sobre mim.

E não parou por aí. Passei a desenvolver simpatia também pelas portadoras de duplo M, como Marilyn Monroe, Martha Medeiros, Malu Mader, Marisa Monte. E Maísa e Madonna, lógico, com seus M únicos como eu, mas que potência. 

Não demorou até eu expandir a atenção que dava aos nomes próprios: um dia percebi que o mundo feminino era quase todo regido pela mesma letra. 
Me acompanhe: mulher, moça, menina, mãe, maternidade, menstruação, menopausa, miss, modelo, manequim, musa, madrasta, madame, madre, mama, mana, matriarca, meretriz, mina. 
Sem falar em Maria, mãe de Jesus. Ou a Dona Maria que trabalha em minha casa, santa também. 

Muitos emes me fizeram ser quem sou. M de Meg, M de Meiga, M de Morango, M de Música, M de Minas, M de Metódica, M de Meticulosa, M de Medo, M de Maravilhosa e tantos outros. 

No zodíaco sou Virgem, cujo planeta regente é Mercúrio. O hieróglifo do signo é uma letra “M” : 
No horóscopo chinês sou Rato, M de Mouse. 
No primário, fui rainha da escola: M de Majestade. 
O nome do namorido começa com N, mas certamente M de Meu. 

A quem achar que me faltou o M de Modesta: Misericórdia.

[adaptado de um texto de Martha Medeiros]

“Ao pensar a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Serei capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a minha velhice?’” 



Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz.

__Tiago 3:13-18

terça-feira, 5 de agosto de 2014

do desapego

Coloquei os fones de ouvido na sala de espera, mas o som estava desligado. Era só pra ouvir o que o paciente do horário anterior estava dizendo…

“Tia Maria morreu ontem. Irmã da vó Adelaide, da tia Ditinha e de mais uma meia dúzia de tios avós meus. Não éramos próximos, não me lembro de termos conversado muito. Lembro-me mais da polenta, do crostoli e das maria moles que ela fazia – e que eram muito bons.

“A morte da tia Maria me fez pensar um pouco sobre… bem, sobre morte. Estou longe de ser a pessoa mais religiosa do mundo. Bem longe mesmo. Não acredito em Deus – não nesse em que o povo fala que acredita, aquele homenzarrão implacável e barbudo vestindo camisola –, mas tenho cá minha fé. Minha religião é o trabalho. Prefiro transferir o rigor da oração para o labor. É o que me faz bem – e ainda me rende algum dinheiro.

“Ver a vó Adelaide triste daquele jeito me doeu. Ora, muito natural que a gente fique doído com a tristeza de quem a gente gosta. Aí depois conversei com meu pai sobre a tradição católica do velório e como isso estava ficando ultrapassado, até que chegamos na questão do apego à matéria. Comecei a pensar sobre como a gente se prende às coisas e como é difícil se desapegar delas depois que elas não fazem mais parte da nossa vida.

“Viver é se apegar. A gente vai vivendo e vai fazendo amigos, comprando coisas, aprendendo a fazer outras coisas e vai acumulando tudo isso, vai se conectando com esses objetos, com essas pessoas. Vai gostando. Aí fica muito difícil o sujeito, de uma hora pra outra, não poder mais ter aquilo de que gostava tanto. Ora, falem o que for, a gente gosta de ter e também gosta de ser tido.

“Aí comecei a pensar que existem circunstâncias muito diferentes de desapego. Tem o desapego voluntário, que é quando você percebe que não dá mais conta de conviver com uma coisa ou com uma pessoa – uma blusa que já está esgarçada, um namorado que está te esgarçando – e aí se desfaz daquilo. O desapego involuntário é quando você tem que aprender na marra a conviver sem alguma coisa ou sem alguém, que é o caso da morte. Ninguém avisa que vai morrer, faz evento no Facebook, agenda data… Puf! A pessoa morre, uai!

“E não tem jeito. Nesse caso não tem muito que se fazer e a gente acaba ficando muito triste. Um tanto porque uma parte generosa de nós fica apreensiva com a incerteza que gere o rumo de quem o do que se foi e outra parte, mais egoísta, que fica contrariada porque não gosta de perder. E é essa parte que ainda mantém refém dentro da gente um restinho daquilo que não nos é mais familiar.

“Acho que a coisa mais cruel pra quem fica é ter que matar a pessoa que morreu. Sim, porque até a gente matar a pessoa, fica aquela sensação de que a gente vai virar a esquina e trombar com ela, sabe? Não é bacana… a gente fica apreensivo, esperançoso, morre na praia. Daí se a gente não mata a pessoa, ela vira fantasma e passa a assombrar a gente.

“Não dá pra viver à sombra de um espírito e também não é fácil se desapegar, mas é como alguém disse uma vez: é preciso sofrer apenas o estritamente necessário”.



Meu bb (que tá morando sozinho) me enviou esse vídeo.
O que será que ele tá querendo me dizer?!?
Não tô entendendo...


O que me consola na minha angústia é isto: 
que a tua palavra me vivifica.

Salmo 119.50

sábado, 2 de agosto de 2014


É bom atentar para o que o papa diz*. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai direto ao que é essencial: “O segundo casamento é uma praga!”

Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do paraíso. No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: “E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar...”

Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.

Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: “O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato”. 
Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.

Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a igreja, estão em estado de pecado: falta ao relacionamento o selo eclesiástico legitimador. 
Ele, divorciado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura... Agora está tudo nos conformes. Porque Deus não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.

O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca, mas da maldição. 
O símbolo dessa maldição está na palavra “conjugal”: do latim, “com”= junto e “jugus”= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a canga os obriga, sob pena do ferrão...

Por que o segundo casamento é uma praga? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a igreja admitir a anulação do primeiro casamento, terá de admitir também que o sacramento que o realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. 
Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela... 
Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. 
A igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se divina...
A igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. 
Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga...


 *Em março de 2007, o então Papa Bento XVI assinou novo documento da Igreja Católica que, dentre vários assuntos, classificou como “uma verdadeira praga” o segundo casamento de pessoas já divorciadas. 
“Trata-se de um problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai, progressivamente, corroendo os próprios ambientes católicos”, dizia o documento.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014


Que o destino sempre nos livre do mal:
do mal humorado
do mal amado
do mau olhado
Assim seja!!!


A superstição é a inteligência dos objetos.

É quando repassamos para a madeira a autoridade do acaso, quando transferimos para a escada o domínio do infinito, quando autorizamos a vassoura a determinar casamentos.

Minha avó vivia cuidando de doenças e de problemas pela superstição. Ou preparava um chá especial ou providenciava uma simpatia. Espantava febres, tonturas e desconfortos com sua farmácia caseira.

Nunca foi bruxa, mas tinha palavras santas. Preventiva e curativa, com um pé no passado e outro no futuro.

Pelos talheres, já antecipava visitas. Sempre que um deles caía na cozinha, profetizava a campainha. Garfo era homem. Faca era mulher. Não havia erro.

Pelos ouvidos quentes, já descobria se alguém andava falando mal dela. E desafiava o povo a contar as maldades recém-feitas.

Regia sua casa com uma legislação do sobrenatural. Eu me sentia importante seguindo suas regras. Às vezes desejava ser castigado para testar a veracidade dos rituais.

Entrava em sua residência em Guaporé como se fosse um novo país. O país do invisível. O país dos pressentimentos.

Respeitava mais porque não a entendia inteiramente. O mistério engrandece as pessoas.

Meus pais escreviam poesia, a avó colocava em prática.

Ela jamais deixava a bolsa no chão, para não perder dinheiro.

Ela jamais abria o guarda-chuva dentro de casa, que trazia morte.

Ela invertia o rodo atrás da porta para afastar visitas indesejadas.

Ela derramava flores de maracujá no chão dos invejosos.

A vó inventava soluções. Depois que morreu, minha vida ficou sem respostas.

Na infância, um dia acordei com telhas debaixo da cama. Ela explicou que aquilo serviria para dar telhado aos meus sonhos.

Adorava seus argumentos. Ela estava à frente de seu tempo porque respeitava tempos antigos.

Quando os pais brigavam, recomendava que limpassem os espelhos.

Todos os espelhos da casa, inclusive dos banheiros e dos quartos. Pois os espelhos se comunicavam entre si. Como um riacho pelas paredes.

As ofensas, as caretas e os horrores das discussões permaneceriam dentro dos reflexos, e o casal repetiria brigas passadas. A memória do ódio cobriria seus rostos no momento de se arrumar na manhã seguinte.

Eu acredito na loucura de minha avó.

Meus espelhos sempre estão brilhando para dias inéditos.