"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



domingo, 29 de novembro de 2015


coisas do saco do bom velhinho


Ho Ho Ho. Nesta época de uvas, perus, presentes e lojas lotadas, eu tenho visto muitas coisas. Feias, para falar a verdade. Nos últimos dias a minha caixa de e-mails anda atrolhada de mensagens denegrindo a imagem do Seu Noel. Que maldade, minha gente.

Eu, como toda criança, acreditava em Papai Noel. Escrevia cartinha para ele e quando dezembro começava eu imediatamente melhorava o meu comportamento. De menina-sardenta-demônia eu passava a menina-sardenta-anja. Num piscar de olhos. Ou de dezembro, como queira. No dia vinte e quatro eu era uma flor vestida de gente. Amável, educada e agradável. Até beijava sorridente aquelas tias velhas que têm pintas enormes peludas no queixo, do tipo que quando você chega perto, espeta. Sabia que à noite o Papai Noel vinha. Um dia o meu mundo se desfez. Vi que o Papai Noel era mais precisamente o Papai Paulo, meu pai. Era ele quem colocava os presentes perto da árvore, auxiliado pela minha mãe. Que decepção. A mesma coisa foi com o Coelhinho da Páscoa. Ele deixava pegadas pela casa, sabia? As marcas das patinhas dele ficavam pelo corredor e por tudo. Até que o meu mundo se desfez de novo e novamente e mais uma vez, pois descobri que o coelho era uma farsa. Era o Coelhinho Paulo. E as pegadas eram de farinha. Mas isso tudo eu deixo para contar em abril.

O fato é que a imagem do Papai Noel, para mim, é algo puro e fofo. Não gosto que falem mal dele. Ele é que nem a Xuxa: fez parte da minha infância e, bem ou mal, nutro um carinho eterno por certos personagens que foram importantes na minha vida. Tá certo que eu gostava da Xuxa antes do silicone, antes da Xaxa, antes do Xafir, antes de ouvir boatos que ela tem um caso com a Xivete Xangalo. Eu gostava da Xuxa na época do Praga, Dengue, eu queria ser paquita! Xou da Xuxa, Xu xu xu xá xá xá, aquela nave, o meu sonho era entrar ali! 
Sim, é quase Natal e estou num momento saudosista. Eu chorava quando a nave subia e a Xuxa ia embora. Prefiro deixar aquela imagem da Rainha dos Baixinhos. A Xuxa de hoje é outra. Mas gente, por favor, o Papai Noel de ontem é o mesmo de hoje e vai ser o mesmo de amanhã e o mesmo de sempre. Vestido de vermelho, barba branca, óculos, barrigudinho, cara de meigo, sorriso querido. Ele pega as crianças no colo, ho ho ho, dá pirulito e faz um carinho nos cabelinhos delas com as mãos envolvidas pelas luvas brancas.
No mundo atual isso tudo pode ser perigoso, eu sei. Tempos de pedofilia. O Papai Noel pode estar disfarçado, ho ho ho e sentar as criancinhas no colinho para fazer sabe-se lá. Sabe-se lá. Mas o meu mundo, desculpa aí, não é o atual. Sou lá de trás.

Por gentileza, não me mandem coisas feias, chatas e bobas do Papai Noel. Tem gente que é devotinho, tem vó que é beatinha. Para mim, o Papai Noel é que nem a Virgem Maria. Que nem o Santo Antônio. Que nem o Menino Jesus. O Papai Noel foi, durante muito tempo, o meu Salvador. Por causa dele eu acreditava que o mundo podia ser mais aconchegante, bonito, gentil. Depois que descobri a verdade sobre o bom velhinho, sei lá, criei um mundo no qual as coisas ainda podem ser aconchegantes, bonitas, gentis. Um mundo que só entra quem é convidado. Um mundo que me protege, abriga, ampara. Ho ho ho. Em épocas como a nossa, qualquer refúgio é válido, qualquer porto-seguro é aceito. Faça o seu. E, por favor, neste Natal não dê só presentes, cartões e abraços molengos. Dê amor. Sorrisos de verdade. Abraços com vontade. Dê mais amor. Mais sorrisos. Mais abraços. E nunca, nunca deixe de acreditar no seu próprio Papai Noel.


“Papai Noel, antes, trazia presentes; agora, rouba helicóptero...


“Pelos seus frutos os conhecereis. 
Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?”

Mateus 7:16

sábado, 28 de novembro de 2015



Ela me contou que morou durante toda a infância bem no centro da cidade, num apartamento pequeno de uma grande avenida, e cresceu escutando as conversas e gritos dos transeuntes lá embaixo, os motores dos ônibus, as portas do comércio abrindo e fechando, as brigas entre os camelôs, e nem à noite esse zumzumzum sossegava, pois havia os cinemas, as boates, os botecos, as prostitutas, um quartel com ininterrupto entra e sai de soldados e uma igreja ao lado cujo sino não conhecia descanso. Se dava para dormir? Feito um anjo. Cada barulho específico da zona central era como se fosse um instrumento musical, e juntos eles compuseram sua cantiga de ninar. A tudo se acostuma.

Até que ela virou mulher, casou e foi morar num bairro tão distante do centro que era praticamente uma granja, e quem dizia que conseguia dormir? O silêncio, ali, era barulhento além da conta.

Um cachorro latindo ao longe, no meio da madrugada, bastava para lhe despertar. O farfalhar das folhas ao vento, numa árvore próxima à janela, a deixava em estado de alerta. Podia até ouvir uma estrela cadente se prestasse bem atenção. Como pegar no sono estando envolvida por tantas quietudes secretas, por tanta discrição?

Não foi bem com essas palavras que ela me contou sobre essa situação invertida, mas foi desse jeito que a escutei, com essa prosa e poesia, e também com algum espanto. Se barulho virou silêncio através do costume, e se silêncio virou barulho pelo mesmo motivo, então está tudo mesmo de cabeça para baixo?

O que mais era pra ser que não é?

A pessoa muito calada, com um sorriso fixo no rosto, pacienciosa com todos em volta, relaxada num corpo em repouso, estará mesmo calma? Pode ser que por baixo de sua pele o barulho seja infernal, a dor lateje, o coração grite e ela apenas esteja inerte para não chacoalhar ainda mais o desespero que leva dentro. Enquanto que aquela pessoa que dança, corre, abraça, ama, gargalha, viaja e se joga na vida é o quê? Budista.

A pessoa que anda sumida é uma ermitã ou será que está muito bem acompanhada por si mesma? E quem não desgruda de grupos será mesmo sociável ou carente ao extremo?

Acho que eu gostava mais da vida quando ela era como era, exata, e não como é agora, quando traz em si o seu contrário, nos obrigando a ler nas entrelinhas, entender os subentendidos, perceber o abstrato e desprezar o concreto – eu preferia o óbvio a tanta charada, eu preferia o cristalino ao lusco-fusco, eu gostava quando era mais fácil e as coisas e as pessoas cumpriam o prometido.


Quando foi isso?

Nunca. Nunca foi como eu queria. Sempre foi o inverso.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015


quinta-feira, 26 de novembro de 2015


Às vezes a distância é a melhor coisa que pode acontecer. 
Períodos de recuo são essenciais. Ou simplesmente acontecem, atropelando nossa vontade - mesmo assim continuam sendo estarrecedoramente úteis. Eles nos forçam a enxergar a situação com mais frieza e, por isso mesmo, de forma mais acertada e isenta de erros de julgamento que a intensidade e a bile nos levam a cometer (o significado do ditado chinês “o lugar mais escuro é sempre debaixo da lâmpada” tornou-se, de repente, tão claro para mim como areia em dia de sol). 

O grande barato de, vez por outra, nos distanciarmos do que nos importa é sentir o que esse redimensionamento nos causa. E, seja ele qual for, a retomada nunca é insípida: ou nos faz enxergar a placa de “rua sem saída” que teimávamos em não ver ou devolve o brilho ao que o tempo havia enegrecido. Talvez por isso alguns casais só se entendam depois de uma separação: a dor, a sensação de ficar sem centro gravitacional, não ter mais ali ao lado quem se ama pode provocar verdadeiros milagres na dinâmica de uma vida em comum (e na solo). Mas não podemos contar com milagres, precisamos da razão. O problema é que nossa suposta sapiência tende a subavaliar o que se tem ou (talvez seja pior) exagerar na importância e, se quisermos ser felizes, é inútil proclamar independência emocional ou tornar-se escravo das paixões. Qualquer extremismo nos isola. Só compreendemos o valor do que nos rodeia e mora dentro de nós quando mergulhamos na solidão.

Depois de sofrer feito o cão por encarar tudo na base do oito ou oitenta, fiz um pacto comigo mesma: jamais levaria coisa alguma a ferro e fogo porque nada importa tanto. Absolutamente nada é imprescindível. Nem ninguém. Esse não um discurso de auto-suficiência, pelo contrário, é uma reflexão de alguém que aprendeu na porrada (ou, melhor, no choro) que só relativizando, tornando a existência e o coração mais leves é que se pode ser feliz e, então, ser feliz com alguém. Pare de arrastar correntes, levar tudo tão a sério: a única coisa que vai conseguir é uma úlcera. Cuide de quem ama, mas não faça disso o objetivo da sua vida, por que ficará inevitavelmente frustrado quando não tiver dele o que você acha que ele deveria devolver. Não existe prêmio para quem doa amor. Por isso, distanciar-se deveria ser uma tarefa cotidiana: evitaria que fôssemos sugados pelo redemoinho que sempre começa logo ali a nossos pés, mas estamos ocupados demais para ver. Evitaria que exercêssemos de forma tão eficaz, e perigosamente despercebida, nossos piores defeitos. 

Quando algo começar a te enlouquecer, infernizar ou te fazer surtar, use a técnica dos grandes admiradores de arte: recue diante da tela, mude de ângulo, observe as cores, os traços e os detalhes que, na correria, sempre passaram despercebidos. Então notará que ela é muito mais do que aquele ponto preto que ficava, insistentemente, diante dos seus olhos. 

Ser feliz, no final das contas, não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva.



A casa da gente é uma metáfora da nossa vida, é a representação exata e fiel do nosso mundo interior. Li essa frase outro dia e achei perfeito.

Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Tudo pode ser revelador: se deixamos a comida estragar na geladeira, se temos a mania de deixar as janelas sempre fechadas, se há coisas para consertar. Isso também é estilo de vida.

Há casas em que tudo o que é aparenta está em ordem, mas reina confusão dentro dos armários. Há casas tão limpas, tão lindas, tão perfeitas que parecem cenários: faz falta um cheiro de comida e um som vindo lá do quarto.

Há casas escuras. Há casas feias por fora e bonitas por dentro. Há casas pequenas onde cabem toda a família e os amigos, há casas com lareira que se mantêm frias, há casas prontas para receber visitas e impróprias para receber a vida.

Pode parecer apenas o lugar onde a gente dorme, come e vê televisão, mas nossa casa é muito mais que isso. É a nossa caverna, o nosso castelo, o esconderijo secreto, onde coabitamos com nossos defeitos e virtudes.


“Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa.
Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita, de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará”.

Mateus 6:2-4

terça-feira, 24 de novembro de 2015


quinta-feira, 19 de novembro de 2015


Ontem eu era esperto e queria mudar o mundo.
Hoje, tento ser sábio e estou mudando a mim mesmo.

Sri Chinmoy

portas abertas


Nesses últimos dias, diante de um mundo ameaçado pelo terror, deu pra extrair algo de bom. Na sexta-feira, poucas horas depois dos primeiros tiroteios, ninguém ainda sabia se os atentados haviam cessado, onde estavam os terroristas e qual era a soma das vítimas, mas já havia cartazes nos prédios comunicando: Porte ouverte, que em português significa “porta aberta”. Os moradores da capital francesa, sabendo que muitas ruas estavam sendo fechadas e que não haveria como turistas e transeuntes voltarem a seus hotéis e moradias, colocavam-se à disposição para hospedar desconhecidos aquela noite fatídica.
Diante disso, importa quem é ateu, quem é católico, quem é muçulmano?

Religião serve para confortar diante da finitude e para atenuar angústias, culpas e faltas. Precisam de religião os que não se contentam em recorrer unicamente à razão e que se sentem menos inseguros compartilhando seu destino com alguma entidade superior, ainda que etérea. Muitos precisam de religião e não há nada de errado em se amparar nela emocionalmente. Mas o sagrado se apresenta de várias outras maneiras.

Generosidade é uma atitude laica. Solidariedade, idem. Boa vontade, amizade, sensibilidade, ternura, comoção. Nada disso está relacionado à conversão a uma doutrina. Não precisamos de líderes, de mártires, de messias para sermos gente direita. Pais, mães, tios, avós e professores geralmente dão bons guias no início da nossa jornada e nem precisam ser santos.

A religião começa a dar defeito quando deixa de ser um consolo pessoal para ser usada politicamente – como a história demonstra. Gire o globo e para onde seu dedo apontar haverá conflitos religiosos insuflados pelo poder que certos grupos radicais se outorgam. Conflito: o revés da paz e da bondade que deveriam ser intrínsecos à vida espiritual.

Morremos todos os dias por bala perdida, negligência, delinquência – terror também –, mas morrer por divergências religiosas nos deixa ainda mais em choque por sua contradição: o divino nunca deveria se atrelar à covardia e à brutalidade.

Enfim, porta aberta para aqueles que não consideram profanos o prazer e a alegria. Porta aberta para quem reza para o Deus que quiser, sem tentar subjugar a vida alheia a seus preceitos particulares. Porta aberta a quem faz o bem, com ou sem religião. Porta aberta para quem precisa de um copo d`água, um abraço, um sofá – e não de discurso, sermão.

As igrejas são, em tese, grandes templos onde as portas são mantidas abertas para todos. A sexta-feira 13 parisiense mostrou que por trás de cada porta da cidade pode haver outro tipo de igreja, sem altares, sem confessionários, sem imagens, sem dogmas. Apenas aquele bom e velho amor ao próximo em seu conceito mais espontâneo e simplificado, que se manifesta quando vem desapegado de crenças sobre-humanas.


“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” 

Mateus 5:7

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

vida resolvida


Conversávamos sobre um amigo que ainda reluta sobre o que gostaria de ser quando crescer quando a velha senhora liquidou o assunto: Pouca vergonha. No meu tempo, aos 35 anos as pessoas já estavam com a vida resolvida.

O jovem rapaz em questão tem exatamente 35 anos, casou e se separou, não tem filhos e está pensando em fazer outro curso na universidade, já que não se adaptou à primeira profissão que escolheu. De fato, ele não está com a vida resolvida.

Até pouco tempo atrás era assim, tínhamos um norte a seguir: escolhíamos um par e um trabalho e, dali por diante, seríamos sensatos se não trocássemos mais de rumo, gozando a aposentadoria dos desejos. Nunca mais se preocupar com nada, apenas aproveitar a tal vida resolvida.

Havia quem simulasse direitinho a acomodação, mas se já naquela época o apaziguamento não era tão bem resolvido assim, imagine hoje.

Hoje, minha senhora, a vida resolvida fica para depois que o vivente bater as botas. Aí, sim, estará tudo resolvido, bem resolvido, três palmos abaixo da terra. Antes, tem nada resolvido. Nada.

No fluir dos dias deste século 21, deixamos de ser adolescentes indecisos para nos tornar adultos indecisos, mas vamos tateando, vamos experimentando, que a palavra experiência é que tem justificado todas as atitudes: a experiência de um hobby, de uma viagem, de um amor, de outro amor, e de outro mais. A experiência de trabalhar com fotografia e depois trocar pela experiência de trabalhar como professor de violoncelo, e então dirigir um documentário sobre uma orquestra mirim. E depois abrir um restaurante vietnamita, que logo fechará porque surgiu a oportunidade de viver uma experiência botânica num parque no interior de Goiás. Sonhos prestes a se realizarem até que outros sonhos chamem e novas experiências se descortinem: a palavra movimento também está muito em uso, vale lembrar.

Experiência e movimento, dupla dinâmica – dinâmica mesmo – que veio substituir casamento, família e profissão, o trio que amarrava o cristão numa vida resolvida.

Bem vertiginosos, esses novos tempos em que é permitido querer tudo e querer mais, em que ser considerado uma pessoa de confiança não implica em criar raízes numa única cidade, e tampouco em ter uma única mulher ou um único marido para sempre, mas alguns ao longo de uma vida longa. Filhos do primeiro casamento, do segundo – e no terceiro, aleluia, a lua de mel merecida, com os netos visitando de vez em quando. Inventam-se atividades conforme a demanda: ainda haverá cursos profissionalizantes daqui a alguns anos? A conclusão de uma faculdade será requisito fundamental para garantir um futuro? Ainda existirá futuro ou o tempo se resumirá a um eterno presente, renovável a cada segunda-feira?

Experiência, movimento.

A vida resolvida era segura, mas muito parada.


- A guerra já chegou outra vez, mãe?
- A guerra nunca partiu, filho.
As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.


[Mia Couto, O Último Voo do Flamingo]

Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove - não poderão ir para o Céu! 
Lá faz sempre bom tempo...


Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem. 

(2 Timóteo 3:1-3)

domingo, 15 de novembro de 2015

o rio que era doce


Morreu o lugar que eu nasci,
Morreu meu cavalo
Meu cachorro e minha história;
O que eu tinha de mais bonito,
Agora, é só memória.
O peixe virou cimento;
E a igreja, e a escola?
Nem sino, nem movimento!
Sobrou nada da plantação!
Nenhum quadro na parede;
Nada prova que sou José,
nada diz que sou João;
Enlameados documentos,
Soterrados com crianças
e gente grande sem esperança;
Acabou-se a minha Bento;
Chorou Elvira, retratando o fato,
que cortou seu coração
Mas choro não limpa o rio,
Nem devolve a vida ao chão...
Correu longe o leito de morte
Uma lama sem distinção,
Cobrindo os sonhos de todos
Matando a paz e a mansidão
E o Rio, que era doce até então,
Hoje, Vale nada não!

(Moema de Castro Leite)

homens que investem


Filho é um investimento.

Se essa frase parece ter saído da boca de um esquimó, reconsidere. Não há nada de glacial na afirmação. Filho é, realmente, uma espécie de plano de previdência. Resta saber se você é bom investidor.

Algumas pessoas pensam em ter filhos por razões pragmáticas. A mais comum delas: “quem cuidará de mim no futuro?” Para muitos, o que importa é evitar ser abandonado numa casa de repouso. Só não sei onde essa gente descola bola de cristal para ser assim tão profética.

Filho é um investimento, sim, mas em outro sentido.

Filho é uma aplicação rentável no quesito emoção. Quando bebês, são uns fofos, apesar de exigirem um preparo físico de campeão de UFC. Tudo bem, papai é atlético o suficiente para engatinhar com seu filhote, rolar pelo chão, segurar no colo, levar nos ombros, carregar nas costas. Até que os fofos entram na adolescência.

Tudo bem, também.

Viram uns purgantes, mas pode ser animado. Eles lotarão a casa de amigos, desde clones deles mesmos até aqueles moleques estranhos que tocam guitarra, têm o cabelo vermelho e os olhos idem. Eles explicarão para você que Tóquio é muito mais radical que Paris. Deixarão o quarto bagunçado, mas um dia arrumarão, confie: até o próximo Natal aquele muquifo estará um brinco, e se você disser essa gíria na frente deles – um brinco – pediu: nada lhes dá mais prazer do que debochar do seu vocabulário vintage.

Eles fingirão que não sentem orgulho de você, mas conforme-se, faz parte do sigilo do negócio. Eles se meterão em encrencas, e você vai chamá-los para aquela necessária conversa que sempre começa com gritaria e termina em comoção. Eles ajudarão você a manejar o computador, o smartphone e o Netflix. Eles falarão mal das suas roupas, mas numa noite emergencial pedirão emprestado aquele casaco preto que custou uma fortuna e que você emprestará mesmo assim. Algum sacrifício? Caramba, nenhum, são seus filhos.
E eles virarão adultos, e o investimento será ainda mais recompensador. Eles farão coisas que você nunca teve coragem de fazer – e bem que quis. Eles terão ideias liberais demais até pra você, que sempre se julgou um revolucionário. Eles não compartilharão alguns segredos cabeludos, mas quando o problema for sério mesmo, irá ouvir; “pai, estou precisando de você”. E esta confiança é um lucro impossível de ser medido em cifras.

Hoje é domingo, dia calmo e propício para dar uma analisada nos extratos e avaliar se valeu a pena tanta preocupação, se não foi um preço muito alto ter aberto mão de um pedaço da sua liberdade, se a relação custo benefício compensou.

Ora. Fechando as contas, ninguém pode dizer que não sai dessa aventura mais rico.


E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. 

João 8:32

sábado, 14 de novembro de 2015


A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

Vai com Deus, Celinho!
“Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”



Todos os dias, da manhã até o cair da noite, Jacob Simen não fazia outra coisa senão maldizer a sorte ingrata. Blasfemava contra o destino que o forçava a viver naquela insuportável e torturante penúria. A casa em que morava era pequena, incômoda e sem conforto: não dispunha senão de dois quartos para os pequenos e de uma sala minúscula com duas janelas, onde mal podia receber, nos dias de festa, meia dúzia de amigos e vizinhos.

A paciente Sorele não concordava com as queixas e revoltas do marido. A vida para eles não era, por certo, invejável. Lá isso não era! Podia, porém, ser pior, muito pior…
- “Pior do que isso, mulher, nunca”!, clamava Jacob, arrepelando-se, irritado.
- “Repara na apertura e no desconforto em que vivemos! Não cabemos nesta casa e não vejo como nem quando será possível arranjar outra melhor”.

Um dia, afinal, a cidade foi visitada por um sábio famoso que o povo apelidara Baal Schem.
Sorele sugeriu, cheia de confiança, ao esposo:
- “Por que não vais ouvir o velho Baal Schem? Dizem que ele tem feito espantosos milagres. Possivelmente poderá auxiliar-nos”.

Tal lembrança parecia traduzir uma providência fácil, acertada e feliz. Nesse mesmo dia, Jacob Simon foi ter à presença do santo rabi e desafiou o rosário interminável de suas queixas e misérias: que vivia num casebre triste e miserável e seu maior sonho era possuir uma casa ampla e espaçosa.

- “Meu filho”, ponderou o sábio, cheio de paciência e bondade, “posso, realmente, com a valiosa proteção dos guias invisíveis, realizarem prodigioso milagre em teu benefício. Serei capaz de transformar a tua casa, pobre e acanhada, em um lugar amplo, claro e confortável. Para tanto torna-se indispensável que pronuncies, agora mesmo, um juramento: vais ter que jurar, pelo nome sagrado de Moisés, e pela memória de todos os profetas, que seguirás fielmente todas as minhas determinações”.

- “Juro”!, Declarou Jacob com voz firme e inabalável sinceridade.
- “Muito bem. Agora uma pergunta: Tens uma vaca, não é verdade”?
- “Sim, com efeito. Tenho uma vaca”.
- “Leva, então, hoje mesmo, a vaca pra dentro da tua casa”!
- “A vaca para dentro de casa”!?
- “Senhor! Na casa em que moro mal cabem os meus filhos. Onde colocarei a vaca”?
- “Lembra-te, amigo, de teu juramento! Põe a vaca dentro de casa”.

Não houve remédio. Era preciso obedecer cegamente ao milagroso conselheiro. Aquela vaca, sob o teto de seu lar representava uma tortura constante. O monstruoso animal quebrava, destruía e sujava tudo. Para que os vizinhos não envolvessem o caso com os impiedosos comentários ditados pelo ridículo, a delicada Solere conservava as janelas e portas cuidadosamente fechadas durante o dia.

Decorridos três dias, voltou Jacob, a alma vencida pelo desespero, à presença do Baal Schem.
Era preciso pôr termo, o mais depressa possível, àquela situação torturante!

- “Tens uma cabra”? Indagou o sacerdote, à meia voz.
- “Sim”.
- “Leva também a cabra para dentro de tua casa”! Ordenou, sem hesitar, o prudente rabi.

A nova determinação do milagroso guia deixou Jacob sucumbido pelo desalento. A vaca, por si só, tornava a vida, dentro da casa, insuportável. A cabra e a vaca, juntas seriam umas calamidades! Que horror!

Antes de terminar a primeira semana, Jacob receando que o desespero o levasse à loucura, voltou a implorar o auxílio do santo e virtuoso conselheiro. Sentia-se esgotado; na sua casa não havia mais sossego; as crianças sofriam. Ele preferia morrer a continuar a viver daquela maneira miserável e anti-humana.

Disse, então, o santo milagroso:
- “Retira, então hoje a cabra. Amanhã, logo que o sol nascer, farás a mesma coisa com a vaca. Procederás, a seguir, a uma cuidadosa limpeza em tua casa, arrumando os móveis como se achavam. Ao cair da tarde irei visitar-te para ver realizado o milagre”!

No dia seguinte, o sábio encontrou o judeu risonho e satisfeito. Sentia-se perfeitamente feliz em companhia da meiga Solere e de seus quatro filhos.

- “Que tal”?, Indagou Baal Schem.
- “Eis a verdade, ó Rabi! Livre da vaca e livre também da cabra, a nossa casa é uma delícia! Sinto-me bem dentro dela. Já podemos respirar e viver! Há até lugar de sobra para as crianças”!

Estava feito o prodigioso milagre.
Baal Schem transformara, numa casa ampla e confortável, o mísero casebre do judeu!


[ Conto israelita citado em “Lendas do povo de Deus”, de Malba Tahan ]

O prudente percebe o perigo e busca refúgio; o incauto, contudo, passa adiante e sofre as conseqüências.

Provérbios 22:3

sexta-feira, 13 de novembro de 2015


 Para os peixinhos do aquário, quem troca a água é Deus.


a arte de ser gentil



Recebi um livro chamado “A arte de ser gentil”, com o dispensável subtítulo “A bondade como chave para o sucesso”, que, a meu ver, descredibiliza um pouco o autor, o sueco Stefan Einhorn, já que ser gentil deveria ser uma atitude para facilitar as relações humanas, e não uma meta para o sucesso. Que sucesso, o quê. Agora tudo o que a gente faz tem que visar o sucesso?

O texto da contracapa diz que uma pessoa gentil terá mais oportunidades de se tornar feliz, rica, bem-sucedida e realizada, e que o livro fornecerá soluções imediatas e de longo prazo para os interessados em se tornarem seres humanos melhores. Foi tudo que li até agora, a contracapa, e não vou adiante. Primeiro, porque tenho uma pilha de outros livros me aguardando, e em segundo lugar, porque já sou gentil. Nem sabia que sendo gentil eu poderia ficar rica, feliz, bem-sucedida e essa coisa toda. Sou gentil simplesmente porque acho mais fácil do que ser grosseira. Despende menos energia. E também porque não vejo graça em magoar as pessoas. Até aí, estou no padrão. O que ninguém nos ensina é que gentileza demais pode, por incrível que pareça, também ser um defeito, e dos graves.

Óbvio que não se deve ser rude com amigos, parentes, colegas de trabalho, vizinhos, comerciários, mas ser exageradamente gentil com todo mundo pode colocar a nossa vida em risco. Por exemplo: o que você faz se, ao chamar o elevador de um prédio estranho, à noite, a porta se abrir e lá dentro estiver um sósia do Curinga, com uma cicatriz perturbadora na face e vestindo um sobretudo enorme que poderia muito bem esconder duas pistolas, três granadas e um rifle? Você certamente teria uma vontade súbita de descer pela escada e sumiria de vista. Pois eu entraria no elevador toda faceira, daria boa noite e faria comentários sobre o clima, pois deus que me livre de ele achar que eu sou preconceituosa e que sua aparência me fez pensar que ele pudesse ser um esquartejador de mulheres. Por que ele não pode ser um pai de família como outro qualquer?

Se eu pego um táxi e o motorista demonstra não ter o menor senso de direção, arranha marchas, não usa o pisca-pisca e tira um fino dos outros carros, eu é que não vou mandá-lo de volta para a autoescola. Se ele correr a 200km/h, tampouco solto os cachorros, vá saber o dia horroroso que ele está descontando no acelerador, coitado. Neste caso eu simplesmente “me lembro” de que o endereço onde pretendo ir fica na próxima esquina, e não três bairros adiante, e saio pedindo desculpas pelo meu equívoco.

Se um garçom se aproximar perigosamente de mim com uma panela cheia de óleo fervente, eu não dou um pio, imagina se vou pedir para ele se afastar. Ele vai me considerar uma elitista estúpida – não basta ter pedido um fondue caríssimo, ainda vou ser grossa? Nada disso, uma queimadura no braço não mata ninguém. E se eu estou caminhando por uma rua escura e, na direção contrária, vem um adolescente com um gorro enterrado até o nariz e as duas mãos enfiadas numa jaqueta, eu começo a rezar, mas não troco de calçada, imagina o trauma que posso causar no menino: vai ver é até um amigo da minha filha.

Se você tem mais de nove anos de idade, já sabe reconhecer uma ironia e entendeu meu recado: seja gentil, mas não a ponto de perder o tino. Se tiver que ferir suscetibilidades para salvar sua pele, paciência. Atravesse a rua. Desça pela escada. Dê no pé. Sucesso é chegar em casa com vida. 

13/11 - dia mundial da gentileza

Provérbios 22:1

A boa reputação é mais importante que muitas posses; desfrutar de boa estima vale mais que prata e ouro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015


Não preciso que ninguém pague a conta do restaurante: trabalho desde os 20 anos e posso muito bem arcar com o preço da minha almôndega.
Não preciso que ninguém puxe a cadeira para que eu sente: tenho braços e o mínimo de coordenação motora para realizar a tarefa.
Não preciso que ninguém abra a porta do carro para eu entrar: consigo usar minhas mãos pra isso. E, bônus, sem cair de cara no meio-fio.

Realmente posso fazer tudo isso sozinha. Mas adoro quando um homem faz por mim.

Cavalheiros são uma raça superior; e mulheres que sabem receber essas delicadezas sem chiliques, também. Nada mais ridículo do que uma feminista ensandecida que interpreta uma simples gentileza masculina (chamar o garçom para servir o vinho, por exemplo) como uma ameaça devoradora à sua independência. Parece que ele está querendo extirpar o clitóris da cidadã. Ah, vá se catar! Beba o vinho e cala a boca: deixe o cara ser homem e cuidar.

Adoro mimos masculinos. Quanto mais flores chegarem ao meu trabalho, melhor. Curto que cedam a passagem para mim na escada rolante. Se ele quiser ficar do lado da rua enquanto andamos na calçada, tudo bem: não sinto minha liberdade ameaçada porque ele prefere que eu não seja atropelada.

É uma tremenda mentira dizer que afagos cavalheirísticos não fazem falta nestes tempos de tantas obrigações, deveres infindáveis. Para que me privar de coisas tão boas quanto ter uma jaqueta colocada sobre as minhas costas numa noite de vento frio? Aceito ser a parte mais “fraca” se isso significa ser cuidada com carinho.

Mas homem cavalheiro é um troço difícil de achar. E a culpa é, em boa parte, das mulheres: se parássemos de reclamar da falta de modos e galanteios dos machos e nos tornássemos melhores professoras (seja como fêmeas, seja como mães), todas estaríamos mais satisfeitas. No final das contas, eles são frutos da nossa educação. Se a maioria tem o grau de gentileza de um hooligan é porque deixamos de mostrar que ser zeloso não é sinônimo de ser veadinho e que ser carinhoso não broxa; nos omitimos na hora de apontar a trilha certa e só saímos da moita no momento de dar bronca porque eles enfiaram o pé no estrume. Daí já é meio tarde: a merda está feita.


PS: Da mesma maneira que as mulheres deixaram de admitir e achar natural serem subjugadas, está na hora de reivindicar sermos tratadas com gentileza. E tratar da mesma forma. Porque, pra mim, ser gentil não está associado a querer traçar alguém; apenas acho que o mundo, com um pouco mais de tato, se tornaria um lugar mais agradável para passar a vida. E como é o único lugar que todos temos…



Encontrar o amor é alívio. É ter a certeza que os dias não serão mais solitários. 
É saber que no começo, no meio e no fim vai ter alguém ao seu lado. 
Não um alguém qualquer, mas o seu amor. 
Aquele que vai estar ao seu lado até o último capítulo. 
Por mais longos que sejam os intervalos comerciais.


Dêem graças ao Senhor porque ele é bom; o seu amor dura para sempre. 

(Salmos 118:1)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015


inconsciente casado


Temos dificuldade de captar a lógica da união de casais que vivem discutindo, brigando e se ofendendo. Não deciframos o motivo de permanecerem num casamento se é para sofrer. Não desvendamos o enigma após a sucessão de barracos, escândalos e quebradeiras. Cansam o senso comum, esgotam a paciência dos amigos, perdem o apoio dos familiares.

É que eles podem estar se amando pelo irracional. São incompatíveis na aparência, mas inseparáveis na essência.

Encontram sua harmonia no sexo, na explosão física, quando se beijam e se lambem e se entregam sem usar a cabeça, quando não analisam os fatos, quando não interpretam o comportamento um do outro, quando relaxam das amarras e censuras, quando depõem as armas e vaidades e esquecem a disputa da razão e do certo e errado.

Quando se oferecem apenas pelo toque, pelo silêncio ofegante, pela realeza dos ouvidos.

São melhores como bichos do que como homens. São melhores na ausência de pensamento, no contato físico, primitivo, total, na comunicação não verbal.

Eles se conectam pelo instinto, pelo cheiro, pela doação selvagem.

Perante a sociedade, são divergentes. Entre quatro paredes, convergentes.

Perante a sociedade, travam um duelo. Entre quatro paredes, formam um dueto.

E são muito mais carinhosos pelo tato do que pela fala.

Neles, a pele une o que a palavra separa.

É uma quebra de padrão, pois estamos acostumados a enxergar o irracional como sinônimo de agressividade e de violência.

Esses pares malucos, inadequados e inoportunos têm um irracional afetivo, um irracional terno, um irracional amoroso.

Ríspidos e grosseiros na racionalidade, por sua vez, lá no inconsciente, não se largam e se complementam. Demonstram um equilíbrio perfeito na cama. Como se fossem dançarinos de longa data.

A separação será incompreensível como a própria convivência. Porque são felizes em algum lugar desconhecido dentro deles.