"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



terça-feira, 28 de abril de 2015

diariamente



Que a correria do dia a dia não nos permita esquecer de agradecer,
e que o cansaço não nos impeça de enxergar os detalhes divinos e os milagres diários.
Que nesse vai-e-vem-da-vida agradecer também vire rotina.

o que faço com a saudade?


Tem dia que faço besteira.
Tem dia que faço caipirinha.
Depende muito...
Hoje, fiz brigadeiro.

______Paulo Chiodo

ainda que me falte sono, terei sonhos



A escada dos nossos sonhos é composta basicamente por nuvens, onde só os mais determinados conseguem subir e só os mais leves são capazes de se sustentar. Por isso, dos obstáculos que encontro, tiro sempre as melhores lições, e nenhum deles me impedem de seguir o caminho que traço – rumo às minhas mais bonitas ambições.

Meus mais extraordinários devaneios se agrupam diariamente, formando meus filmes noturnos – ou diários de bordo diurnos – dos quais costumo ser protagonista. Dentre eles estão as mais fantasiosas aventuras, as mais belas e suspirantes histórias de amor, os mais intrigantes dramas, as mais hilárias comédias e por vezes – infelizmente – os mais horripilantes roteiros de terror. O sonho é um acontecimento tão único que não possui sequer um sinônimo literal, pois nenhuma outra palavra se atreve a definí-lo.

Tenho uma coleção de estrelas cadentes, guardo meus desejos sempre junto ao peito e, se hoje traio o travesseiro sonhando acordado, é que venho dormindo pouco para o que tenho sonhado. Procuro, portanto – em tempo integral – ser o todo que há, entre o ato mágico de dormir e o instante – muitas vezes trágico – de acordar.

Com os olhos cravados no horizonte, sigo em busca de respostas para a vida, procurando plantar o bem em troca de uma colheita florida. E por fim, ainda que nada aconteça, terei conseguido sonhar até o último segundo vivido.

__Fellipo Rocha
 

“Quando a angústia já controlava todo o meu ser, teu consolo trouxe tranqüilidade à minha alma.” 

Salmos 94:19

segunda-feira, 27 de abril de 2015


Às vezes nem precisa tanta concentração...


De que adianta falar 3 ou 4 línguas e não saber pedir desculpas?


Ajusto-me a mim,
não ao mundo.


Eu não quero saber dessas coisas que atrapalham o riso, dessas pedras que atrapalham o caminho.
Dessa gente vazia que nada acrescentam à vida da gente.
Quero gente que brilha, que carrega levezas, quero coisas que alimentem a alma, sorrisos que preencham os dias,a casa, o coração.

Porque só o que me interessa são essas coisas que me fazem acreditar que toda hora, é hora pra ser feliz.


“Em todas as coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” 

 Romanos 8:37

domingo, 26 de abril de 2015


Abençoados sejam os presentes fáceis  de serem abertos. 
Os encantos que desnudam o erotismo da alma.
Os momentos felizes que passam longe das catracas da expectativa.
Os improvisos bons que desmancham o penteado arrumadinho dos roteiros da gente. 
Os diálogos que acontecem no idioma pátrio do coração. 
Abençoada seja a leveza, meu Deus.


amor a distância


Homens e mulheres têm viajado pra lá e pra cá e, mesmo quando em casa ou no trabalho, não param de se comunicar com nativos de outras cidades através das redes sociais. Logo, é natural o incremento de parcerias amorosas entre pessoas que residem a quilômetros umas das outras.

Ela, pode morar em São Paulo, e ele, no Rio. Considerando o tamanho do planeta, praticamente vivem a uma esquina de distância.

No entanto, as coisas vão além desse pequeno inconveniente geográfico.

O que vemos, atualmente, é o retrato da fragilidade das relações numa era em que todos estão ocupados demais para se entregar a alguém.

Os casais fazem mil coisas ao mesmo tempo, atuam em todos os canais e mídias possíveis, querem engolir o mundo, mas morrem de medo de ser engolidos por ele.

Afinal, com tantas solicitações, compromissos, projetos e alternativas, sobrará tempo para se dedicar a um envolvimento profundo?

Não sei se esta é uma questão só dos jovens. Hoje, entre os avulsos de todas as idades, existe o mesmo pé atrás. Os solteiros que nunca foram casados antipatizam com a ideia de se amarrar sem antes fazer um test drive em todas as outras opções possíveis — o que levaria umas três vidas, por baixo. E os solteiros que já passaram por uma ou duas uniões estáveis e já viveram seu “eterno enquanto dure” não morrem de amor pela ideia de ter que voltar a prestar contas, negociar, conceder, programar, comprometer-se.

Virou exagero se doar. A ordem agora é se emprestar. Toma aí um pouquinho de mim, mas me devolve.

Resultado? Um sem-número de relacionamentos a distância, mesmo o casal sendo vizinho de bairro. Os dois sentados à mesma mesa, mas cada um teclando seu smartphone. Os dois saindo de férias, mas cada um para um destino diferente. Os dois com problemas, mas sem disposição para conversar a respeito. Os dois com muitos planos, mas sem nenhuma intenção de abrir mão do seu sonho em função do sonho do outro. Os dois com dúvidas, mas sem reparti-las para não ter que se explicar muito. Os dois juntos, mas não por inteiro, que nada mais é inteiro, tudo é fragmentado.

É uma contingência dos novos tempos, reconheço, mas não impede que a relação evolua. Que o namorico, a ficada, o rolo, o lance, o caso, a pegação se transforme em amor. E amor a gente não empresta, entrega de bandeja. É quando a distância deixa de existir. Mesmo um lá e o outro acolá, ela será suprimida por algo que verdadeiramente unifica: vínculo.


“Porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, eu te ajudo.”

Isaías 41:13

quinta-feira, 23 de abril de 2015



“A vida exige sonhos
E o amor é só um jeito de sonhar
Abre a porta da alegria
E deixa entrar...”

(A porta da alegria)


p-e-r-f-e-i-t-a!!!

príncipe


O problema de alguns homens é achar que, depois que uma mulher abre as pernas, ele não precisa mais abrir as portas. Acha que não precisa mais fazer um carinho, perguntar sobre os problemas, muito menos tentar ser um amigo. Pensa que apenas ser o homem dela, no sentido de apenas atender as necessidades sexuais ou, por que não?, econômicas, resolve. Não resolve.

A mulher quando está com o cara não quer saber se ele vai levá-la a um restaurante caro sexta à noite. Pode até ser que nessa sexta vocês saiam, mas ela quer é que as suas segundas, aquelas desmotivantes de início de semana, possam terminar nos braços dela. Ainda que, para isso, você tenha que acordar mais cedo no dia seguinte para ir trabalhar. Nada pagará acordar ao seu lado.

É simples e, ao mesmo tempo, complicado agradar uma mulher.

Só que, com o passar da relação, acabamos deixando de fazer as coisas que fazíamos por ela no início. Já não abrimos mais as portas do carro, da casa, do restaurante. Já não puxamos a cadeira, não compramos uma rosa, não escrevemos um cartão. Não dedicamos uma tarde para não fazer nada. A gente acha que, por já ter a conquistado, não é preciso mais agradá-la. Como se depois de plantada, uma semente não precisasse ser regada.

É até possível entender um homem que faça menos. Só que esse é o mesmo homem que irá cobrar ela arrumada e maquiada na hora de sair. E o que ela ganha de volta? É necessário um esforço. Se o cara se diz ser o mesmo do começo do relacionamento, ele precisa demonstrar em suas atitudes que aquele príncipe ainda está lá.

Se ele virou sapo, bom, existem muitos outros que podem ser beijados por aí.

Faça com que os outros caras te chamem de bicha, que olhem torto e riam, mas puxe uma cadeira para a sua mulher e faça com que as namoradas deles os encarem e perguntem “por que você não faz a mesma coisa?”. São gestos tão pequenos que passam despercebidos. Tanto que são esquecidos. Não deixe. Nem toda mulher lembra de todos os homens que abriram o zíper do seu vestido, mas sabe exatamente quem abriu a porta do carro e fez abrir um sorriso no seu rosto.




“Filho meu, não te esqueças dos meus ensinos... porque eles aumentarão os teus dias e te acrescentarão anos de vida e paz” 

Pv 3:1-2

quarta-feira, 22 de abril de 2015

quando a casa é ninho


Meus pais têm um vocabulário próprio: matar o cachorro a grito, chorumela, nem que a vaca tussa, onde fui amarrar meu bode, chispa daqui, é dose para elefante, firme na paçoca.
Traduzíamos mentalmente na infância e na adolescência.

Chover era toró, fazer xixi era tirar água do joelho, cansar de um assunto era pó da rabiola, lugar distante era caixa-prego, criança agitada era serelepe.

Eu e os irmãos vivíamos registrando as expressões, aperfeiçoando o dicionário oral, para não sermos ofendidos de mocorongos.
Havia um respeito obrigatório pela língua nativa. Ríamos no começo, depois aceitamos as excentricidades que destoavam do que aprendíamos na escola, em seguida entramos na fase da vergonha coletiva.
Revoltávamos no momento em que falavam em público ou quando se comunicavam com os nossos amigos. Considerávamos os pais excessivamente velhos, pela estranheza que geravam nos outros. Ninguém de nossa turma conhecia suas gírias, e recebíamos o encargo de sempre explicar que porra eles estavam dizendo, se aquilo significava ofensa ou elogio, se estavam felizes ou irritados.

Sem perceber, acabei herdando uma das expressões. Incorporei uma das antiguidades familiares. Veio comigo e continua comigo. Sobreviveu ao meu preconceito e minha ânsia de ser atual.

É a palavra pousar para dormir.
– Pousará fora?
– Onde vai pousar?
– Ninguém pousará em casa, estaremos viajando.
Acho que pousar é melhor do que dormir mesmo.
Tem mais sentido para mim.

Pousar também representa quando o sexo é amor.
Pousar é romântico. Pousar é renunciar o céu por um lugar definitivo. Pousar é aceitar que não podemos passar a vida ao vento. Pousar é descansar de longa viagem.
Pousar é tranquilidade, é mansidão, combina com ficar de conchinha, deitar de pés dados, cheirar o cangote.
Pousar é uma atitude que supera o descanso. É confiança. É se doar. É se decidir por um canto seguro e acolhedor. É se enraizar numa árvore.

Eu me imagino descendo do turbilhão dos acontecimentos, diminuindo o ritmo, distanciando-me da pressão do trabalho. E vou me acostumando com o silêncio, com a intimidade, com o travesseiro de penas.

Quando amo, não durmo com alguém, eu pouso com alguém.
Paro de voar. Desisto da altura pelo chão. A casa é ninho.

Quando amo, sou pássaro. Deixo de sofrer como homem.




Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.

(Mateus 5:44-45)

terça-feira, 21 de abril de 2015


fases da tpm


Fase 1 - Meiguinha
Tudo começa quando a mulher começa a ficar dengosa, grudentinha. 
Bom sinal? Talvez, se não fosse mais do que o normal. Ela te abraça do nada, fala com aquela vozinha de criança e com todas as palavras no diminutivo. 
A fase começa chegar ao fim quando ela diz que está com uma vontade absurda de comer chocolate. O que se segue, é uma mudança sutil desse comportamento, aparentemente inofensivo, para um temperamento um pouco mais depressivo.

Fase 2 - Sensível
Ela passa a se emocionar com qualquer coisa, desde uma pequena rachadura em forma de gatinho no azulejo em frente ao vaso sanitário, até uma reprise de um documentário sobre a vida e a morte trágica de Lady Di. 
Esse estágio atinge um nível crítico com uma pergunta que assombra todos os homens, desde os inexperientes até os mais escolados como o meu pai: - Você acha que eu estou gorda?
Notem que não é uma simples pergunta retórica. Reparem na entonação, na escolha das palavras. O uso simples do verbo “estou” ao invés da combinação “estou ficando”, torna o efeito da pergunta muito mais explosiva do que possamos imaginar. E essa pergunta, é só o começo da pior fase da TPM. Essa pergunta é a linha divisória entre essa fase sensível da mulher para uma fase mais irascível.

Fase 3 - Explosiva
Essa é a fase mais perigosa da TPM. 
Há relatos de mulheres que cometeram verdadeiros genocídios nessa fase. Desconfio até que várias limpezas étnicas tenham sido comandadas por mulheres na TPM. 
Exagero à parte, realmente essa é a pior fase do ciclo tepeêmico. Você chega na casa dela, ela está de pijama, pantufas e descabelada. A cara não é das melhores quando ela te dá um beijo bem rápido, seco.
Depois de alguns minutos de silêncio total da parte dela, você percebe que ela está assistindo aquele canal japonês que nem ela nem você sabem o nome. Parece ser uma novela ambientada na era feudal. Sem legendas. Então, meio sem graça, sem saber se fez alguma coisa errada, você faz aquela famosa pergunta: “Tá tudo bem?”. A resposta é um simples e seca: “Tá”, sem olhar na sua cara. Não satisfeito, você emenda um “Tem certeza?”, que é respondido mais friamente com um rosnado baixo e cavernoso “teenhoo”.

Aí, como somos legais e percebemos que ela não tá muito a fim de papo, deixamos quieto e passamos a tentar acompanhar o que Tanaka está tramando para tentar tirar Kazuke de Joshiro, o galã da novela que...
- Merda, viu!? - ela rosna de repente.
- Que foi?
A fase explosiva acaba de atingir o seu ápice com essa pergunta. Sem querer, acabamos de puxar o gatilho. O que se segue são esporros do tipo:
- Você não liga pra mim! Tá vendo que eu tô aqui quase chorando e você nem pergunta o que eu tenho! Mas claro! Você só sabe falar de você mesmo!
- Ah, o seu dia foi uma droga? O meu também! E nem por isso eu fico aqui me lamuriando com você! E pára de me olhar com essa cara! Essa que você faz, e você sabe que me irrita! Você não sabe! Aquele vestido que você me deu ficou apertado! Aaaai, eu fico looooouca quando essas coisas me acontecem!
- Você também, não quis ir comigo no shopping trocar essa droga! O pior de tudo é que hoje, quando estava indo para o trabalho, um motoqueiro mexeu comigo e você não fez nada! Pra que serve esse seu Jiu Jitsu? Ah, você não estava comigo? Por que não estava comigo na hora? Tava com alguém? Aquela sua colega de trabalho, só pode ser ela. E nem pra me trazer um chocolate! Cala sua boca! Sua voz me irrita! Aliás,vai embora antes que eu faça alguma besteira. Some da minha frente!

Desnorteado, tenta dar um beijinho de boa noite e quase leva uma mordida.

Fase 4 - Cólica

No dia seguinte o telefone toca. É ela, com uma voz chorosa, dizendo que está com uma cólica absurda, de não conseguir nem andar. Você vai à casa dela e ela te recebe dócil, superamável. Faz uma cara de coitada, como se nada tivesse acontecido na noite anterior, e te pede pra ir à farmácia comprar um Atroveran, Ponstan ou Buscopan pra acabar com a dor dela.Você sai pra comprar o remédio meio aliviado, meio desconfiado “O que aconteceu?”, você se pergunta. “Tudo bem”, você pensa: “Acho que ela se livrou do encosto”. 

Pronto! A paz reina novamente. A cólica dobra (literalmente) a fera e vocês voltam a ser um casal feliz. Pelo menos até daqui a 20 dias...


Desde os confins da terra eu clamo a ti, com o coração abatido; põe-me à salvo na rocha mais alta do que eu. 

(Salmos 61:2)

segunda-feira, 20 de abril de 2015


Felicidade é ir ao estádio e não ser atingido na cabeça por um vaso sanitário arremessado por um fanático de merda.
É não comemorar gols de letra com uma torcida burra.
É vestir o manto sagrado do time, mesmo sendo ateu.
É sentar no chão da sala e brincar coisas de criança aos 48 anos de idade.
É dizer toda a verdade mesmo sem estar bêbado.
É mentir para o filho que a vida será para sempre boa.
É cantar “I’m singing in the rain” no chuveiro.
É ter alguém que lhe ensaboe as costas.
É voltar a sonhar que, de repente, você está completamente nu, em plena sala de aula, sem que ninguém tenha percebido ainda.
É conseguir tirar as roupas de alguém utilizando apenas os olhos.
É ser despido ao som de “Slave to love”, do Bryan Ferry.
É criar: voar sem asas
É manter um sonho vivo sem a ajuda de aparelhos.
É passar em frente uma construção e ser ovacionada pelos operários.
É assobiar canções de amor depois de ter arrancado os sisos com um dentista.
É permitir que uma paisagem o anestesie.
É contar com a música para ir tocando em frente.
É contar dinheiro, mas, nada que se compare a contar quantas vezes o mar quebra na praia durante o crepúsculo.
É malhar o músculo, ouvir Dorival Caymmi e operar a fimose.
É gozar a lua de mel todinha, ainda que se seja diabético.
É ter o privilégio de adoçar o café de um político ético. Ou seja: felicidade é se deparar numa esquina com um ornitorrinco albino e bilíngue.
É receber um beijo de língua da boca da noite.
É poder votar livremente.
É poder devotar a si mesmo toda a falta de fé que se sente.

Felicidade é foda.
Felicidade pode ser pra você e não pra mim.

Felicidade é jamais matar um homem, nem por força da lei.
Puta que o pariu! Felicidade é um parto normal bem sucedido.
É um torturador que se aposenta.
É a marmita que esquenta.
É quando um tirano morre.
É o renascer da esperança.
É quando a história castiga os insanos para sempre.
É tomar o primeiro chope após sair da UTI.
É evaporar um tumor.
É decifrar a caligrafia de uma receita médica.
É quando o doutor lembra o seu nome.
É deitar e rolar no passeio público.
É cagar e andar para o que pensam da gente.
É voltar a cagar, é voltar a andar, é estar por aí, vivo e aceso.
É sobreviver ao peso de um chatíssimo clássico da literatura mundial que alguém lhe indicou.
É chorar para as amigas durante a happy-hour.
É calar a dor no colo da mãe.
É um pobre poeta ser premiado, de repente, com uma rima rica.
É aprender a beijar com as primas.
É enterrar velhos ressentimentos.
Felicidade é incerta, é contar com uma coberta numa noite fria.
Felicidade é momento, varia.
Felicidade pode ser uma dose de cicuta no cálix bento.


A felicidade é uma coisa foda – Eberth Vêncio



Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta. 

(Mateus 7:7-8)

domingo, 19 de abril de 2015

♪ todo dia era dia de índio ♪


mas o “mim” se faz presente no vocabulário de muita gente.


“A gente podia poder costurar o tempo, bordando em cima dos erros para que eles sumissem.
Costurar as pessoas que gostamos pertinho, costurar os domingos um mais perto do outro.
Costurar o amor verdadeiro no peito de quem a gente ama, costurar a verdade na boca dos seres.
Costurar a saudade no fundo do baú para ela não fugir.
Costurar a auto-estima lá em cima, para nunca cair.
Costurar o perdão na alma e a bondade na mão.
Costurar o bem no bem e o mal sobre o mal.
Costurar a saúde na enfermidade e a felicidade em todo o lugar e ir costurando a vida, um pouquinho de esperança em cada dia e muita coragem em cada ser humano.”


__Janaína Cavallin

O SENHOR é quem vai adiante de ti; ele será contigo, não te deixará, nem te desamparará; não temas, nem te atemorizes. 

Deuteronômio 31:8

terça-feira, 14 de abril de 2015


Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!

__Eduardo Galeano - O Livro dos Abraços

O pensador e escritor Eduardo Galeano partiu, ontem. 

segunda-feira, 13 de abril de 2015


E que o sol amanhã brilhe mais forte.
Que o céu amanheça azul-felicidade enfeitado de nuvens cor de algodão.
Que o amanhã seja melhor do que ontem e que, a vida, abra um sorriso sincero,
pra quem ainda acredita.

Acredita sempre. Que pode ser sempre melhor.
Que a gente amanheça sol, ao invés de .
Que façamos novos laços, ao invés de nós.
E que ao acordar, penduremos amor,
na porta de casa.
E do coração.



amadurecer é: descer do salto



Dia desses, olhando fotos antigas e a minha velha pasta de músicas de cinco anos atrás, percebi o quanto eu cresci – é que o amadurecimento tem dessas, é mensurável pelas coisas mais simples.

Reparei no meu cabelo escovado no porta-retratos. No salto alto e na cara de sofrimento, provavelmente pelas dezenas de calos nos meus pobres pezinhos. Ou pela pose que tinha de ser mantida, por tudo o que me impedia de me exceder na bebida (ou, aliás, de me exceder em qualquer coisa que fosse). Talvez pelo cara bonito com quem eu não poderia puxar assunto, pois, eu precisava esperar ele vir me convidar pra dançar.

Quais eram, afinal, essas grades invisíveis que me aprisionavam? Que força horrenda mantinha meus pés dolorosamente equilibrados naqueles saltos 15? Pra quem eu precisava provar que eu era esguia, comportada e tinha absoluto autocontrole? Na verdade, eu não pensava sobre isso na época – e, mesmo se pensasse, provavelmente eu não encontraria essas respostas.
Mas, depois de muitos calos, eu as encontrei: É que chegamos a uma fase da vida em que não precisamos provar nada pra ninguém. É quando a gente escolhe, constantemente, as sapatilhas. É quando a gente se joga de cabeça sem medo de sair descabelada. É quando a gente não tem medo de perder, por que a gente entende que não há o que ser perdido.

Não há nada em jogo além da felicidade. E como ser feliz quando não se é livre?

É claro que o salto alto é bem-vindo, porque, convenhamos, nos deixa absolutamente sexys como num passe de mágica. Mas, entre estar confortável e impressionar alguém, a gente não pode mais titubear na resposta. É preciso optar por si mesmo.

A gente olha pros lados e não procura um olhar de desejo ou de despeito – a gente procura um novo drink, um novo amigo, um novo livro, um novo lugar, uma nova música… A gente entende que o que os outros pensam ao nosso respeito não nos diz respeito.
E a gente entende, sobretudo, quanta beleza há em estar confortável. Na cara lavada, nos pés no chão, nas roupas menos justas (e não menos sexys), no corpo de quem se cuida sem esquecer – nem por um segundo – de ser feliz.

E que o que importa nessa vida é cuidar da gente e de quem cuida da gente. Que dá pra sair sem protetor solar de vez em quando. Dá pra assumir  o cabelo natural. Dá pra usar chinelo de dedo. Dá. Dá pra dar no primeiro encontro. Dá pra se exceder na bebida de vez em quando – ou quase sempre, por que não? Dá pra viver, reviver, começar tudo de novo. Dá pra amar, dá pra sonhar. Dá pra ser feliz.

____Nathali Macedo

carta ao amor


Penso que desejamos a separação para não sofrer mais. Produzimos a separação, é a resposta mais rápida. A resposta mais rápida é vista como a certa. Um alívio para seguir com o trabalho, e mostrar clareza aos amigos.

E os amigos bem-intencionados não vão nos ajudar. O que disserem a respeito do que aconteceu não será suficiente, o amor é um dialeto restrito aos dois que se amam.

Não reparamos no principal, Amor. Não reparamos que quando amamos o tempo não faz a mínima diferença. Amar será sempre recente: será ontem. Anos juntos e a sensação é que foi ontem. Anos separados e a sensação é que foi ontem. Ontem, ontem. Não há anteontem no amor. As lembranças mais longínquas já são corpo.


É uma pena, Amor, que somos mais decididos do que amorosos. Amar é não decidir. Decidir é terminar sempre.


“As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença...”

Salmo 19:14

domingo, 12 de abril de 2015



Me dei conta, depois da vida me estapear a cara diversas vezes, que quem te quer faz o possível e o impossível para ficar contigo.
É simples. Não é complicado ou complexo, não.
A gente é que coloca vírgulas, exclamações e interrogações.
Mas o amor de verdade é cheio de reticências, de continuidade.
Porque você quer. E a outra pessoa também.

Uma relação pra dar certo tem que ter sintonia.
Os dois têm que caminhar na mesma direção.
Não adianta você querer puxar o outro pela mão.
Tentar carregar no colo.
Dar uma carona.
Arrastar pelos pés.
O outro tem que querer ir.

Tudo bem, eu sei que existe muita gente que faz uma coisa e diz outra.
O cara diz que não te quer, mas aceita ir ao cinema.
Então eu me pergunto: é isso que você quer?
É esse tipo de relação que espera ter?
Me desculpa, mas eu quero alguém que diga e faça.

Não sou mais aquela adolescente desesperada por atenção e algum tipo de afeto.
Eu cresci e meu pensamento amadureceu.
Não mereço uma pessoa que não sabe o que quer.
Mereço certezas. Mereço que seja recíproco.
Não quero alguém que me bajule o tempo todo.
Não precisa abrir porta de carro, oferecer diamantes, pagar o jantar.
Só precisa ser sincero. E real.
E, principalmente, se entregar por inteiro.
Porque não estou aqui para receber metade de nada.

quando amei, surtei


Incrível como o amor é capaz de modificar tudo nessa vida. O amor é capaz de alterar o nosso paladar, pois quando amei de verdade até o jiló virou manjar.

Quando amei, a poça de água da rua virou água cristalina. O bêbado fedorento da esquina recebeu meu abraço fraterno. A fila do bando durou o tempo suficiente para eu enviar trezentos sms. 

Acho fenomenal o efeito do amor, pois até de futebol eu entendo um pouco e sou capaz de fazer a onda com um rebolado sexy imperdível. Amor, amor que muda o humor. Foi por causa dele que aprendi a gostar da sogra. Cozinhar algo mais além de macarrão instantâneo. Lavar as cuecas cantando “Amor I Love You”. 

Foi apenas quando amei que entendi todas as letras das músicas românticas adocicadas que eu detestava. Que passei a sorrir como tonta, para o sol de meio dia. Que minha fome foi saciada com folhas de alface. Culpa do amor. 

Quando amei de verdade, li gibi pensando que eram poemas. Enxerguei estrelas no meio de uma trovoada. Viajei de carona com uma trupe que nada tinha a ver comigo. Acampei numa praia estranha com pernilongos que nunca foram convidados, mas fiz com eles uma boa amizade que me levou a acreditar que insetos podem ser bem simpáticos.
Foi o amor que me fez sentir dor de barriga, frio no peito, dor de cabeça, ficar muda mesmo com mil palavras querendo sair da boca. Acordar cedo. Simpatizar com meu chefe.
O amor, esse sentimentozinho escroto me fez usar o mesmo banheiro. Ensaboar as costas do cara. Memorizar todas as palavras melosas. Arrumar apelidos toscos para um sujeito com um nome pra lá de feio. 

Quando amei fiz diligências em todas as redes sociais a procura de algum sinal que mostrasse algum deslize do sujeito. Anotei a placa. Gravei o número. Fiquei horas ao telefone falando abobrinhas sem sentido. Fiquei de prontidão, tolerando duas horas de atraso para aquela noite romântica, com um sorriso frouxo e raiva no coração. Coloquei salto alto, mesmo adorando rasteirinha. Adotei roupa colada. Passei a usar saias em nome de um ser mais feminino. 

Quando amei, na intimidade fiz papéis variados. Fui bailarina, enfermeira, mulher cobra, chapeuzinho vermelho em poses ridículas. Se fosse teste para comediante, teria lugar cativo.

Quando amei, fiz tatuagem no pulso. Ginástica na madrugada. Usei decotão. Sapatinho. Fiz traquinagens. Gargalhei com bobagens. Corri atrás do amor sem os anéis e quase perdi os dedos. Dancei colada. Subi escadas. Paguei promessas. Li horóscopo. Fui rosa, sendo apenas galhos de folhas secas. 

Se pensarem que parei aqui? Enganam-se. 

Quando amei, eu também deixar de fazer umas coisas que gostava. Nunca mais usei as calcinhas enormes de algodão e minhas gavetas passaram a ficar cheias de lingeries vermelhas igual fogo. Não dormi mais de camisolas furadas e confortáveis. Deixei de colocar máscaras diárias e rodelas de pepino nas olheiras, para não assustar o sujeito.

O amor carregou-me para longe e de bicicleta porque é mais romântico.
Na terra do faz de conta, amei.


Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram

Rm 12.15

quinta-feira, 9 de abril de 2015

não pegue essa carona


A atitude do copiloto que voava de Barcelona para Düsseldorf foi estarrecedora, pra dizer o mínimo. São muitas as perguntas: uma pessoa profundamente deprimida pode perder o discernimento entre certo e errado? Andreas Lubitz teria se inspirado no primeiro episódio do filme Relatos Selvagens? Ter seu nome reverberado pelo mundo é motivação suficiente para uma insanidade cuja repercussão ele nem testemunharia, já que o insano também morreu?
Conduzir um avião lotado em direção a uma montanha a fim de espatifá-lo é um caso isolado. Lamentamos, perplexos, mas não temos medo de que venha a acontecer de novo, ao menos não tão cedo. No dia seguinte à tragédia, embarquei num avião e nem por um segundo pensei que na cabine de pilotos pudesse estar alguém incapacitado para realizar sua tarefa e com ideias estapafúrdias na cabeça. Essas coisas simplesmente não se repetem com trivialidade.

Não se repetem num avião, mas e nas estradas, e nas ruas? Inúmeros ônibus de turismo despencam ribanceira abaixo porque o motorista corria demais ou porque dormiu ao volante, e por causa de sua pressa e cansaço levam várias vidas embora com ele. Não é considerado suicídio porque não foi de propósito, mas o propósito pode se esconder em camadas menos aparentes. Ausência de responsabilidade pode ser um jeito escamoteado de cair fora.

O cara que atravessa três noites sem dormir e pega um carro. O cara que pega um carro e dirige a 180 km/h. O cara que dirige a 180 km/h pelo acostamento. O cara que dirige pelo acostamento de um penhasco. São várias tentativas de se matar sem dar na vista, sem assumir nem para si mesmo o que está fazendo.

O problema é que, não sendo uma tentativa de suicídio assumida, dá-se carona.

Não foram poucas as vezes em que eu disse para um motorista destemido: quer se matar, deixa eu descer antes, não me leva junto. Soava dramático, mas funcionava. Graças a um resquício de noção, o sujeito tirava o pé do acelerador.

Há sempre alguém por perto que tem menos amor à vida. Ou menos condição psicológica. Ou menos sensatez, menos senso de dever, menos tolerância a seguir regras – vá saber. E, uma vez que não se preocupa com o perigo que corre, envolve outras pessoas que poderão ser passageiros de uma viagem com destino indesejado.

Então, abandone os táxis que voam pelas avenidas. Assuma o volante de carros de namorados que estão sem condição de dirigir. Denuncie motoristas de ônibus que estão pisando fundo. Não ande com gente armada. Afaste-se de quem é muito estourado. As inocentes vítimas do voo da Germanwings não tiveram nenhuma dessas prerrogativas porque existia uma cabine trancafiada e um propósito consciente. Mas sejamos sensíveis aos propósitos inconscientes.