"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Eu te verei quando ficar de noite!
Se temos de esperar, que seja para colher a semente boa que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear, então que seja para produzir milhões de sorrisos, de solidariedade e amizade.

A despeito do que poderia os desavisados pensarem,
amor e cansaço não são incompatíveis.
As pessoas cansam de amar, cansam mesmo.
Quando amar é uma luta inglória...

-|Balzac|- 

Não responda ao insensato com igual insensatez,
do contrário você se igualará a ele.

Provérbios 26:4

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Aos canalhas


Obrigada, canalhas. É. Obrigada e parabéns!
Nada mais justo do que reconhecer um trabalho se bem feito for. Classifico minha vida em antes e depois dos canalhas.
Resultado final: 1,68cm de pura esperteza!

Obrigada a você, “canalha-do-telefone”. Graças a você, que disse que telefonaria amanhã (nunca), eu aprendi que ligações pré-anunciadas dessa forma são um tanto formais demais para uma suposta aspiração a casal. Quem quer liga sem avisar. Quem quer faz surpresa.

Obrigada a você, “canalha-da-cartola”. Graças a você, que sumiu do nada e sem explicações, eu pude aprender que para algumas pessoas, fugir dos problemas parece ser a solução mais fácil. Aprendi que essa solução é realmente mais fácil, porém, é muito mais dolorosa. Graças a você aprendi que covardia é truque para os fracos e que as coisas podem ser facilmente resolvidas se conversadas.

Obrigada a você, “canalha-do-ônibus”. Graças a você, que um dia disse: me-esqueça-estou-em-outra, eu aprendi que algumas coisas passageiras não valem a pena, aprendi a não correr atrás de quem vive de parada em parada. Aprendi que o mundo gira e que, apesar de ser grande, é redondo, as pessoas se reencontram. Aprendi que reencontros nem sempre são lindos e felizes. Aprendi que vingança existe e tem gosto.

Obrigada a você, “adorável-canalha”. Graças a você, que disse em tom de inocente displicência: e-se-eu-te-disser-que-eu-sou-um-canalha?, eu aprendi que os canalhas podem ser bem-humorados e boas companhias. É, alguns canalhas jogam limpo. Aprendi que você pode conviver com um deles, desde que saiba exatamente quando apertar os botões play, pause e stop.

Obrigada a você, o “canalha-do-carretel”. Graças a você, que me enrolou, eu aprendi que quem enrola se enrola muito mais no final. Descobri que quem quer não tem tantas dúvidas.

Obrigada a você também, “canalha-bom-moço”.  Graças a você aprendi que ser ogro é coisa de alma. E que julgar o livro pela capa confere.

E, finalmente, obrigada a você, “pseudo-canalha”. Graças a você eu descobri que nem sempre aquele moço (aquele que te manda mensagens lindas e fofas, aquele que não só promete, faz, aquele que te dá amor, carinho e atenção, aquele mesmo que você nem acredita que existe), aquele moço não é um canalha. Aprendi que experiências não são regras e que toda regra tem sim uma exceção. Aprendi, então, que para aprender é preciso mesmo dar a cara a tapa, sentir na pele torna as coisas mais marcantes.

Um largo obrigada a vocês, canalhas que passaram pela minha vida. Vocês não foram totalmente inúteis.
Foi topando em caras errados que aprendi a andar com cautela para não chutar o cara certo.

Todos somos mortais até ao primeiro beijo e ao segundo copo de vinho.

[ Eduardo Galeano ]

Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer;
se tiver sede, dê-lhe de beber.
Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele,
e o Senhor recompensará você.

Provérbios 25:21-22

quarta-feira, 28 de novembro de 2012


''Nem faz tanto tempo assim, as pessoas diziam vosmecê. "Vosmecê concede a honra desta dança?"
Com o tempo, fomos deixando a formalidade de lado e adotamos uma forma sincopada, o popular você. "Você quer ouvir uns discos lá em casa?"
Parecia que as coisas ficariam por isso mesmo, mas o mundo, definitivamente, não se acomoda. Nesta onda de tornar tudo mais prático e funcional, as palavras começaram a perder algumas vogais pelo caminho e se transformaram em abreviaturas esdrúxulas, e você virou vc. "Vc q tc cmg?"

Nenhuma linguagem é estática, elas acompanham as exigências da época, ganham e perdem significados, mudam de função. Gírias, palavrões, nada se mantém os mesmos. Qual é o espanto?

Espanto, aliás, já é palavra em desuso: ninguém mais se espanta com coisa alguma. No máximo, ficamos levemente surpreendidos, que é como fiquei quando soube que um dos canais do Telecine iria abrir um horário às terças-feiras para exibir filmes com legendas abreviadas, tal qual acontece nos chats. Uma estratégia mercadológica para conquistar a audiência mais jovem, naturalmente, mas e se a moda pegar?

Hoje, são as legendas de um filme. Amanhã, poderá ser lançada uma revista toda escrita neste código, e depois quem sabe um livro, e de repente estará todo mundo ganhando tempo e escrevendo apenas com consoantes - adeus, vogais, fim de linha pra vocês.

O receio de todo cronista é ficar datado, mas, em contrapartida, dizem que é importante este nosso registro do cotidiano, para que nossos descendentes saibam, um dia, o que se passava nesta nossa cabecinha jurássica.
Posso imaginar, daqui a 50 anos, meus netos gargalhando diante deste meu texto: "ctd d vv".

Coitada da vovó mesmo. Às vezes me sinto uma anciã, lamentando o quanto a vida está ficando miserável.
Não se trata apenas dos miseráveis sem comida, sem teto e sem saúde, o que já é um descalabro, mas da nossa miséria opcional.
Abreviamos sentimentos, abreviamos conversas, abreviamos convivência, abreviamos o ócio, fazemos tudo ligeiro, atropelando nosso amor-próprio, nosso discernimento, vivendo resumidamente, com flashes do que outrora se chamou arte, com uma idéia indistinta do que outrora se chamou liberdade.
Todos espiam todos, sabem da vida de todos, e não conhecem ninguém.
Modernidade ou penúria?

As vogais são apenas cinco. Perdê-las é uma metáfora.
Cada dia abandonamos as poucas coisas em nós que são abertas e pronunciáveis.

Daqui a pouco vamos apenas rugir. Grrrrrrrr.
E voltar para as cavernas de onde todos viemos.''

A palavra proferida no tempo certo é como frutas de ouro incrustadas numa escultura de prata.

Provérbios 25:11

terça-feira, 27 de novembro de 2012


"A gente tem fome de vida, de tudo, luta contra a morte o tempo inteiro e esquece que provavelmente o amor é maior que as duas coisas juntas."

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
aceitar o que passou, o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

Hoje já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez

Só por hoje eu não vou me machucar
...
Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi.

-| Só por hoje - Renato Russo |-

“- Então não o ama mais?
- Amo. Só guardei isso num cofre. E tranquei. E esqueci a senha. Não porque quis. Foi preciso.”



A boa reputação vale mais que grandes riquezas;
desfrutar de boa estima vale mais que prata e ouro.

Provérbios 22:1

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"(...) A pontualidade é a virtude metódica das ocorrências sisudas e entendiantes de cada dia.
Não do amor.
Pois nada na vida é tão translouco.
É crime inafiançável exigir certeza do mais acidental, insensato e desvairado dos episódios.
O amor."

Não eras para os meus sonhos, não eras para a minha vida
Nem para os meus cansaços perfumados de rosas
Nem para a impotência da minha raiva suicida
Não eras belo e doce, o belo e doloroso

Não eras para os meus sonhos, não eras para os meus cantos
Não eras para o prestígio dos meus amargos prantos
Não eras para a minha vida nem para a minha dor
Não eras o fugitivo de todos os meus encantos
Não merecias nada
Nem o meu áspero desencanto
Nem sequer o lume que pressentiu o amor

Bem feito, é muito bem feito que tenhas passado em vão
Que a minha vida não se tenha submetido ao teu olhar
Que aos antigos prantos se não tenha juntado
A amargura dolente de um estéril olhar

Tu eras para o imbecil que te quisesse um pouco
(Oh! Meus sonhos doces. Oh meus sonhos loucos!)
Tu eras para um imbecil, para um qualquer
Que não tivesse nada dos meus sonhos, nada (...)

Não eras para os meus sonhos, não eras para a minha vida
Nem para os meus quebrantos nem para a minha dor
Não eras para os prantos das minhas duras feridas
Não eras para os meus braços, nem para a minha canção

Dois pesos diferentes e duas espécies de medida
são abominação ao Senhor,
tanto um como outro.

Provérbios 20:10

sexta-feira, 23 de novembro de 2012


“Para sempre é sempre por um triz”

No programa ‘Que Marravilha! Romance’ da semana passada, Claude Troisgros recebeu o cantor Lenine e sua esposa Anna Barroso, até então uma ilustre desconhecida pra mim.

Enquanto Claude cozinhava, o casal que está junto há 32 anos, contava como se conheceram e o que os mantém unidos. E foi aí que Anna Barroso falou a frase da música “Beatriz” do Chico Buarque, que citei acima e que me chamou a atenção.

Permitindo-me refletir sobre ela:
A certeza de que o “para sempre” pode um dia acabar, deveria nos motivar a cuidarmos mais e dedicarmos mais atenção e carinho a todos aqueles que amamos e que nos façam bem, enquanto estão do nosso lado.

“Sim, é como a flor. De água e ar luz e calor, o amor precisa para viver, de emoção e de alegria, e tem que regar todo dia”.

O mesmo cuidado de um prato elaborado... aquele se come com o olfato, os olhos e o paladar.

(Para o jantar, Claude preparou um linguado com pirão de tucupi, caviar frito e alho negro)

Dos cuidados com o amor


A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte;
os que gostam de usá-la comerão do seu fruto.

Provérbios 18:21

quinta-feira, 22 de novembro de 2012


“Lembre-se de que se algum dia você precisar de ajuda, você encontrará uma mão no final do seu braço.
À medida que você envelhecer, você descobrirá que tem duas mãos - uma para ajudar a si mesmo, e outra para ajudar aos outros.”

- Eu jamais fui infiel a minha mulher, doutor.
- Sim.
- Aliás, nunca tive outra mulher. Casei virgem.
- Certo.
- Mas, desde o começo, sempre que estava com ela, pensava em outra. Era a única maneira que conseguia, entende? Funcionar.
- Funcionar?
- Fazer amor. Sexo. O senhor sabe.
- Sei.
- No princípio, pensava na Gina Lollobrigida. O senhor se lembra da Gina Lollobrigida? Por um período, pensei na Sofia Loren. Fechava os olhos e imaginava aqueles seios. Aquela boca. E a Silvana Mangano. Também tive a minha fase de Silvana Mangano. Grandes coxas.
- Grandes.
- Às vezes, para variar, pensava na Brigitte Bardot. Aos sábados, por exemplo. Mas para o dia-a-dia, ou noite-a-noite, preferia as italianas.
- Não há nada de anormal nisso. Muitos homens...
- Claro, doutor. E mulheres também. Como é que eu sei que ela não estava pensando no Raf Valone o tempo todo? Pelo menos eram da mesma raça.
- Continue.
- Tive a minha fase americana. A Mitzi Gaynor.
- Mitzi Gaynor?!
- Para o senhor ver. A Jane Fonda, quando era mais moça. Algumas coelhinhas da Playboy. E tive a minha fase nacionalista. Sônia Braga. Vera Fischer. E então começou.
- O quê?
- Nada mais adiantava. Eu começava a pensar em todas as mulheres possíveis. Fechava os olhos e me concentrava. Nada. Eu não conseguia, não conseguia...
- Funcionar.
- Funcionar. Isso que nós já estávamos na fase da Upseola.
- Upseola?
- Uma por semana e olhe lá. Mas nada adiantava. Até que um dia pensei num aspirador de pó. E fiquei excitado. Por alguma razão, aquela imagem me excitava. Outro dia pensei num Studebaker 48. Deu resultado. Tive então a minha fase de objetos. Tentava pensar nas coisas mais estranhas. Um daqueles ovos de madeira, para cerzir meia. Me serviu duas vezes seguidas. Pincel atômico roxo. A estátua da Liberdade. A ponte Rio-Niterói. Tudo isto funcionou. Quando a minha mulher se aproximava de mim na cama eu começava, desesperadamente, a folhear um catálogo imaginário de coisas para pensar. O capacete do kaiser? Não. Uma Singer semi-automática? Também não. Um acordeom, quente, resfolegante... Mas, depois de um certo tempo, passou a fase das coisas. Tentei pensar em animais. Figuras históricas. Nada adiantava. E então, de repente, surgiu uma figura na minha imaginação. Uma mulher madura. O cabelo começando a ficar grisalho. Olhos castanhos... Era eu pensar nessa mulher e me excitava. Até mais de uma vez por semana. Até as segundas-feiras, doutor!
- E essa fase também passou?
- Não. Essa fase continua.
- Então, qual é o problema?
- O senhor não vê, doutor? Essa mulher que eu descrevi. É ela.
- Quem?
- A minha mulher. A minha própria mulher. Me ajude, doutor!

O nome do Senhor é uma torre forte;
os justos correm para ela e estão seguros.

Provérbios 18:10

quarta-feira, 21 de novembro de 2012



Minha mulher tinha a mania de colocar os fósforos usados de volta para a caixinha.
Assim que riscava, guardava os palitos velhos com os novos.
Nunca colocava fora, apesar da facilidade do lixinho branco em cima da pia.
Nem acho que era pressa, mas hábito. Tentei adverti-la uma vez, duas vezes, até que estava sendo desagradável e desisti (quando marido se assemelha a um pai, é o momento de calar a boca).
Mesmo disposto a me adaptar e não comprar briga, eu me irritava com aquela roleta-russa toda manhã. É evidente que pegava de imediato uma série de fósforos queimados – não sei se você sabe, mas sou o autor da Lei de Murphy na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.
O azar me premiava. Jamais retirava de cara a cabeça ruiva da caixinha amarela. Sacrificava preciosos minutos para preservar a chatice da esposa.
Acender incenso, acender fogão, acender vela reivindicavam o suspense do sorteio, a contagem de votos da eleição. E muita paciência para não gritar um bom desaforo ao longo da porta.
Aquilo era ainda mais claustrofóbico para quem aprendeu a tabuada separando grãos de feijão e fósforos. Reproduzia o terror das provas orais, das superações matemáticas.
A caixa não se abria como uma caixa, e sim se aprofundava como uma gaveta desorganizada, uma bolsa de mulher, um armário de solteiro. Solicitava o dobro de cuidado para revirar o fundo e contornar as pontas com o tato.
Eu me enxergava penalizado, diferente de qualquer pessoa normal, que apenas riscava o fulgor e não pensava.
Sofri dois anos com minha indisposição.
Somente hoje reparei que gosto imensamente da dúvida, da possibilidade de colher um fogo extinto ou um fogo vivo.
É uma ansiedade feliz. Uma expectativa pequena, porém agradável.
Encaro o fósforo e confiro se ele tem a pólvora intacta, se vai explodir sua cabeleira loira e azul.
Faz sentido, porque liberdade significa manter nossa disposição para se surpreender dentro da rotina.
Presto uma maior atenção na chama, no seu desenho e som. Descubro que o fósforo é um relâmpago em miniatura, tão bonito quanto os raios que cortam os morros e céus. Solto uma risada infantil assim que ele mantém sua auréola firme.
Amar a si próprio é esse movimento: não se resignar, não se conformar com o que foi feito, não mergulhar na repetição desanimada dos dias: olhar cada lembrança de frente e ver se ainda queima.
Olhar cada palavra de frente e ver se ainda queima.
Olhar cada atitude de frente e ver se ainda queima.
E incendiar a nossa vida na vida do outro.

(A gente se adapta às manias do outro e elas se tornam nossas companheiras.
Mesmo que o outro se vá, deixa as manias para nos lembrar que estiveram ali.)


Tentaram me convencer que sonhos são bobagens.
Mas, sempre fui muito teimosa.
Eu sigo acreditando, mesmo que às vezes, fique aquele amargo na boca.
Mas aí, a gente chora lágrimas curativas, aquelas que deixam a alma branquinha. Tão branquinha que quando você toma sol, ela se parte num prisma com milhões de cores e você não tem mais uma alma branca e sim, furta-cor!
Depois, você estampa aquele sorriso no rosto, aquele que só aparece depois de muita chuva.
E começa a soltar beijos pelo ar.
Porque você sabe que o mundo é redondo, manda tudo pelo vento que um dia eles voltam pra você.
Não esqueça o arco-íris.
Espera por ele, se não vir, inventa, pinta um no muro.
Depois pega duas estrelas e cola nos olhos.
Você está lembrando dos castelos de ar, eles estão onde deveriam estar, agora, você tem que começar a lhes dar os alicerces, viu?
Assim, ninguém vai suspeitar de nada.
Você será sempre uma pessoa cheia de fé.
Mesmo que às vezes, a fé falhe.
Mas, isso não é o mais importante.
O importante é que você nunca deixa de acreditar.


A despeito do que poderia os desavisados pensarem,
amor e cansaço não são incompatíveis.
As pessoas cansam de amar, cansam mesmo.
Quando amar é uma luta inglória...

Balzac

O amigo ama em todos os momentos; e na adversidade nasce o irmão.

Provérbios 17:17

terça-feira, 20 de novembro de 2012

tiamu pra kawaka


Traição e semântica


Quando alguém diz, por exemplo, "João traiu Renata", a primeira coisa que me vem à cabeça é que João espalhou um segredo cabeludo que Renata havia lhe confiado, ou então que João entregou Renata para a polícia, ou ainda que João fugiu com todo o dinheiro que Renata havia economizado, que crápula.
Nunca penso que João transou com outra mulher.

Trair pressupõe que algo foi feito contra alguém. E sexo não é algo que seja feito contra uma terceira pessoa.
Sexo é sempre a favor, sempre pró, e sempre egoísta "não diz respeito a quem ficou do lado de fora do quarto".
Faz-se sexo para dar e receber prazer, e não para prejudicar quem quer que seja.
Traição é uma palavra dura demais para ser usada como sinônimo de infidelidade e adultério.

A palavra adultério é até romântica, remete à encontros clandestinos, beijos roubados, vidas secretas, roteiros de cinema, letras de samba.
O adúltero "apesar de ter que carregar este palavrão nas costas" é na verdade um alegre.

Infidelidade já é uma palavra mais burocrática, boa para ser usada em tribunais, alegar quebra de contrato.
É palavra comprida e possui um certo status, parece coisa de estelionatário graúdo, gente com conta em paraíso fiscal.
Pensando bem, conta em paraíso fiscal é uma metáfora que se aplica perfeitamente a romances paralelos.
Mas estelionato é crime, e infidelidade não é.
O infiel é um inofensivo, vende fácil seus carros usados.

Os infiéis não metem medo, os adúlteros possuem um charme boêmio, então, na falta de uma palavra mais intimidante, apela-se para "traidores", a fim de arrancar deles alguma culpa, remorso, vergonha.
Mas que ninguém se engane: a palavra traição está combinando cada vez menos com a realidade sexual vigente.
Ninguém está batendo palmas aqui para a poligamia.
Estou apenas refletindo sobre a adequação e a inadequação de certos vocábulos.
Traição? Convém enfrentar os revezes amorosos sem mexicanizar demais a cena.

No início de todo romance, homens e mulheres se satisfazem plenamente um com o outro, mas com o passar do tempo a relação passa a satisfazer apenas parcialmente, e parcialmente pode ser mais que suficiente quando inclui amizade, cumplicidade, diversão, leveza.
Porém, a parte que começa a faltar "a sedução" deixa o campo aberto para novas experiências, que podem acontecer ou não.
Nada disso tem a ver com desamor.
Pode-se amar alguém e sucumbir a uma aventura.
Não estou dizendo nenhuma novidade, estou?
Há algum inocente no recinto?

Toda traição pega você desprevenido.
A infidelidade, ao contrário, é sempre uma possibilidade, mesmo quando parece improvável.
E não, não há nenhum inocente no recinto.

Não ache que você consegue me entender com meia hora de prosa.
Sou tal qual moringa d’água.
Simples à primeira vista, como uma boa cerâmica,
mas quem me vê assim, só querendo matar a sede, só de passagem,
não faz idéia da trajetória do meu barro,
nem das tantas vezes que desejei mudar o meu destino.

(Solange Maia)

Melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranqüilidade
do que uma casa onde há banquetes, e muitas brigas.

Provérbios 17:1

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Quanto mais... PIOR!!!



Meu amigo Daniel superou 40 dias de luto da separação, aguentou no osso o divórcio, chorou horrores e debulhou suas lágrimas em copos de bourbon, parou de atender ao telefone e se trancou no quarto.

No 41º dia, ele ressuscitou. E voltou a sair e se divertir. Já estava esquecendo o quanto amava sua ex. Já estava esquecendo que foi amado pela ex.

Um homem somente apaga um amor no momento em que encontra outro. Daniel se enamorou por uma bancária. Badalou vários finais de semana com Heloísa, ria com a franqueza de um adolescente.

Apaixonado? Sim, mas seria o último a saber. Todo apaixonado é o último a saber que está apaixonado. O mundo inteiro sabe, menos o próprio apaixonado. Não adiantava contar a Daniel que ele estava apaixonado, ele jamais me escutaria. O apaixonado é surdo também.

Para comemorar a nova fase de sua vida, Daniel convidou Heloísa para almoço em restaurante francês nos fundos de um casarão.
Ele pediu cordeiro com purê de beterraba; ela, filé mignon com acompanhamentos silvestres.
Ele pediu um vinho chileno; ela avisou que não poderia beber (pois ainda iria trabalhar), e se contentou com uma Coca-Cola.
– Coca-Cola light?
– Não, senhora, só temos Zero – avisou o garçom.
– Ok, não vou me desesperar por um detalhe – replicou.

O casal soltou os braços sobre a toalha para diminuir a distância das cadeiras, ambos se olhavam firme e forte numa hipnose infindável, hipnose à moda antiga, de relógio de bolso balançando.
A mesa estava sobrando entre os dois. Ele se debruçava no prato para arrancar um beijo, ela se levantava para acariciar sua testa. Nada poderia estragar aquele bem-estar. Quase nada.

Mas quando a Coca pousou na mesa, Heloísa gelou, derrubou o arranjo de flores e fugiu para o banheiro soluçando a seco.
Ele olhou a Coca com calma: Será que tinha uma barata?
Não achou coisa alguma, até que leu um nome. A marca decidiu homenagear seus consumidores nas latinhas.
Era o nome de sua abominável ex: Carolina.
“Quanto mais CAROLINA melhor”

Heloísa não aguentou a provocação, ardia de ciúme do passado dele.

Quando um refrigerante faz uma campanha dessas, não cogita de que existem desafetos no mundo, ódio familiar, revolta interior, tristeza reprimida, viuvez, gente que levou o fora ou foi corneado ou enganado. Imagina apenas que todos se gostam e que todos vão adorar ver seu nome ou de sua namorada na embalagem.

Daniel amaldiçoou o azar, criou teorias da conspiração, não duvidou da perseguição da megera, cogitou a hipótese de ela subornar o garçom para trazer aquele refrigerante.
– Como, entre milhares de opções, surge em minha mesa logo o nome daquela vagabunda?

Não poderia responder. Heloísa recusou carona e seguiu sozinha para o emprego. Não havia mais felicidade para ser dividida.
Do copo dela, só ficou o limão


Achei legal o texto!
Para os ciumentos, qualquer motivo pequeno se torna o fim de um encontro
e até de um relacionamento,
pois além de olharem para tudo com óculos de aumento,
o ciúme é um sentimento difícil de suportar calado.

Virou moda a Coca-Cola Zero depois dessa novidade.
Queria ter uma latinha personalizada pra chamar de minha, 
mas sei que apenas 150 dos nomes mais comuns entre jovens adultos
vão estar nas embalagens e meu nome é um tanto 'démodé' .

E, também, como diria a desdenhosa raposa:
Quanto mais MARGARETH melhor?
Acho que não... eu defendo a qualidade em primeiro lugar.

Não acho justo!
O amor deve ser dividido em duas partes iguais...
No meu prato tem mais.

Há caminho que parece reto ao homem, mas no final conduz à morte.

Provérbios 16:25

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Signifique.
Deixe na vida alguma coisa terna.
Eterna.

Todas as pessoas querem deixar alguns vestígios para a posteridade.
Deixar alguma marca.
É a velha história do livro, do filho e da árvore, o trio que supostamente nos imortaliza.
Filhos somem no mundo, árvores são cortadas, livros mofam em sebos.
A única coisa que nos imortaliza - mesmo - é a memória de quem amou a gente.

Da elegância


Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.

É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado.
É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.
É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam, nas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.
É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas, nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.
É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.
Oferecer flores é sempre elegante.
É elegante você fazer algo por alguém e este alguém jamais saber disso…
É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.
É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.
É elegante o silêncio, diante de uma rejeição.
Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.
Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo.
É elegante a gentileza… Atitudes gentis, falam mais que mil imagens.
Abrir a porta para alguém… é muito elegante.
Dar o lugar para alguém sentar… é muito elegante.
Sorrir sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma…
Olhar nos olhos ao conversar é essencialmente elegante.

Pode-se tentar capturar esta delicadeza pela observação. Mas tentar imitá-la é improdutiva.

A saída é desenvolver a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que “com amigo não tem que ter estas frescuras”.

Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura.

Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos.

- Provérbios 16:9 -

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Ela era uma menina quase azul. De poses delicadas, gestos calmos, quase que meditados. Seus olhos carregavam a doçura das poesias que ela costumava ler de dia.
Suas mãos espalhavam sementes de esperança e pedacinhos de amor.

À noite, como de costume, costurava uma estrela no céu dos seus pensamentos para espantar as nuvens que tentavam se achegar e escurecer o que ia dentro.

Com palavras bonitas ela fazia um rosário e dividia com quem ela queria bem.
E se esquecia dos traumas, das quedas, da falta de voo no momento exato.

Ela carregava no bolso pó de sim. Brincava de tingir sentimentos. Bordava finais felizes em cima de histórias que ainda não terminaram. Dormia e acordava rodeada de estrelas. E anjos da guarda, que a guiavam pelo caminho bonito e todo enfeitado de Deus.

A menina, com suas mãos de fada e alma de aquarela, vivia num faz de conta que não era faz de conta coisíssima nenhuma.
Era tudo verdade e mais um pouco.
Porque ela acreditava que o mundo que ela sonhava morava do lado de dentro, bastava fechar os olhos e ativar o botão da vontade.

Ela, a menina quase azul, artista principal no palco da Dona Vida.
E sim, ela é bonita, é bonita e é bonita.

Dos contos


E com aquela boca, contou uma história de amor.
- Era pra dormir?

Fico arrependido ao brigar.
Não planejo minha raiva a ponto de soltá-la devagar, com humilde arrogância, se é que existe algo assim.
Não saio de uma discussão com a convicção de estar certo. Não saio leve, com a calma de quem fez o que deveria fazer. Não saio impune, a jogar futebol e beber depois. Não saio amasiado, esperando o pedido de desculpas do outro.
Saio ofendido, alterado, com a respiração presa. Como se tivesse sido espancado por abelhas.
Entro em desativação total. Discutir me faz mal, como um luto.

Subir a voz, empurrar, sortear desaforo. Eu me sinto grosseiro, egoísta, ínfimo.
Os vizinhos escutam os berros, as cobranças, as ironias, a bateção de portas.
Eu me vejo como um mentiroso, que não soube tocar e amar a não ser pela violência.
Exagerei na maldade, falei o que não quis dizer, mas falei e agora há uma responsabilidade em ter inventado. E as palavras que eu disse involuntariamente serão cobradas por quem xinguei. Serão catalogadas, fichadas, examinadas com rigor.

Brigar é estornar o depósito da fidelidade. É desmerecer. É desqualificar. É rebaixar logo o que mais valorizamos, para aparentar seriedade e preocupação. É bancar o triste e ofendido para convencer que sou mais triste e ofendido do que qualquer um.
Briga-se para assegurar exclusividade da dor, quando poderia garantir no lugar a exclusividade da alegria. Pode ser ciúme, inveja, incompreensão.
Nenhuma briga começa por um motivo generoso, e sim por banalidades.

Saio de toda bronca querendo fazer as pazes. Não suporto dormir em cama separada, não suporto atravessar a noite no desentendimento, não suporto as indiretas, não suporto observar o desconcerto dos filhos, no meio, fingindo olhar a tevê.

Acho que sou fraco, sou tolo, porém engulo de volta o orgulho, como quem é obrigado a tomar um remédio amargo de uma só vez. Um remédio para controlar a acidez da memória, a acidez do estômago, a acidez dos lábios.
Peço desculpas ainda que não seja o culpado. Tento fazer a amizade com o riso. Tento apelar para o abraço. Tento inclinar o dorso em barco, ainda que o barco engatinhe em terra seca, ainda que o barco demore para a chuva, ainda que o barco seja o leme de uma árvore.

Ao brigar, procuro os cartões que recebi de meus filhos. Os primeiros, dos 3 aos 5 anos, feitos com desenhos e letras garrafais, com uma distância enorme entre as palavras. Na época do presente, corrigia o português deles, procurando inspirar a escrever certo.
Que ridículo. Não era o momento de corrigir nada.
Hoje admiro qualquer erro de concordância que encontro na antiga cartolina, nos postais com colagens de revistas, nas cartas de aniversário, pois há espontaneidade no ato de dizer.
O deslize na ortografia é a paz que não encontro mais em mim.
O deslize na ortografia é como um beijo que salta do rosto e estala nos ouvidos.
Prefiro muito mais o "pesso que Deus pássaro te proteja" de meus filhos pequenos do que o "peço" adulto, que é uma ordem, não uma reza.
"Pesso" é quase uma pessoa. "Pesso" é Deus.

Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.

Provérbios 16:3

sábado, 10 de novembro de 2012


Um mês de antidepressivo e volto ao consultório da psiquiatra.
Preciso contar o que mudou.
Bom, antes, quando fechavam a porta do avião, eu pensava: 'quando eu vou começar a morrer?' e agora eu penso: 'quando é que vão servir o lanchinho de pernil vencido?'

É, substituir a morte por um lanche por apenas 48 reais a caixinha com 10 comprimidos de 20 mg me parece bem interessante.
Acho que estou bem.
Ela tinha avisado que eu sentiria fome, só não imaginei que seria de meia em meia hora.
Só nunca me imaginei comendo banana com pão de queijo às quatros da manhã.
E pior: com gemidos musicalizados.
Do tipo: cara, como a vida é boa.

Acho que tô bem.
Quando o trânsito para eu não penso mais que meu miocárdio vai explodir junto com uma veia da testa e eu, tão bonitinha, vou me dissipar pelo mundo entre tripas, bostas e sangues.
Penso apenas: 'hmmm, olha só, se o trânsito não tivesse parado, eu não teria visto que abriu uma franquia do "amor aos pedaços" nessa avenida'.
Hmmmmm.

Acho que tô bem.
Não me mordo mais dormindo, tensa, tipo: 'de onde viemos e para onde vamos' ou pior 'se Deus não existe, como faz?'.
Eu acordo pra morder, quer dizer, comer.
E Deus deve existir, caso contrário, não existiria a banana com pão de queijo às quatro da manhã.
E eu não sei de onde eu vim, mas iria fácil, agora, a uma pizzaria.

Eu acho que estou bem.
Não tenho mais pânico de atravessar a rua, de lugar fechado, de compromisso, de túnel, de trovão, de ficar doente, de cair dura, de enfartar, de calor.
Mas, pra falar a verdade, tá me dando muita fome e eu queria ir embora agora.
Eu tô bem.
Tá tudo bem.
Ah, sim, a receita, obrigada.
Hmmmm, receita! Vou pedir pra minha mãe fazer aquele bolo de?
Voltar daqui um mês?
Claro, se eu ainda passar pela porta.

A alegria do coração transparece no rosto, mas o coração angustiado oprime o espírito.

Provérbios 15:13

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Proximidade é coisa que se aprende. Demora algum tempo para que a gente relaxe na presença do outro e extraia desse contato o prazer e a paz profundos que a intimidade física proporciona. Quando isso acontece, a gente descobre, invariavelmente, que está dormindo de conchinha.

Não sei o que existe nessa posição que a torna tão universalmente afetuosa. Pense nos filmes que você viu ou nos romances que você leu: quando o narrador da história quer sugerir que o casal está muito próximo ou apaixonado, faz com que ele a abrace pelas costas e os dois adormeçam “como duas colheres”, que é o jeito como os americanos descrevem essa posição. Talvez exista a mesma expressão em japonês, mongol ou na cultura tuaregue, do norte da África. Eu não me espantaria. Sendo o corpo humano igual no mundo inteiro, é provável que diferentes culturas usem as mesmas formas corporais para demonstrar carinho e dividir conforto.

Não é raro despertarmos assustados, no meio da noite, assaltados por medos e inquietações tão humanas, tão profundas, que nem sabemos de onde eles vêm. Nesses momentos de vulnerabilidade, quando nos sentimos minúsculos e irremediavelmente solitários, abraçamos o corpo da parceira ou do parceiro como se ele fosse um refúgio, talvez o último, da nossa integridade ameaçada.

Mas isso, como eu disse no início, leva tempo. Mesmo o instinto que parece se esconder atrás do abraço de conchinha precisa ser aprendido. Lembro de um tempo, quando eu era garoto, que a proximidade de outra pessoa na hora do sono não era assim tão confortável. Aplacado o desejo, eu procurava distância e liberdade de movimentos. Só aos poucos fui percebendo que havia naquele jeito de ficar um aconchego e uma calma que eu não conhecia. Como tantos dos gestos que compõem o nosso repertório afetivo, o abraço cheio de sono e de confiança teve de ser aprendido.

No interior das relações ocorre o mesmo processo de experimentação e aprendizado. Para muitos, essa coisa de abraçar não funciona logo de cara. É preciso tempo e proximidade para que o gesto se torne natural. Há uma parceria silenciosa nos nossos enlaces que precisa ser construída. É inútil apressá-la e talvez haja relações em que elas nunca se manifestem. Talvez por causa do temperamento dos envolvidos. Talvez pelo caráter mesmo do que existe entre eles.

Sei que algumas pessoas recusam até de forma inconsciente esse tipo de contato afetuoso. Elas o associam a acomodação. Escolhem manter a relação no que eu chamo de estágio do beijo, quando a fome e a curiosidade pelo outro ainda não foi saciada e parece que nunca será. Nesse momento sublime dos agarros, o acesso ao corpo do outro é 100% erótico. Apenas mãos, saliva, palavras. Tem gente que se embriaga disso e não quer sair. Evita o passo seguinte, em que o barato físico pelo outro dá lugar a outro tipo de coisa, mais suave e mais silenciosa – e os beijos famintos são substituídos, sem que se perceba, pelos abraços de conchinha. Não sei se alguém já fez um estudo científico sobre isso, mas parece que a convivência simultânea entre beijos famintos e abraços de conchinha é impossível no longo prazo. Vocês me digam.

Da minha parte, sinto que há opções a fazer e que a gente as faz todos os dias, em favor do abraço de conchinha. Passada a turbulenta adolescência, tendemos a construir relações estáveis. Nelas, os abraços cheios de sono e intimidade são mais frequentes que os beijos apaixonados. Há uma troca que parece refletir as nossas necessidades profundas. Deixamos de lado a paixão incandescente pelo afeto profundo. Trocamos tesão por amor. Claro, essa não é uma solução inteiramente satisfatória. Nem definitiva. Mas parece ser aquela que de forma mais frequente atende a nossa insondável, dolorosa e contraditória humanidade – a mesma que nos acorda no meio da noite, inquietos, e nos faz procurar, no escuro, o calor e o conforto do corpo do outro.

(Ivan Martins)

A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira.

Provérbios 15:1