"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017


#correndo contra o tempo

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017




“Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.”



“A metade da beleza depende da paisagem;
e a outra metade da pessoa que a olha...”

__Herman Hesse

proibido lembrar


Quando eu era pequena, vivia na ponta dos pés espiando e desejando habitar no mundo dos adultos. Na minha incorrigível ideia, adultos sabiam das coisas. Inventavam outras.

Então, cresci. Aprendi tudo dos adultos. Aprendi o que desejava e o que nunca quis. E repeti as lições. Adultos franzem a testa. Criam rugas. Andam apressados. Demoram sorrir. Trabalham o tempo todo. Compram muitas coisas. Guardam em armários. Possuem desejos estranhos. Fazem coisas contraditórias. Engordam. Ficam zangados.

Adultos possuem problemas reais e imaginários. Tomam remédios sem parar e nunca melhoram. Adultos fazem regras e desobedecem as leis.

Guardam dinheiro. Guardam mágoas. Conservam coisas, descartam pessoas.

Adultos são cheios de dúvidas. Complicam a vida. Fazem perguntas e não encontram respostas.

Adultos brigam por seus dilemas. Aventuram-se pelo conforto. Adultos desamparam quem precisa. Desatam laços. Fazem nós nas situações. Querem ultrapassar limites. Cometem loucuras sem motivos. Falam duramente. Ferem sem necessidade. Adultos perdem o juízo, a calma, a alma.

Adultos colecionam medos. Competem inutilmente. Estudam fórmulas, teorias, conceitos, regras e nunca usam.

Adultos ficam tristes por qualquer coisa. Preocupam-se a toa. Choram sem razão. Entopem-se de felicidade provisória. Desiludem-se. Não se entendem. Amam por obrigação. Esquecem por suposições. Machucam por ilusões. Passam adiante as responsabilidades. Esquecem das flores. Afugentam os pássaros. Resumem os carinhos. Dispensam a alegria.

Com os adultos a folia é silenciosa, os palhaços ficam sérios e o circo dorme.

Adultos escolhem pelos olhos e condenam pelo coração. São coisas que aprendi e quero esquecer.


“Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros.” 

(Romanos 12:4-5)

sábado, 2 de dezembro de 2017

“Tudo que eu sinto esbarra em Deus. 

#meu alicerce!

humor é coisa séria


Um dia desses, um amigo me enviou uma piadinha por WhatsApp, e eu não respondi nada, que é o máximo de educação que eu consigo manter diante de uma foto bizarra acompanhada de um trocadilho infame. Ele deveria ter se tocado que não agradou e deixado por isso mesmo, mas resolveu cobrar pelo meu silêncio: pô, humor tem que ser sempre inteligente?

Que eu saiba, só existe humor na inteligência. Na falta dela, reside a idiotice.

Eu sei, eu sei. Estou parecendo extremamente mal-humorada, mas, diante desta histeria coletiva de se mandar duzentas mil gracinhas para os grupos de WhatsApp, é preciso ficar atento. Quando fazemos parte de uma turma íntima, vá lá, a idiotice pode funcionar como uma válvula de escape para as tensões do dia a dia, além de ser uma forma de manter contato - a troca de piadas tolas substitui a cervejinha no fim de tarde que não se teve tempo de tomar. Em todo caso, é bom cuidar para que a bobajada intramuros não vire alienação irreversível.

Humor bom é humor crítico. Pense na Escolinha do Professor Raimundo e no Porta dos Fundos, por exemplo. Duas épocas e duas linguagens completamente diferentes, mas a crítica está ali, no subtexto. Uma é mais popular e alegórica, a outra é mais ácida e realista, mas ambas prestam homenagem à sua, à minha, à nossa inteligência.

O humor combate a hipocrisia. O humor é uma via de transcender a mediocridade. O humor estimula o raciocínio e a reflexão. O humor desestabiliza. O humor ridiculariza o status quo. O humor empodera movimentos ("Homem não gosta de calcinha bege. Poxa, manda ele usar uma cor-de-rosa então"). O humor nos insulta e nos obriga a rir de nós mesmos, nos reposicionando no mundo de uma forma menos solene e mais humana. É o antídoto mais eficaz contra a arrogância.

Inverter o estabelecido: transformar o notável em banal, o defeito em virtude, a derrota em vitória. O olhar renovado para velhas convicções desperta a nossa consciência e solta o nosso riso, seja através da paródia, da sátira, da imitação, da ironia, do exagero, do besteirol. Até mesmo aquilo que é engraçado sem querer (o uso de um chapéu totalmente sem noção, por exemplo, ou se desequilibrar e cair da cadeira) tem uma espontaneidade que quebra o protocolo.

Qual a quebra de protocolo que há no trocadilho? É um humor tão simplório que até constrange.

Pra quem deseja ir mais fundo no assunto, vale a pena ler o livro A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do português Ricardo Araújo Pereira. Ajuda a entender que o humor serve para acordar os neurônios, não para anestesiá-los, e que a ignorância só produz sorrisos amarelos.


“Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.”

Mateus 6:31-34

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017


Chegou dezembro.

E, mais uma vez, passou voando sem dar a chance de olhar para trás com um gosto ácido de saudade. Com ele, vem o congestionamento nas ruas e nas lojas, as filas que não param de crescer, as pessoas que aproveitam esse período para mostrar exatamente quem são. É na hora do cansaço de uma fila sem fim, do calor que embola o estômago e da falta de ar que não dá trégua que a gente percebe que nem todo mundo tem educação.

Chegou dezembro.
Um mês esperado por muitos e detestado por outros tantos. Uma época de comemorações, de uma mistura de solidariedade com exibicionismo, um período voltado para o consumismo e para as extravagâncias e orgias gastronômicas.

Chegou dezembro.
Este mês traz dentro do saco do Papai Noel um universo de pedidos, promessas, reflexões e anseios. É o momento das listas, do balanço, da verdade, da conversa séria, da decisão, da vontade de melhorar, da decepção em constatar que nem tudo saiu conforme o planejado naquele outro dezembro que já deu adeus há muito tempo.

Chegou dezembro.
Ele traz na mala aquela saudade de quem já partiu, das amizades desfeitas, dos amores que se foram, da família que mora longe, de quem mudou de estado, país ou cidade.


Dezembro traz a certeza de que a esperança ainda existe, sim. E sempre existirá. Esperança que renasce e se torna mais forte com a chegada de um novo ano. Esperança que traz a oportunidade de fazer coisas novas, de um jeito novo, com um novo olhar e uma nova forma de sentir e viver tudo que ainda há para viver.


somos todas divas


Até mesmo as mulheres mais estonteantes do planeta passam por momentos tensos em frente ao espelho. Nunca estamos 100%, ao menos não na nossa própria avaliação. Digo nossa a fim de englobar o gênero feminino, e não a classe específica das estonteantes, coisa que nunca fui. Bem que eu queria ser lindona, mas não me coube essa sorte e tudo certo.

A beleza pode ser substituída por charme, por sensualidade, por exotismo, por maturidade, por mil outros atributos. Jamais sonhei em ser clone da Barbie, uma perfeitinha sem expressão. Ando ocupada com questões mais relevantes, porém, claro, adoraria ser bonita, e não interessante, o eufemismo clássico para quem não chegou lá.

Calma. Está tudo bem. Ninguém cortando os pulsos por aqui.

A maioria das mulheres é bela. As brasileiras são exuberantes e atraentes em toda a sua diversidade. Negras, brancas, crespas, lisas, gordas, magras. Eu percebia isso já na sala de aula, criança ainda. Cada menina tinha sua graça. Eu me sentia o patinho feio entre todas elas e, como namorava menos, tinha solidão de sobra para me dedicar aos livros, que foram meus verdadeiros affairs da adolescência.

Ao menos era alta e tinha um corpo bacana, mas isso não era suficiente pra ser a primeira opção nas reuniões dançantes. Então os anos passaram e meu cabelo melhorou, minha cabeça melhorou, a vida melhorou, e por fim descobri que a atração entre um casal pode ser dar por outros caminhos, tanto que tive namorados, casei, descasei, segui namorando e me tornei o grande amor de mim mesma, a relação essencial que alavanca todas as outras. Mas, entre mim e meus botões, às vezes ainda lamentava: quem dera ser gata.

Até que surgiram as redes sociais e o autobullying chegou ao fim. Hoje, nem mesmo a irmã gêmea do Quasímodo tem do que reclamar. Somos todas divas.

A criatura acorda às sete da manhã com o rosto inchado pelas 26 long necks que entornou na noite anterior. Posta uma selfie de ressaca, coberta de olheiras, e adivinha os comentários: Lindíssima! Poderosa! Lacrou!

Se você tem um pouco de noção, deleta a foto da ressaca e posta a foto em que está com o cabelo estrategicamente cobrindo metade do rosto: Musa! Deusa! Arraso!

Você tem 96 anos, com aparência de 104, está deformada por uma dúzia de plásticas e posta um autorretrato mesmo assim, pois anda meio gagá e já não enxerga quase nada: Gatíssima! Avião! Perfeita!

Não é o paraíso? Se a gente não está num dia bom, é só escolher a melhor foto entre as duzentas que tirou no fim de semana, caprichar no enquadramento e postar com a legenda: “sem filtro”. E então começar a contar os “uau” pipocando um embaixo do outro. Não existe mais mulher feia nem com baixa autoestima - a não ser que ela não tenha seguidores.