"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quinta-feira, 22 de junho de 2017


“Ainda bem que em português ser e estar não são a mesma coisa. 
Eu quase sempre estou muitas coisas que nunca quero ser.”


#egocentrismo


“Mais que qualquer outra invenção humana, o humor permite que nos elevemos acima de nossas circunstâncias, ainda que por alguns segundos. É um truque essencial a arte de viver.”

__Viktor Frankl


“Quando a situação for boa, desfrute-a.
Quando a situação for ruim, transforme-a.
Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se.”

__Viktor Frankl

“A relva murcha, e as flores caem, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre.”

(Isaías 40:8)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

soneto ao inverno


Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfiguras as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma do céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?

Londres, 1939

enjoada



Sentir-se descalça no corpo todo.
Acho que isso é paz.

/Danielle Manhães/

guerra dos sexos, ainda?


Acho que estamos todos de acordo: o mundo melhorou muito depois que as mulheres passaram a trabalhar, a ganhar seu dinheiro, a ser donas dos seus desejos, a ter filhos se quiserem, a reivindicar salários equivalentes, a denunciar maus-tratos e a se unir umas às outras para não se deixarem reduzir por atitudes machistas. Não foram elas apenas que ganharam com isso, mas a sociedade inteira, incluindo os homens, já que eles deixaram de dividir a vida com um bibelô para dividir com uma parceira muito mais realizada e interessante.

No entanto, esse vigor libertário pode, às vezes, nos fazer estacionar, mesmo quando parece um avanço. Foi o que percebi ao assistir ao novo clipe da descolada Karol Conka. Ela acaba de lançar uma música convocando os homens a fazerem sexo oral em suas garotas. A causa é boa (aliás, é ótima). Se os rappers falam abertamente de sexo em suas letras, por que Karol Conka não poderia? Tanto pode que foi lá e fez. Aliás, o nome da música é Lalá. Lá mesmo.

Segundo Karol, em nota de divulgação, o clipe “mostra o universo feminino de uma maneira doce e ao mesmo tempo divertida”.

Pois me deu medo desta nossa nova doçura. “Moleque mimado bolado que agora chora/só porque eu mandei ajoelhar e fazer um lalá por várias horas”.

Outra doçura: “É inacreditável, eles ficam sem ação/quando a gente sabe o que quer e mete a pressão”.

Não convém reproduzir os outros versos, ou convém e eu é que sou fresca, mas prefiro que você mesmo dê um Google e me ajude a responder: é revide? Lutar pelos mesmos direitos significaria tratar os homens como objetos sexuais, justamente o que tanto lutamos para nos livrar? Basta pesquisar as letras cantadas por MC Lan, Bonde da Stronda ou o Rodo da Bahia para ver com que doçura os rappers falam das “mina”. É a mesma ordem de comando, a mesma petulância. Mandar ajoelhar. Meter pressão. Não era isso que eu imaginava ao defender a igualdade entre os gêneros.

Escrevi sobre sexo semanas atrás, destacando a importância de não fazermos julgamentos morais entre quatro paredes – é intimidade privada entre adultos. Mas levar a subjugação para as paradas de sucesso é confiar demais no discernimento de boa parte da garotada que poderá acreditar que prazer é algo a ser dado na marra.

Karol Conka é uma voz importante no cenário musical e político, uma mulher posicionada, que não se deixa intimidar por preconceitos. Necessária. Mas não consigo aplaudir esse discurso “I got the power” que me lembra muito o jeito estúpido com que já fomos tratadas. Antes, eles nos dominavam, agora nós os dominamos. E o fim da guerra dos sexos fica pra próxima encarnação.


Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.
Pois tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens — não provém do Pai, mas do mundo.

1 João 2:15,16

terça-feira, 20 de junho de 2017

escolhas


Sempre nos ensinam que a vida depende em boa parte de escolhas nossas. Isso também “depende”. Pois, se nasço branco e rico, negro e pobre, branco e doente, negro e saudável, oriental e talentoso, oriental e enfezado, se nasço no Norte mais pobre ou no Sul mais progressista, aqui no estranho Brasil ou em algum lugar muito carente da África mais remota, se meu pai é inuit num dos Polos ou banqueiro em Nova York, e assim por diante, digamos que a minha escolha não há de pesar tanto.

Essa é a base. Mas depois, aí vem o dilema – porque a gente não gosta de dilemas, que provocam escolhas. Depois das condições, não escolhidas, em que nascemos, vem um longo trajeto em que podemos seguidamente tomar decisões: droga ou trabalho, estudo ou boa vida, honra ou malandragem, afeto ou futilidade... enfim. Nada é perfeito.

Escolhas são aflição. Ofereçam ao seu pet um biscoito e um naco de carne, e ele poderá hesitar, perplexo: animais de estimação têm expressões assustadoramente humanas. Para os humanos, as escolhas são as mais diferentes e até absurdas: que roupa usar, no meu closet do tamanho de um bom quarto normal? Que arma vou usar no próximo assalto? Quem vou assaltar? O que vou comprar com o dinheirinho que me resta: remédio ou comida? Para onde devo me mudar? Por que me mudar?

Ainda falando de gente: existe um número imenso de alunos e professores que preferem uma aula bem digerida, nada de provocações por parte do mestre, pois os alunos podem exercer sua perigosa inteligência, sua inquietante liberdade, e argumentar, discutir... Talvez sejamos simplesmente preguiçosos, comodistas, lerdos. Queremos boa vida, nada de caminho pedregoso ou esburacado, nada de pais que impõem limite, professores ou patrões exigentes.

Pode ser delicioso ser filhinho do papai ou da mamãe, e não me refiro só à casa paterna, mas à vida em geral, também à profissão, aos estudos. Escolher é muito chato. Mas a vida não dá colo: passa muita rasteira, exige humildade, personalidade e resistência. Por outro lado – isso me provaram muitos jovens e alunos –, que alegria descobrir o próprio poder de decisão.

Crescer dói, e não só nos ossos infantis com a dita “dor de crescimento”. Dói na alma: “viver é lutar”, disse o poeta brasileiro ao filho, e é, sim. Mas tem umas compensações, como perceber que não somos totalmente ignorantes, incapazes e dependentes.

Descobrir que nosso trabalho, por mais simples que seja, tem importância, isto é, nós temos importância. Descobrir que somos necessários também para pessoas que nos amam, amigos, família, parceiros. Talvez essa seja a base de todo tipo de felicidade, que para mim é sentir-se bem na própria pele – mesmo fora dos grandes entusiasmos policromados: saber-se apreciado, profissional ou pessoalmente.

E todos somos. Nem precisam ser coisas grandiosas, ao contrário: o bom, o positivo, pode ser muito pequeno, e ainda assim essencial, como permitir-se ser amado, ser estimado, ser escolhido, ser eficiente. Mesmo que apenas (apenas?) para limpar a rua, trocar a atadura, estimular alguém, fazer alguém pensar por si, e saber-se capaz de fazer suas próprias escolhas.



“Pequena é a abelha entre os seres alados: o que produz, entretanto, é o que há de mais doce.”

Eclesiástico, 11 - Bíblia Católica