"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



domingo, 15 de outubro de 2017


“Se não morre aquele que escreve um livro ou planta uma árvore, com mais razão, não morre o educador, que semeia vida e escreve na alma.”

|Jean Piaget
#dia do professor
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Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores!
Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite.

Salmos 1:1,2
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quinta-feira, 12 de outubro de 2017


Coisas que eu descobri depois:
O playground dos adultos é muito desinteressante;
Quando crescer não passa, na maioria das vezes, piora;
Tomar conta da própria vida também significa cuidar das feridas sozinho;
Se eu não fizer almoço corro o risco de ficar com fome;
O meu quarto não é do tamanho do mundo;
O chazinho sem o colo não tem gosto de nada;
Tenho mais obrigações do que tempo livre;
A chuva que causava algazarras, hoje provoca resfriado;
Que besta eu fui por não ouvir minha mãe;
Saudades dos tempos em que o maior drama era não ter feito a lição de casa.

#feliz dia da criança que mora aí dentro de você!
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a máxima tragédia


Era uma senhora casada. Uma senhora casada e muito sábia que tinha uma filha de uns três anos. Pois essa mulher muito sábia não deixava a filha brincar com terra, não deixava a filha entrar no mar, não deixava a filha andar de pés descalços. A senhora era uma sumidade em seu ofício, respeitada por toda a sociedade, então era possível que tivesse razão quando impunha esses impedimentos dizendo que era para o bem da filhinha, para que a menina não pegasse doença, não corresse riscos. Eu escutava essa história e pensava: ok, é uma senhora sábia e a filha dela nunca vai ficar doente – mas eu não queria ser se essa filha vetada pra vida.

Era, eu também, uma menina, portanto meu pensamento não vinha acompanhado dessa eloquência toda, mas era assim que eu sentia. Sem pé na terra, pé na grama, pé na areia, que infância era aquela, que graça haveria em ser um bibelô cujo vestido jamais ficaria imundo, cuja trança jamais se desmancharia? Acreditavam todos que a intenção da senhora era amorosa e protetora (e era), mas eu achava que faltava mais um adjetivo, sem saber direito qual – ainda não conhecia a palavra paranoica.

Não sei que consequências teve isso na vida das duas protagonistas. Hoje aquela filhinha de três anos deve ter saudáveis 45, por aí, e a senhora sábia deve ter mais de 70. Todos sobreviveram, inclusive essa história que nunca me saiu da cabeça, e que de vez em quando retorna, como agora.

Associei essa lembrança do passado a uma frase dita pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner em entrevista recente. Disse ele: “Porto Alegre fez o muro da Mauá tentando evitar a máxima tragédia, o dia em que houvesse a maior enchente da história. Por causa desse muro, você não vê o Guaíba. A gente não pode querer evitar a máxima tragédia. O mais importante é a tragédia do dia a dia”.

Não brinque com terra, não brinque com fogo, não mergulhe, não arrisque, não salte, não se apaixone. Evite as máximas tragédias, recomenda o grilo falante acomodado em um dos nossos ombros, com cara de quem teve poucas alegrias na vida. É um cauteloso profissional, daqueles que constroem muros contra imprevistos que se prenunciam desestabilizadores. Mas temos dois ombros, não apenas um. À medida que o tempo passa, tenho escutado mais o que o outro grilo assopra no lado oposto do meu pescoço. É um danado, tem algumas cicatrizes no rosto, mas vive sorrindo e o brilho do seu olho é uma provocação. Diz ele: trágico, guria, trágico mesmo, é o medo.

A menina que fui já intuía que perigoso era ficar de sapatos o tempo todo. É preciso correr o risco de umas perebas, de uns arranhões, de algumas inflamações. A máxima tragédia pode vir nunca. Com as mínimas a gente se vira.
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#dia da leitura
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por que a gente devia ler


Já me perguntaram muita coisa, interessante, boba ou doida, nas entrevistas pelo país afora e até fora dele. Outro dia, porém, um professor da plateia me deliciou perguntando: “Dona Lya, que motivo devo dar a meus alunos para estudarem?”. Não precisei pensar: “Ué, para não ficarem burros”. Risada geral, até eu achei graça, porque era tão verdadeiro embora meio irreverente.

Prefiro certa irreverência ao politicamente correto, que acho detestável, hipócrita, moralista e... burro também. Ontem, ao telefone, numa entrevista, me perguntaram por que alguém deveria ler Virginia Woolf, de quem, aliás, traduzi há muito tempo uma bela biografia e uns quatro romances. Depois a jornalista emendou: “Melhor primeiro dizer por que as pessoas deviam ler”.

Contei minha resposta ao professor meses atrás. Mas expandi um pouco: acho que não se trata de dever ler, mas de exercer o direito de ler. Isso, num país de milhões e milhões de analfabetos, é um direito do qual nem nos damos conta, e pouco nos avisam. Atenção: alfabetizado não é só o que assina o nome, mas que assina embaixo de um texto que entendeu!!! O resto é empulhação. Assim, o número de analfabetos entre nós é prodigioso.

De saber ler a ler Virginia Woolf é quase um abismo, para poucos eleitos, ou que se alçaram até lá. Vamos começar com ler, simplesmente ler. Ir à escola, onde houver escola; onde houver acesso razoável à escola, sem perder várias horas ao dia no trajeto. Onde houver, melhor do que computadores onde não existe internet ou ninguém os sabe manejar, boas cadeiras e mesas, paredes sólidas, quadro-negro e o material mais elementar para se dizer “escola”.

O que há nos livros que os torna tão importantes? Experiências impossíveis no cotidiano, viagens, aulas de psicologia, de história, sensibilidade e emoção, aventura, diversão e crescimento pessoal. Fazer parte de um mundo bem maior do que o nosso cotidiano. Não importa se for uma leitura num tablet ou computador. (Eu confesso que não desisto do velho hábito do livro de papel.) A literatura não vai acabar, ainda que mude sua forma de se transmitir.

Nem precisamos ler literatura, muito menos clássica (a não ser na escola se ela for boa). Para quem não aprendeu a gostar, ou não tem esse dom mas tem muitos outros, ler Machado, Alencar, pode ser um tormento. Descubra o que lhe agrada ler: pode ser jornal, crônica, esporte, história, ciências, assuntos da Nasa, policiais (curto muito um bom policial), textos cômicos, o que importa é não ser analfabeto, não continuar ignorante, mas abrir-se ao prazer, ao luxo, de ler. E quem sabe um dia chegaremos a ler Virginia, seus textos elaborados, sutis, sofisticados, desafiadores. Vamos lá.

#dia da leitura

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Os olhos do Senhor estão em toda parte, observando atentamente os maus e os bons.

Provérbios 15:3
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sábado, 7 de outubro de 2017


O Aécio ser preso significa que o Lula é santo? Não. 
O Temer cair significa que a Dilma fez um bom governo? Não. 
Os milhares de pobres que tiveram suas vidas melhoradas durante o governo Lula representam um argumento forte o suficiente pra gente tapar os ouvidos pra todos os esquemas de corrupção no (e durante o governo do) PT? Não. 
Isso só aconteceu no (e durante o governo do) PT? Aff, não. 
Mas isso é desculpa pra gente não ficar #chateado com essa putaria deslavada? Não.
Eu tenho vergonha de já ter votado no PT? Não. 
Eu sairia hoje na rua pra defender o PT? Não. 
Ter bode de camisa polo ou diploma de letras na USP justifica dizer que nem um único liberal presta? Não. 
Muitos prestam? Não. 
Bolsonaro vai pro céu? Claro que não. 
Dá pra gente dizer que odeia o FHC mesmo ele apoiando o Huck? Não. 
Tem como não amar Pepe Mujica? Não. 
O Joesley é safadão? Não vem ao caso.

Se o país cair nas mãos de algum evangélico, showman ou publicitário vale a pena continuar colocando #gratidão nas redes sociais? Não. 
Fugir pra Miami vai continuar sendo opção de gente idiota? Não. 
Já fez algum sentido escrever gratidão ou colocar a florzinha da gratidão nas redes sociais? Não. 
Pessoas fofas e positivas e leves e muito felizes são legais de conversar? Não. 
Essas pessoas, por pior que sejam nossos candidatos, votam melhor que a gente? Definitivamente não. 
“Vote consciente” é uma frase que ainda faz sentido? Não.

Se todos caírem e só sobrar o Tiririca, melhor devolver o país pra Portugal? Não, essa piada meu avô fazia, já deu. Pensemos uma nova. 
Nenhum colunista de esquerda fala merda e todo colunista de direita fala merda? Mil vezes não. 
Enquanto inimigos íntimos de esquerda e de direita se bloqueiam e se desbloqueiam num sexo sujo virtual de entra e sai raivoso e estéril, a primeira dama da Friboi faz meia ruga na testa? Não.

Quando dá um nó na sua cabeça e você não entende mais nada ou tem profunda preguiça de se aprofundar no milésimo desdobramento canalha de algum político ou marqueteiro ou dono de empreiteira, isso significa que você é burro ou alienado? Não. 
Eu já achei o João Santana um gênio e quis ser amiga dele e trabalhar com ele? Não (mentira, já). 
A Mônica Moura estava histericamente empolgada na delação premiada porque faz uso de remédios ou porque todo baiano é acima de tudo feliz? Não saberemos.

Existe hoje algum político que nos emocione, nos faça acreditar, militar e, ao mesmo tempo, pareça ter força pra governar esse país? Não. 
Apesar de tudo, vai dar tudo certo? Não. 
As pessoas que não aceitam isso e colocam a mão no fogo por determinado candidato ou partido fazem isso porque são geniais, estudaram mais do que você e conseguem ver uma verdade que civis limitados não conseguem? Não. 
Se eu fosse solteira daria uma chance para aquele policial de coque? Não responderei.

Ver o Cabral, o Eike e o Cunha presos significa que o Moro é um herói que chegou pra tirar nossos ideais da solidão? Não. 
A gente pode dizer que o Moro é um vendido escroto amigo risonho do Aécio que não fez nenhum bem pro país? Não. 
O Lula ter usado a mulher morta em sua defesa foi bonito de ver? Não. 
Você ter quase acreditado no Lula porque ele fala bonito quer dizer que você é uma besta quadrada? Não. 
O Cunha ter recebido tantas mesadas e o seu filho ter ficado sem nenhuma mesada é motivo para estraçalhar bens públicos? Não. 

Somos pessoas carentes, infantilizadas, necessitadas de juntar amigos em grandes avenidas e torcer por algum líder, algum deus, algum salvador e por isso nos agarramos a crenças vazias, diariamente frustradas e acabamos sendo pequenas massinhas apáticas de manobras multicoloridas?

amor triste


Amor triste não é aquele em que nos arrependemos dos vacilos e das falhas, da falta de palavras e da incoerência.

Não sofremos tanto quando a separação é justa e fizemos por merecer. Aceitamos o fim por mais penoso que seja, porque vislumbramos um motivo para não estarmos juntos. Tem uma explicação pontual, um desvio de percurso, uma quebra de lealdade que feriu e destruiu a confiança mútua. É de se entender a ruptura pelo contexto de uma mágoa.

Amor triste não é aquele em que nos arrependemos das brigas e das discussões, das ofensas e das maldades, pois é natural se destruir quando se gosta muito. 

Amor triste, ironicamente, é quando nos constrangemos da própria alegria, nos arrependemos dos momentos felizes, das viagens e passeios, dos presentes e dedicações. Nem a euforia que existiu fica de pé. Nem as fotografias mais bonitas sobrevivem.

É quando saímos da relação com o nítido pressentimento de que estávamos sozinhos desde o início.

É aquele amor esvaziado, que não nos serve de experiência, que não nos aperfeiçoará para futuros laços, não nos acrescentou em nada para aprendermos a lidar melhor com a dor.

É aquele amor melancólico, onde chegamos à conclusão da total perda de tempo, a ponto de lamentar o sacrifício da nossa juventude e de anos valiosos da vida.

É aquele amor ladrão que nos leva inclusive os finais de semana e as férias, a paz de ter tentado, o alívio de cenas emocionantes.

É aquele amor desmemoriado, no qual erramos a companhia muito mais do que errar qualquer passo durante a convivência. Até o contentamento soa falso, até a festa era para dentro.

Amor triste é o que não deixa saudade nem do que foi bom.



“Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem” 

(Salmo 23:4)