"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quarta-feira, 24 de maio de 2017


Notas sobre ela
Ela ia assim em busca de sentir
em qualquer canto
um encanto qualquer

Zack Magiezi

almas mezzo gêmeas


(...)
Não é que eu não acredite em almas gêmeas, acho até possível que existam duas pessoas com um grau de afinidade absoluto e temperamentos praticamente iguais, sem falar na química que faria corar as paredes do quarto. Se eles por ventura se encontrarem, será o relacionamento dos sonhos, mas o problema é justamente este: o encontro. Não seria muita sorte sua alma gêmea, sendo tão rara, frequentar o mesmo bar, estar no mesmo grupo de WhatsApp e ter amigos em comum no Face?

Somos 7 bilhões no planeta. Não parece mais lógico que sua alma gêmea esteja vivendo em Macau, em Auckland, em Salzburg? Pense. Ela estaria justamente ali no boteco da esquina, comendo um pastelzinho de camarão com os olhos fixos em você? É mais provável que esse estranho com os olhos fixos em você seja uma alma oposta a ser desbravada. Nada contra. Das aventuras surgem amores não univitelinos, mas que divertem.

Almas gêmeas, se existem, estão a muitos quilômetros de distância, com poucas chances de cruzarem olhares e fundarem a relação perfeita. Eu acredito na sorte, mas com parcimônia. Poucas semelhanças – serve. Temperamentos conflitantes, mas que ajudam a equilibrar a relação – serve também. Diferenças que mantêm a vontade de explorar o universo do outro – serve. Querida leitora, esqueça almas 100% gêmeas, mais vale se contentar com algumas similaridades que dão conta do recado.

Uma biblioteca gêmea, por exemplo. Você entra na casa do cara e descobre que os autores na estante são os mesmos que estão na sua. Comemore. Vocês dois são almas gêmeas, em parte. Não importa se um gosta de cerveja e o outro é abstêmio, se um é crente e o outro um devasso: vocês leem os mesmos autores, estão sintonizados pela boa literatura, a conversa está garantida, não exija mais do que isso, case-se agora.

Uma discografia gêmea. O Spotfy traz a mesma playlist. O que arrepia os pelinhos do braço de vocês é a mesma guitarra de Jeff Beck, o mesmo vocal da Amy Winehouse, o mesmo cenário indie rock, ou o mesmo sertanejo, vá lá, sertanejos também amam, até mais do que roqueiros, reza a lenda. Você tem ideia de como isso facilitará na hora de viajar de carro?

Uma cinefilia gêmea. Vocês veneram os mesmos diretores, os mesmos tipos de filme, mesmo que, no reduto do lar, se desesperem na hora de educar os filhos (um liberal, outro repressor) ou na escolha do cardápio (um vegano, outro carnívoro). Mas, quando vão ao cinema, as mãos não se desgrudam no escuro. Acredite, isso faz mais por um relacionamento do que as promessas matrimoniais ditas no altar.

Sou romântica o suficiente para acreditar que partículas de afinidade bastam pra começar uma história de amor. Almas mezzo gêmeas – serve.



“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.” 

Tiago 1:12

terça-feira, 23 de maio de 2017


Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava resolvido a encontrar meios de melhorá-los. Passava dias em seu laboratório em busca de respostas para suas dúvidas.

Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário decidido a ajudá-lo a trabalhar. O cientista, nervoso pela interrupção, tentou que o filho fosse brincar em outro lugar.

Vendo que seria impossível demovê-lo, o pai procurou algo que pudesse ser oferecido ao filho com o objetivo de distrair sua atenção.

De repente deparou-se com o mapa do mundo, o que procurava! Com o auxílio de uma tesoura, recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou ao filho dizendo:
— Você gosta de quebra-cabeças? Então vou lhe dar o mundo para consertar. Aqui está o mundo todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho! Faça tudo sozinho.

Calculou que a criança levaria dias para recompor o mapa. Algumas horas depois, ouviu a voz do filho que o chamava calmamente:
— Pai, pai, já fiz tudo. Consegui terminar tudinho!

A princípio o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível na sua idade ter conseguido recompor um mapa que jamais havia visto. Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança.

Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares. Como seria possível? Como o menino havia sido capaz?

Então ele perguntou:
— Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu?

— Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem que eu sabia como era.
Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo.


Aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia e mesmo assim insisto.

amigos


#mundo líquido
Baseado no vídeo, abaixo, do sociólogo Zygmunt Bauman, 
falecido no dia 09/01/2017



"Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou" 

(Apocalipse 21:4)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

analogia


No ventre de uma mãe havia dois bebês. Um perguntou ao outro: “Você acredita em vida após o parto?”

O outro respondeu: “É claro. Tem que haver algo após o parto. Talvez nós estamos aqui para nos preparar para o que virá mais tarde.”

“Bobagem”, disse o primeiro.
“Não há vida após o parto. Que tipo de vida seria essa?”

O segundo disse: “Eu não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez vamos poder andar com as nossas pernas e comer com nossas bocas. Talvez teremos outros sentidos que não podemos entender agora.”

O primeiro respondeu: “Isso é um absurdo. Andar é impossível. E comer com a boca? Ridículo! O cordão umbilical nos fornece nutrição e tudo o que precisamos. Mas o cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto logicamente está fora de questão.”

O segundo insistiu: “Bem, eu acho que há alguma coisa, e talvez seja diferente do que é aqui. Talvez a gente não vai precisar mais deste tubo físico.”

O primeiro respondeu: “Bobagem. E além disso, se há mesmo vida após o parto, então por que ninguém jamais voltou de lá? O parto é o fim da vida, e no pós-parto não há nada além de escuridão e silêncio e esquecimento. Ele não nos leva a lugar nenhum.”

“Bem, eu não sei”, disse o segundo, “mas certamente vamos encontrar a Mãe e ela vai cuidar de nós.”

O primeiro respondeu: “Mãe? Você realmente acredita em Mãe? Isso é ridículo. Se a Mãe existe, então onde ela está agora?”

O segundo disse: “Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Nós somos dela. É nela que vivemos. Sem ela este mundo não seria e não poderia existir.”

Disse o primeiro: “Bem, eu não posso vê-la, então é lógico que ela não existe.”

Ao que o segundo respondeu: “Às vezes, quando você está em silêncio, se você se concentrar e realmente ouvir, você pode perceber a presença dela, e pode ouvir sua voz amorosa, lá de cima.”

Este foi o modo pelo qual um escritor húngaro explicou a existência de DEUS.

recebido por whatsapp


Na imposição do lápis, hesito:
Escrevo um poema ou pinto os olhos?
Frente à maçã:
Dou a mordida ou uso o blush?
Esse tom bourbon
vem da palavra ou do batom?
Visto meu tomara-que-caia ou torço:
Tomara-que-fiques.
Uso renda e saio toda prosa ou
espero que renda a prosa?
Expiro, inspiro:
Um romance?
Dá pra viver os dois ou
dou pros dois?
Não sei se ando movida pela vaidade ou pelo desejo.
Reminiscências ou feminiscências?
Poeta ou fêmea onde a carne freme?


#gratidão sempre!



“A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um.” 

Colossenses 4:6

#moderação

terça-feira, 16 de maio de 2017


Estamos estranhos. Cada vez mais. Imersos na dinâmica de inúmeras derivações prefixais, seguimos indispostos à consciência. Desvivendo, desumanos, desregrados, despreparados, desleais.

Des à frente de valores fundamentais, des à frente de verbos essenciais à maturidade humana.

Enquanto o outro nos fala, digitamos um texto a alguém que está distante. E ainda oferecemos consolo ao que está diante de nós. “Pode falar que eu estou te ouvindo”. Não, não estamos ouvindo. Estamos no protagonismo do embuste que nos desensina as regras do encontro.

Estamos desertados, devassados. Assustadoramente devassados. Perdemos a medida do que deveria pertencer somente a nós e do que deveria pertencer somente ao outro. Registramos. A tudo registramos. Alucinadamente registramos. Como se pessoas fossem monumentos públicos, como se todos estivessem dispostos a viver os excessos de nossa publicidade, como se todos estivessem sob a proibição da intimidade. Tudo para nossa promoção, manutenção de um mundo paralelo que cumpre a função de nos conceder o privilégio de prevalecer, ainda que por alguns instantes, sobre os outros que buscam o mesmo disparate que nós. As praças virtuais modernas substituíram as praças medievais da inquisição.

Purgamos nossos pecados nos escolhidos ao achincalhamento de cada dia. Um eleito qualquer na fogueira virtual, pego por alguém qualquer que filmava o particular que não lhe pertencia, e todos ficarão esquecidos temporariamente de suas mazelas. Queimar o outro nos ajuda a dar disfarce aos mesmos crimes que cometemos, mas que não foram deflagrados.

Estamos desmedidos. Na ânsia de sermos notados, inventamos motivos, fingimos alegrias, expomos os incapazes, criamos intrigas. Tudo porque não suportamos o vazio causado por nossos des. Tudo porque estamos fartos e cansados da superficialidade que condena nossa rotina.

Estamos desprovidos. De consistência, bom senso, delicadeza, educação.
Que o tédio nos chegue a galope. Que a saturação nos venha antes que o absurdo se torne natural. A desconstrução é doída, mas necessária. Colocar o des à frente de conjugações que favoreçam a nossa humanização.

Desmentir, desestruturar, desobedecer a tudo o que nos idiotiza e nos despersonifica. Que a redenção nos chegue pelos braços da reflexão. Somente quando pensamos a vida que vivemos é que podemos interferir no como vivemos.