"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



quarta-feira, 26 de abril de 2017


ô, de casa


Era certo como Natal e Ano-Novo. A família se reunia na véspera das aulas para encapar os cadernos.

Sentávamos todos os irmãos e a mãe ao redor da mesa para colocar uma capa transparente ou uma estampa que sobrava dos presentes.

Um dos únicos dias do ano em que dormíamos tarde, atravessando de longe a meia-noite.

Lembro da função: recortar papel bonito, dobrá-lo nas orelhas e paramentar uma por uma das obras para o começo do ano letivo.

Estudar significava um prêmio. Não podia chegar de qualquer jeito na escola. Assim como revisávamos o uniforme (podia ser pobre, mas sempre limpo, podia ser gasto, mas sempre lavado), não permitíamos que nenhum livro viesse sem uma sobrecapa. Tinha que durar. Tinha que sobreviver aos sanduíches do recreio e às gotas perdidas do Nescau da térmica. Tinha que aguentar as viradas de página e o manuseio infinito.

A mãe transformava a tarefa em festa. Ela nos ensinava a embrulhar devagar, a preencher o nome e a série que iniciaríamos em todos os itens, colava durex com o nosso nome nos objetos do estojo de madeira, incitava o orgulho da letra e do capricho.

Ela descia à nossa idade para mediar a ansiedade, perguntava se manteríamos a mesma turma ou viriam colegas novos, questionava qual tinha sido o professor preferido, de quem sentíamos mais saudade, se escondíamos um amor secreto nas amizades. Quando não respondíamos nada, nos atacava com cócegas debaixo dos braços: “Fala, fala, fala!”.

Ninguém recebia um caderno diferente de outro irmão. Tudo igual, para não gerar ciúme e competição. A maior parte não contava com fotografia e desenho famoso, não descendia de grife e marca. Cadernos simples, pautados, sem espiral, pequenos, incluindo o temido de caligrafia. As folhas costumavam ser duplas, não havia como arrancar nenhuma página sem fazer estrago na costura.

Apontávamos os lápis, como quem repassa um exército enfileirado. Dois para cada filho. Eu queria ser famoso como Faber-Castell. Partilhávamos as mesmas iniciais. Jurava que Faber-Castell era filho do Johann Faber.

Não usávamos caneta. Caneta pertencia ao mundo do escritório, coisa de adulto. Nossa condição estava restrita a escrever rascunhos até crescer e virar gente grande.

Amava aquele tempo de expectativa, de preparação para momentos importantes da vida. Não vivíamos apenas, mas nos preparávamos para viver.

Existia uma paciência que não existe hoje, de esperar a televisão aquecer até vir a imagem, de furar a lata de azeite com um preguinho, de aguardar a foto revelar, de escrever cartas, de descontar um cheque, de lustrar os móveis com o óleo de peroba, de catar cidades no mapa, de ir até o orelhão para falar com parente no Interior, de mandar telegrama em caso de doença ou morte, de suportar o leite fervendo e a massa do bolo descansar, de degelar a geladeira, de pensar como seríamos felizes se passássemos naquele ano por média.


O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono:
Louvado seja Deus!


“Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos! Do trabalho de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.” 

Salmos 128:1-2

terça-feira, 25 de abril de 2017


turbilhão


Fico escutando as quantias (dois milhões, quatro, nove) e a cifra vai aumentando até que de milhões a bilhões muda apenas a consoante no início da palavra, pois parece que já não se trata de dinheiro – entramos num território mais subjetivo e intangível.

Que grana toda é essa que saía de uma conta corrente para entrar em outra, numa transferência que parecia uma simples jogada do Banco Imobiliário? O brinquedo da Estrela existe até hoje e é assim descrito nos sites de venda: “Você agora poderá ser um próspero proprietário de imóveis. Ter crédito em banco, títulos, terrenos, casas e hotéis nos melhores pontos da cidade. Onde o céu é o limite! Cabe a você investir tudo que possui para tornar-se um milionário e monopolizar o mercado imobiliário. Para isso, você terá que provar que tem faro para os negócios”.

Dinheiro de papel. A gente se divertia com isso. Era fácil se sentir rico. Ter o céu como limite. Em que momento a pessoa se apega tanto a uma fantasia infantil, que não consegue mais crescer? Troca dinheiro de papel por dinheiro de verdade sem perceber que está negociando outros valores.

Ouço, leio: 7 milhões, 25 milhões, 300 milhões. E apenas uma palavra me vem à cabeça: pobreza. Que vida miserável. Não bastasse a total ausência de escrúpulos, a pessoa não consegue se contentar com o suficiente, nunca atinge um montante que sirva para apaziguar sua insignificância. A ganância é um sorvedouro, o muito é pouco, é nada para quem carrega dentro de si um buraco profundo no lugar onde deveria haver retidão.

Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu? Que saldo deveria aparecer em nosso extrato para nos sentirmos seguros, satisfeitos e dizer: ok, já tenho o que preciso, me basta.

Não é aos 30 nem aos 40 anos de idade que a gente começa a acumular bens. Nosso patrimônio é constituído bem mais cedo, antes até de aprendermos a brincar com o Banco Imobiliário. É o que investiram em nós, na infância, que vai determinar para que servirá, de verdade, o nosso faro, se para correr atrás de uma vida digna ou para enfiar o nariz numa lixeira.

Se fizerem investimentos no nosso caráter, na nossa inteligência, na nossa segurança emocional, seremos tão ricos que não nos importaremos de parecer uma pessoa barata aos olhos dos outros – nos contentaremos com uma casa boa e não gigante, com um carro legal e não um tanque de guerra, e nos vestiremos com despojamento em vez de desfilar por aí feito uma árvore de Natal. Alguém tem medo de parecer barato aos olhos dos outros?

Infelizmente, a lista é longa. Bem mais longa do que a do Fachin.


“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” 

(2 Timóteo 3:16-17)

domingo, 16 de abril de 2017



Viver e morrer são dinâmicas inevitáveis.
Cada um sabe o tanto que morre.
Cada um sabe o tanto que vive.
As escolhas estão por toda parte.
Mas o Cristo está diante de nós.
Em suas mãos não há outra coisa senão a sua Misericórdia.
O motivo de sua morte é o motivo de nossa vida.
Ele morreu porque quis nos ensinar que a justiça divina compreende também a sua capacidade de amar.
Ele nos deu o direito de sermos íntimos do Pai.
Ensinou caminhos simples, diretos, sem rodeios.
Ensinou que podemos ser santos, mesmo sendo proprietários de tantos defeitos.
Ensinou que há sempre uma esperança escondida dentro de nós,
e que procurar por ela é um jeito bonito que temos de colocar os nossos passos nas marcas de seus pés.
Neste tempo de Ressurreição queiramos a sua misericórdia.
Eu quero.
Queira também.
Eternamente.


Eu quero!

sábado, 1 de abril de 2017


mentiras


Desde cedo somos programados e educados para mentir. Desde cedo nos ensinam que existem “mentiras bobas” ou “mentiras boas”, que são completamente diferentes das “mentiras ruins” (aquelas que supostamente seriam as únicas que causam algum tipo de dano a alguém). Em um grau de sofisticação um pouco maior, chegaram a nos ensinar que algumas mentiras são, inclusive, benéficas, porque protegem alguém de algo. Ou então que a omissão é a “arte de não mentir sem precisar dizer a verdade”. Resumindo: nos ensinam que é possível viver uma vida honesta mesmo que por muitas vezes, em maior ou menor grau, visitemos um “campo de distorção da realidade”. Que de maneira alguma é uma mentira.

Pois bem, aprendemos isso com todo mundo e não só com os nossos pais. A sociedade nos ensina nos pequenos gestos. Quando um parente/conhecido chato liga e você manda falar que não está (também funciona para os telemarketing). Quando alguém está acima do peso e você “por educação” elogia o seu corpo. Quando algum defeito de uma pessoa transforma-se em uma repressão de comentários. Quando alguém faz uma pergunta simples (como, por exemplo, se te acordou com o telefonema) e você mente para “ser educado”. A questão é que fazemos isso diariamente na frente dos nossos filhos. Nossos pais já faziam isso e os pais deles também. Vemos as pessoas fazendo isso todos os dias, o tempo todo.

Mas não estou aqui para defender a postura da “sinceridade total” ou do “sincerissídio”. O que me incomoda é constatar que essa postura, que ao longo da vida vai nos parecendo normal e até ganha padrões de funcionalidade, acabam atrapalhando o dia a dia das empresas. O comportamento da “mentirinha inocente” é capaz de gerar custos invisíveis, que deixariam o pessoal de finanças de cabelo em pé. As mais comuns são usadas com a justificativa válida de “salvar a própria pele”. São informações, números ou fatos ditos e repetidos quando o interlocutor não tem a menor ideia da resposta correta. Em geral, quando é algum superior que pergunta.

A dificuldade inicial de não admitir que desconhece a informação e a dificuldade maior de reconhecer que deu uma resposta equivocada faz com que profissionais trabalhem para validar um dado errado. Já vi equipes inteiras tendo que comprovar uma informação que foi proferida em um momento de pressão diante do chefe e que depois tem que virar realidade para evitar um desconforto maior. No fim das contas o que acontece é que, como somos programados para pensar que uma “mentirinha só não dói” e ao mesmo tempo temos que comprovar diariamente que temos o total controle das informações, deixamos de lado, automaticamente, duas palavras que facilitariam tudo para todo mundo: “não sei”.

Proponho um desafio: cada um conta quantos “não sei” ouviram de alguém em uma reunião de trabalho nos últimos meses. Garanto que não vai preencher cinco dedos de uma mão. Todo mundo sabe de tudo, mesmo que seja mentira. Todos têm os números de cabeça e na ponta da língua. Há reuniões que mais parecem uma prova oral do primeiro grau - as pessoas decoraram todos os resultados e fórmulas para que possam ser cuspidos ao sinal da primeira dúvida. E o engraçado é que muitas vezes quem ouve a “resposta inventada” se dá por satisfeito, mesmo que ache estranha a informação dada. Talvez também por medo de parecer que não conhece o processo ou a informação, talvez por querer acreditar que seus subordinados têm todas as informações, talvez por não querer expor a pessoa (e voltar ao ciclo da “mentira boa”, no qual você mente acreditar para ser educado).

A questão é que, de mentira em mentira, acabamos perdendo tempo demais ou corrigindo as informações dadas ou “distorcendo um pouco o campo da realidade” para adequá-lo às nossas mentiras. Só tem um problema nessa equação: se tempo é o bem mais escasso que temos (alguns até dizem que é dinheiro) e estamos gastando para confirmar nossas mentiras, em que momento estamos trabalhando com a verdade? Ou quanto dinheiro e tempo eu poderia estar economizando se começasse a fazer diferente? 

___André Moragas

Pensei em fazer piada sobre o 1º de abril, mas me recordei que a mentira já me feriu muitas vezes: quando me contaram e quando contei. 
Me recordei das vezes em que pensei conhecer e não conhecia; em que acreditei ser e não era. 
Hoje, troco a piada por uma prece: “que seu seja verdadeiro, tanto quanto espero que os outros sejam.”

__Abner Santos