"Ando no rastro dos poetas, porém descalça... Quero sentir as sensações que eles deixam por ai"



domingo, 18 de fevereiro de 2018


minimalismo



Tenho uma amiga que mora na Europa há anos. Vive com a filha num apartamento de frente para um parque, tem um carro, um emprego e um namorado. Em tese, ela não tem do que se queixar, mas conversávamos outro dia sobre o que significa estar tudo bem. Para ela, tudo bem é experimentar novas formas de existir. A gente assina um contrato de locação de um imóvel, se acostuma com a mercearia da esquina e quando vê está enraizado num estilo de vida que se repete dia após dia, sem testar nosso espanto, nossa coragem, nossa adaptação ao novo. Humm. O que você está inventando?, perguntei a ela.

- Vou morar num barco.

Ainda bem que eu estava sentada. Pensei: “Essa garota é maluca”.  E logo: Que inveja.

Tenho zero vontade de morar num barco. Minha inveja foi do desapego e da facilidade com que ela escreve capítulos surpreendentes da sua biografia. Tenho coisas demais, Martha. Livros demais, roupas demais, móveis demais. Está na hora de viver com menos para poder redefinir o significado de espaço, tempo, silêncio. O gatilho da nossa conversa foi o documentário Minimalism (disponível na Netflix), que escancara a estupidez do consumo compulsivo, como se ele pudesse preencher nosso vazio. Vazio se preenche com arte, amor, amigos e uma cabeça boa. Consumir feito loucos só produz dívidas e ansiedade.

Temos perdido tempo, nas redes sociais, criticando o bandido dos outros e defendendo o nosso, sem refletir que o caos político e social têm a mesma fonte: nossa relação doentia com o dinheiro. A ideia de poder deveria estar associada à gestão do ócio, às relações afetivas, ao contato com a natureza e à eficiência em manter um cotidiano íntegro, produtivo e confortável (nada contra o conforto), no entanto, poder hoje é sinônimo de hierarquia, acúmulo de bens, ostentação e lucratividade non-stop. É por isso que, para tantas pessoas, é natural incorporar benefícios imorais ao salário, ganhar agrados de empreiteiras e fazer alianças com pessoas sem afinidades, mas que um dia poderão vir a ser úteis.

A sociedade não se dá conta do grau de frustração que ela mesma produz e continua cedendo a impulsos. Uma vez, eu estava na National Portrait Gallery, em Londres, quando, na saída, passei pela loja do museu e percebi, ao lado do caixa, um aquário cheio de latinhas de metal à venda, pouco maiores que uma moeda. Era manteiga de cacau no sabor chocolate & mint.

Sem hesitar, comprei uma latinha e trouxe-a comigo para o Brasil: hoje ela reside na bancada do banheiro, intocada, para me lembrar de como se pode ser idiota - eu estava dentro de um dos maiores museus do mundo e mesmo assim fiquei tentada a comprar a primeira besteira que vi. O exemplo é bobo, mas ilustrativo de como certos gritos ecoam dentro de nós 24 horas: Compre! Leve! Aproveite! Você nunca mais será o mesmo depois de usar a triunfante manteiga de cacau da National Gallery!

O único excesso que preciso é de consciência para não me deixar abduzir por essa forma equivocada de dar sentido à vida.



“Quando você atravessar as águas, eu estarei com você; e, quando você atravessar os rios, eles não o encobrirão. Quando você andar através do fogo, você não se queimará; as chamas não o deixarão em brasas.” 

Isaías 43:2

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

inventar o amanhã


    “Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.”

     “Às vezes a vida te bate com um tijolo na cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me fez continuar foi que eu amava o que eu fazia. Você precisa encontrar o que você ama. E isso vale para o seu trabalho e para seus amores. Seu trabalho irá tomar uma grande parte da sua vida e o único meio de ficar satisfeito é fazer o que você acredita ser um grande trabalho. E o único meio de se fazer um grande trabalho é amando o que você faz. Caso você ainda não tenha encontrado, continue procurando. Não pare. Do mesmo modo como todos os problemas do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer relacionamento longo, só fica melhor e melhor ao longo dos anos. Por isso, continue procurando até encontrar, não pare.”

     “Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso não querem morrer para estar lá. Mas, apesar disso, a morte é um destino de todos nós. Ninguém nunca escapou. E deve ser assim, porque a morte é provavelmente a maior invenção da vida. É o agente de transformação da vida. Ela elimina os antigos e abre caminho para os novos.

     “Você não pode conectar os pontos olhando só para a frente; você só pode conectar os pontos olhando para trás. Assim, você precisa acreditar que os pontos irão se conectar de alguma maneira no futuro. Você precisa acreditar em alguma coisa – na sua coragem, no seu destino, na sua vida, no karma, em qualquer coisa. Este pensamento nunca me deixou na mão, e fez toda a diferença na minha vida. Não se prenda pelo dogma, que nada mais é do que viver pelos resultados das ideias de outras pessoas.”

Steve Jobs


Teologia sertaneja do Riobaldo, do Grande Sertão:


“[…] O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. 

Afinam e desafinam. Verdade maior. É que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. 
E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! 
Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! 
A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! 

Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. 
E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. […]”


Busquei o Senhor, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores.

Salmos 34:4

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

heróis do dia a dia


Eu acredito em heróis
De carne, osso e suor.
Heróis que acertam e que erram,
Heróis de uma vida só,
Heróis de alma e de corpo
Que um dia vão virar pó.

Os verdadeiros heróis
Vivem histórias reais,
Não são estrelas famosas,
Não estampam os jornais,
São como eu e você
Seres humanos mortais.

É aquele professor,
Que ensina o aluno a ler,
É alguém que mata a fome
De quem não pode comer,
Herói é quem faz o bem
Sem nenhum super poder.

É aquele que trabalha
Todo dia honestamente,
O agricultor no campo
Debaixo de um sol quente,
É o médico no consultório
Salvando seu paciente.

É um bom policial
Arriscando a própria vida,
Pra que a sociedade
Esteja bem protegida,
É um voluntário na guerra
Distante de sua terra
Cuidando de uma ferida.

É quem dá um bom conselho
A quem tá desesperado,
É quem indica um emprego
Pra qualquer desempregado,
É quem simplesmente abraça
Quem tem que ser abraçado.

Herói é o diferente
Que luta por igualdade,
É quem cobra dos políticos
Respeito e honestidade,
É quem enfrenta a mentira
Com o poder da verdade.

Não espere por medalhas,
Homenagens de ninguém,
A consciência tranquila,
De que você fez o bem,
É muito mais valiosa
Que os aplausos de alguém.

Pra ser um super herói
Não é preciso voar,
Tão pouco ser imortal,
Essa vida vai passar,
E é cada gesto seu
Que vai lhe imortalizar.

Herói sou, é você,
É essa gente do bem,
Que peleja todo dia
Para se salvar também.
Que entende que a união
Talvez seja a solução
E que isso nos conforte.
Que esse povo unido
Consciente e destemido
É um herói muito mais forte.

Bráulio Bessa

as mãos do meu pai


As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas
essa chama de vida — que transcende a própria vida
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


Se alguém é rico e vê o seu irmão passando necessidade, mas fecha o seu coração para essa pessoa, como pode afirmar que, de fato, ama a Deus? 
Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. 

1 João 3:17-18 - NTLH

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018